As delícias – e as dores – da vida de frila

Cansou de entrar todo dia no trabalho às 8h30 e só sair no fim da tarde? Antes de jogar tudo para o alto, saiba o que é preciso de planejamento, disciplina e soft skills para se dar bem como profissional autônomo.

Por Alexandre Carvalho
5 fev 2025, 08h00
Trabalhadora home office em seu jardim.
 (Gary Yeowell/Getty Images)
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A

ssim como muitas palavras e expressões do nosso vocabulário, freelancer tem origem bélica. “I offered Richard the service of my Free Lances, and he refused them – I will lead them to Hull, seize on shipping, and embark for Flanders; thanks to the bustling times, a man of action will always find employment.” (“Ofereci a Richard meus serviços como guerreiro mercenário, e ele os recusou. Vou levá-los até Hull, tomar posse dos navios e embarcar para Flandres; graças aos tempos agitados, um homem de ação sempre encontrará emprego.”).

Este trecho, do livro Ivanhoé, escrito pelo escocês Walter Scott, é considerado por muitos estudiosos como sendo a primeira menção a “free lance” no sentido de um serviço autônomo, sem vínculo empregatício. É de 1820. Free, claro, significa “livre”; já lance tem a ver com ataque: arremessar, lançar ou descarregar com força. Ou seja, um freelancer era um mercenário que se juntava ao país ou líder militar que lhe pagasse mais. 

Assim como hoje, tratava-se de uma opção de vida profissional. Em vez de ter um chefe, empresa (ou “exército”) fixos, trabalhar para diversos clientes, dependendo do quão atraente fosse a oferta, e alternando serviços diferentes. 

No Brasil, com a reforma trabalhista de 2017, que tornou os vínculos empregatícios mais fluidos, muita gente partiu para a vida de frila em vez de responder a um mesmo chefe, fazer sempre a mesma coisa, e ter de negociar suas condições de trabalho com quem tem muito mais poder para estabelecer as regras: os empregadores. A reforma permitiu que as organizações contratassem trabalhadores terceirizados para atividades-fim da empresa. E também a contratação de autônomos, sem vínculo empregatício, para outros serviços. Ou seja, um pessoal sem 13º salário, férias remuneradas, e que também não gera encargos trabalhistas para as companhias. 

Mais tranquilidade para os negócios, mais insegurança para os trabalhadores. Mas nem todo frila vê a situação por esse ângulo. Cada vez mais a possibilidade de trabalhar para diversos clientes ao mesmo tempo, podendo aceitar apenas os serviços que mais lhe interessam, que combinam com seus valores, que pagam o que a pessoa considera justo, e poder mudar de trabalho com a frequência que desejar, atrai mais profissionais.

Decidir sozinho quando tirar períodos de descanso durante o ano, e quantas vezes fazer isso, é outro atrativo. Uma flexibilidade que seduz a Geração Z, tão zelosa do equilíbrio entre vida profissional e pessoal. “Ao conversar com profissionais mais jovens, percebo que grande parte deles rejeita o trabalho formal numa empresa como CLT”, diz Isis Borge, sócia e diretora executiva da Talenses, uma consultoria de recrutamento. “Eles não querem seguir a experiência de seus pais, com carga horária rígida, hierarquia vertical e falta de flexibilidade.”

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Mas isso não é exclusividade de quem está começando na carreira. A opção de atuar como autônomo já seduz muito profissional sênior também.

C-level terceirizado

Foi o caso de Alexandre Waclawovsky, que hoje se considera um CMO e CRO sob demanda, além de diversos outros trabalhos que realiza como profissional autônomo. No caso dele, um modelo de trabalho fruto de uma transição ousada. 

De abril de 1996 a maio de 2019, quase um quarto de século, Alexandre ocupou cargos de liderança em gigantes do mercado. Para ficar só nos últimos três empregos formais, foi head de Inovação de Marketing para a América Latina na Diageo, diretor de Transformação Digital na Nestlé e diretor de Trade Marketing e Novos Negócios para a América Latina na HBO. Até que teve um estalo e desistiu da vida como CLT. Mas sem nunca parar de trabalhar ou perder a relevância como profissional. 

“Em 2019, eu resolvi fazer uma transição de carreira. Tinha uma posição de C-level na HBO, ajudei a lançar uma temporada de Game of Thrones na América Latina, foi bastante legal… Mas eu já estava vendo que o modelo de emprego está cada vez mais esgotado. Não é à toa que as pessoas estão sofrendo tanto, porque as empresas ainda estão aplicando aquele sistema de comando e controle. Então, eu resolvi sair.”

O executivo, entretanto, não saiu sem antes planejar os próximos passos como autônomo – e se preparar para eles. “Nesse processo, fiz 300 entrevistas com C-level, falei com grandes personagens da indústria e também com fundadores de startups. De todos esses diálogos, surgiu a vontade de trabalhar com startup. Deixei uma posição de líder em um negócio que faturava US$ 1 bilhão por ano para trabalhar em uma startup que faturava R$ 1 milhão.”

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Alexandre faz uma analogia entre essa mudança e o trabalho de um intraempreendedor (o que faz empreendedorismo dentro de empresa) e o empreendedor de fato. O primeiro tem muitos recursos, mas pouca liberdade. “Você não pode fazer o que você quer. Tem que navegar nos fluxos de processos, nesse pântano corporativo. Então precisa ter muita habilidade política. Eu brinco que é uma colaboração meio Congresso Nacional.” Já trabalhando como freelancer, para startups, o profissional geralmente tem poucos recursos à disposição, mas muita liberdade. “Nessas grandes empresas em que eu era funcionário, achava que tinha autonomia. Mas, não. Só fui descobrir a autonomia genuína trabalhando sob demanda para startups. Porque ali você precisa ativar uma colaboração na prática. Não fica só trabalhando em cima de uma ordem que vem de cima para baixo.”

Desde essa virada de chave, Alexandre Waclawovsky tem atuado como conselheiro, mentor e consultor de diversos negócios de médio porte. Também é membro do Chefs.Group, uma comunidade de executivos de alta patente sob demanda.

Alexandre foi visionário de uma onda que viria a inundar praias do mundo todo. Segundo um estudo publicado na Harvard Business Review, mais de um quarto da força de trabalho global faz algum trabalho freelancer – de consultores e coaches a designers e jornalistas. Nos Estados Unidos, durante a pandemia, 72% das empresas estavam usando cada vez mais freelancers para aumentar sua força de trabalho. E esse movimento superou a epidemia do coronavírus. Até 2028, espera-se que mais de 90 milhões de americanos, ou um em cada dois trabalhadores, ocupem uma posição freelancer.

Será que é para você?

Mas esse modelo de trabalho combina com seu estilo profissional? Há uma série de vantagens em poder ser chefe de si mesmo: poder ir buscar seus filhos na escola sem pedir autorização para ninguém, fazer seu próprio horário de trabalho e ajustar sua remuneração de acordo com o que você deseja, não se restringindo aos limites orçamentários da empresa. Só que, se apenas fosse um mar de vantagens, todo mundo seria freelancer.

Para ter sucesso nesse caminho, não basta ao profissional ser um excelente técnico naquilo que faz. Ou seja, assim como nas posições de liderança nas empresas hoje, as hard skills não são suficientes. Você também precisa das soft skills, as habilidades comportamentais, para ter trabalho frequente, ser bem remunerado e, principalmente, não ser esquecido pelo mercado.

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Um frila decidido a só viver assim deve ter um tanto de empreendedor, pois precisa gerir sua “eupresa”, ser bom de networking e marketing pessoal (olá, LinkedIn e outras redes), saber cobrar quando a empresa contratante atrasa um pagamento sem parecer agressivo, para não perder o cliente… e ter uma disciplina com dinheiro maior que a de um empregado, que sabe que todo dia 10 vai pingar o salário na sua conta.  

Confira a seguir as dicas básicas para ser bem-sucedido como freelancer, segundo o estudo da HBR.

Conheça seu valor

Ao começar como freelancer, pode ser desafiador saber como precificar a si mesmo com base em seu conhecimento e suas habilidades no mercado. 

Encontre seu nicho. Freelancers precisam descobrir no que são bons e se tornar especialistas nisso. Depois de desenvolver uma área de especialização, devem aprender a comunicar seu valor de forma clara e concisa. Isso pode ser feito mantendo seu site atualizado, fazendo networking e publicando nas redes sociais, mostrando um portfólio de trabalhos anteriores e destacando referências ou recomendações de seus clientes.

Entenda o mercado. Não adianta tentar comercializar uma habilidade que ninguém quer. Faça sua pesquisa para descobrir o que as pessoas estão procurando. Tente pesquisar em fóruns online para ver em quais tipos de projetos as pessoas precisam de suporte. Por exemplo, empregos em ciências digitais são atualmente muito procurados, incluindo inteligência artificial, robótica, veículos autônomos, impressão 3D…

72% as empresas estavam usando cada vez mais freelancers para aumentar sua força de trabalho durante a pandemia nos Estados Unidos.

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Monetize suas habilidades. Transforme seus talentos em produtos ou serviços que as pessoas possam comprar. Observe o mercado para ver o que outras pessoas estão cobrando por trabalho semelhante e use isso como ponto de referência para calcular suas taxas. 

Aproveite sua confiança. Saiba que o que você pode oferecer é essencial e assuma isso. A maioria (73%) das organizações não tem o conjunto completo de habilidades e experiências de que necessitam, então elas precisam de suas habilidades. Mesmo que outro freelancer tenha um talento semelhante, ele não é você. Então, não divulgue apenas suas habilidades – divulgue você mesmo. Estar no LinkedIn é básico.

Tenha frilas fixos

Quando você é sua própria empresa, geralmente não tem o suporte e o prestígio que outros negócios mais conhecidos terão. Portanto, você tem de se esforçar para conseguir os clientes e, então, fazê-los voltar para mais jobs. 81% dos trabalhadores frilas conquistaram lealdade com mais de três clientes. 

Interaja com seus clientes de forma pessoal. Não se concentre apenas nos resultados; construa seus relacionamentos. Conheça seus clientes, seus desafios e quais são seus objetivos. Quanto melhor o relacionamento que você desenvolver e quanto mais interesse você demonstrar neles como um ser humano, em vez de apenas como um cliente, mais eles se lembrarão de você – e continuarão usando seus serviços. 

73% das organizações não tem o conjunto completo de habilidades e experiências de que necessitam, então elas precisam de suas habilidades.

Descubra em quais outros projetos eles podem precisar de ajuda. Se você não ouvir falar de nenhuma oportunidade durante seu período inicial, tome a iniciativa e diga ao seu empregador que você está aberto a trabalhar em mais projetos no futuro. A partir daí, faça o acompanhamento após, digamos, um mês. 89% dos freelancers com altas taxas de retenção fizeram o acompanhamento com seus clientes pelo menos um mês após a conclusão do projeto. 

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Use sua expertise para melhorar outras partes do negócio deles. Se eles não tiverem nada que precise ser trabalhado, sugira outras áreas que você pode melhorar. É provável que eles nem tenham pensado sobre o que você está oferecendo e onde mais suas habilidades podem ser aplicadas. (Lembre-se, você é o especialista.) 

Nunca prometa demais e depois entregue de menos. Entregar um ótimo trabalho no prazo é fundamental para construir confiança. Não se coloque em uma situação em que você não pode cumprir suas promessas. Reserve um tempo extra onde puder e seja direto sobre o que é necessário.

Disciplina financeira

Você nunca tem certeza se o mês que vem será de muito ou pouco (ou nenhum) trabalho.

Isis Borge acrescenta uma necessidade vital para ter estabilidade na vida de frila sem morrer de ansiedade quanto ao que o futuro reserva: ter consciência financeira. “O frila não vai ter bonificações, PLR, 13º, férias remuneradas… Então ele precisa ter um dinheiro guardado, seja para tirar um período de descanso, seja para passar por um período de pouca demanda do seu trabalho”, diz a sócia da Telenses.

Muito empregado CLT gasta até o último real que tem na véspera de receber o salário. Frilas não podem se dar esse luxo. 

Open Talent

Outra forma de sempre ter trabalho atuando como frila é se inscrever em plataformas especializadas em encaminhar profissionais muito qualificados para empresas que precisam, apenas temporariamente, de alguém com habilidades específicas. É o que faz a Ollo, negócio especializado em “open talent”. Nela, o frila não paga nada para se inscrever. Os clientes são as empresas que procuram a plataforma para resolver uma demanda temporária. Fazer parte de uma comunidade dessas é sempre estar em evidência. E de uma forma sistêmica. 

“Muita empresa precisa de um profissional muito especializado em um assunto para atuar num projeto em que falta expertise na empresa ou, para ser mais básica, para cobrir as férias ou licença parental de alguém”, afirma Karina Rehavia, CEO da Ollo. “E agora, com esse modelo de open talent, passamos a fazer parte da estratégia da empresa, que já sabe onde achar profissionais com skills específicas em momentos de necessidade.”

81% dos trabalhadores frilas conquistaram lealdade com mais de três clientes.

Nesse processo, cada vez mais, seja numa plataforma especializada ou divulgando bem seu perfil e o que sabe fazer no LinkedIn, a empresa deixa de olhar para o profissional que você é por conta de cargos anteriores. O que passa a contar mais são suas habilidades. 

Afinal, são delas que as organizações vão precisar quando procurarem alguém livre no mercado para um trabalho temporário. Esse novo profissional que, se tiver um bom networking, for craque tanto de hard quanto de soft skills, terá muito mais liberdade para escolher se topa ou não o próximo job. 

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