Os riscos do vício em “dopamina barata”
A dependência de redes sociais, alimentos ultraprocessados e jogos eletrônicos está comprometendo a nossa felicidade. Entenda por quê.

á se perguntou o motivo de ficarmos presos na tela do celular rolando diversos conteúdos simultâneos? Ou perder horas em vitrines digitais desejando consumir coisas que não precisamos? A dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa, é responsável por fazer com que haja a sensação de satisfação imediata, e pode ser obtida durante esses e outros momentos de distração. Pode parecer inofensivo, mas esses estímulos estão prejudicando a nossa capacidade de manter a verdadeira felicidade.
De acordo com o “World Happiness Report 2023”, países com altos índices de bem-estar relatam uma forte correlação entre felicidade sustentável e fatores como relações interpessoais, liberdade e saúde mental. No entanto, vivemos uma era de prazeres imediatos, que cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que temos mais acesso do que nunca a recursos que facilitam nossas vidas, também enfrentamos o desafio de lidar com o impacto psicológico de recompensas instantâneas.
Por meio de telas, estamos constantemente estimulando nosso cérebro com doses rápidas de prazer, que podem comprometer nossa capacidade de apreciar experiências mais significativas e duradouras.
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Rede social é o novo cigarro
Em pesquisa publicada em 2021 pelo Journal of Behavioral Addictions, cientistas destacaram que o uso excessivo de redes sociais pode ativar os mesmos circuitos de recompensa que substâncias químicas, como nicotina e álcool. Essa estimulação contínua dificulta o retorno à homeostase, que é o equilíbrio natural do cérebro.
Mas como chegamos aqui? O conceito de “vício em dopamina”, embora ainda não reconhecido formalmente em manuais (como a quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5, principal publicação de referência da Associação Americana de Psiquiatria) para o diagnóstico de transtornos mentais, reflete a dependência comportamental gerada por um ambiente onde o prazer está ao alcance de um clique.
Um estudo conduzido pela Universidade Stanford, liderado pela psiquiatra Anna Lembke, demonstra como o acesso fácil a fontes de prazer instantâneo – como redes sociais, alimentos ultraprocessados e jogos eletrônicos – pode levar à dessensibilização do sistema de recompensa do cérebro. Essa condição, conhecida como “anedonia”, reduz nossa capacidade de sentir prazer em atividades cotidianas. Ela afirma que vivemos uma epidemia de dependência de dopamina em que os seres humanos buscam prazeres rápidos e rasos, esquecendo a necessidade de nutrir coisas que trazem bem-estar no longo prazo.
Embora as pessoas em geral tenham acesso a mais recursos e conforto do que em décadas passadas, os índices de ansiedade e depressão continuam a crescer. A busca desenfreada por prazeres imediatos compromete a capacidade de cultivar fontes mais duradouras de bem-estar, como conexões sociais profundas e um senso de significado na vida.
O conceito de “vício em dopamina” reflete a dependência comportamental gerada por um ambiente onde o prazer está ao alcance de um clique.
Desacelere
Entretanto, nem tudo está perdido. A prática de intervenções baseadas em “jejum de dopamina” tem ganhado espaço como uma solução pragmática. Essa estratégia, que envolve a redução intencional de estímulos prazerosos, como uso de redes sociais e consumo excessivo de entretenimento, ajuda a restaurar o equilíbrio do sistema de recompensa do cérebro. Embora não existam evidências robustas que confirmem todos os seus benefícios, o princípio de desacelerar e refletir sobre os hábitos diários é alinhado a diversas abordagens de bem-estar, como mindfulness e psicologia positiva.
Como especialista em felicidade e professor-adjunto no primeiro mestrado em Estudos da Felicidade do mundo, observo que um dos grandes desafios da contemporaneidade é resgatar a arte de encontrar prazer em experiências simples e sustentáveis. Em minhas aulas, compartilho exemplos de como comunidades mais felizes tendem a priorizar experiências de conexão e gratidão, muitas vezes ignoradas por aqueles que estão presos no ciclo do prazer imediato.
O acesso fácil a fontes de prazer instantâneo – como redes sociais, alimentos ultraprocessados e jogos eletrônicos – pode levar à dessensibilização do sistema de recompensa do cérebro.
Tal Ben-Shahar, meu colega e um dos pioneiros da psicologia positiva, reforçou em seu livro “Happier: Learn the Secrets to Daily Joy and Lasting Fulfillment” que a felicidade é uma “jornada de equilíbrio”. E equilibrar nossos estímulos é fundamental. Uma caminhada ao ar livre, uma conversa significativa ou o simples ato de saborear uma refeição sem distrações são atividades que ajudam a revitalizar nosso sistema de recompensa sem os riscos do consumo excessivo.
Aqui estão alguns exemplos de atividades que deveriam substituir ações que trazem a sensação de prazer imediato. A prática de exercícios físicos, por exemplo, pode ser difícil no começo para quem é sedentário. Mas, logo após finalizada, ajuda a liberar endorfina e serotonina, promovendo não só saúde física, mas também mental. E, no longo prazo, impacta o corpo, a longevidade e a autoestima. Hobbies criativos ou produtivos, como pintura, jardinagem, tocar um instrumento ou cozinhar parecem desafiadores para o começo. Mas tornam-se profundamente satisfatórios e estimulantes sem depender de recompensas imediatas.
O caminho para uma felicidade mais autêntica não está em abolir a dopamina, mas em administrá-la de forma intencional. O grande paradoxo do psicoxcesso de prazeres instantâneos é que ele nos distancia da verdadeira essência da felicidade: uma vida rica em propósito, conexão e serenidade. Para reverter esse quadro, é essencial cultivar hábitos que promovam o bem-estar a longo prazo e nos reconectem com o que realmente importa.