Imagem Blog

Cris Kerr Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO

Por VOCÊ S/A
Cris Kerr é CEO da CKZ Diversidade, consultoria especializada em Inclusão & Diversidade, professora da Fundação Dom Cabral, Mestra em Sustentabilidade e idealizadora do Super Fórum Diversidade & Inclusão.
Continua após publicidade

Cultura do assédio ainda é parte do dia a dia das empresas

O assédio moral representa 45% das denúncias nas empresas. Entenda como a atitude permissiva de líderes frente ao problema ajuda a perpetuar um ambiente corporativo de agressividade .

Por Cris Kerr
20 dez 2023, 16h00

Ao falar sobre a cultura corporativa problemática de algumas empresas durante os meus treinamentos, gosto de contar a história fictícia da Purl. Ela é uma novelo de lã rosa que estrela um curta-metragem de animação produzido pela Pixar e disponível no YouTube. A personagem começa a trabalhar em um escritório cheio de homens brancos e, após algumas situações, percebe que o seu jeito “fofo”, leve e colorido não terá espaço ali.

A cultura da empresa não permite que Purl “seja quem é”. Em um esforço para ser acolhida, escutada e valorizada, ela rapidamente entende a cultura agressiva da empresa e vai se tornando igual aos outros colegas e perdendo o que tinha de único, diferente e individual. No fim do vídeo, vemos que ela dá uma reviravolta e retorna à sua essência. Já no mundo real, no entanto, esse nem sempre é o final que acontece nas empresas que não valorizam a diversidade, a inclusão e o pertencimento das pessoas.

A força da cultura corporativa é enorme. Quem chega de fora aprende como o ambiente funciona apenas observando – e, com o tempo, passa a reproduzir muitos desses comportamentos. Sempre repito que uma das maiores influências a essa cultura organizacional são os exemplos, especialmente os da liderança. 

Lembro um episódio interessante que mostra esse impacto da cultura. Certa vez, atendi uma empresa que há 20 anos obrigava os colaboradores homens a usarem terno. Quando o fundador se aposentou, seu neto assumiu como CEO e passou a trabalhar dispensando até o terno e a gravata. Em três dias – surpresa! – ninguém mais usava terno por lá. Esse é o poder do exemplo que vem “de cima”. Pouco adianta ter belos valores escritos na parede da empresa se, na prática, a vivência é outra. 

Gritos, batidas na mesa, críticas em público e apelidos constrangedores certamente não combinam com um ambiente acolhedor, certo? Essas atitudes têm nome: assédio moral. São condutas repetitivas e abusivas em que a vítima é submetida a situações humilhantes e constrangedoras. Ela tem sua dignidade e integridade física e psíquica feridas, com impacto até no seu emprego e no clima organizacional.

Continua após a publicidade

O assédio moral representou cerca de 45% do total de 5,7 mil denúncias recebidas pelos setores de compliance das empresas brasileiras entre 2019 e 2022, segundo a IAUDIT Consultoria Empresarial, especializada em auditorias e canais de denúncia. Foram avaliadas 5,7 mil denúncias, número que também incluiu queixas de abuso de poder e até agressão física. 

No campo do assédio sexual, o cenário é ainda pior. De acordo com um levantamento da startup de aconselhamento jurídico Forum Hub, 18,3% das mulheres já sofreram assédio sexual no trabalho, o que representa cinco vezes mais que os homens. Elas foram abordadas por pessoas com intenção sexual, para obter vantagem ou favorecimento sexual. Insinuar ou afirmar que a vítima pode ganhar uma promoção caso saia com quem está acima dela na hierarquia é um bom exemplo disso. Há ainda situações mais graves envolvendo contato físico e violência.

Tanto no assédio sexual quando no assédio moral a situação pode escalar ainda mais. Retaliações são comuns, quando a vítima é perseguida – e até demitida – por ter resistido a uma conduta inadequada no trabalho, demonstrado preocupação, ou até denunciado. Essa possibilidade com frequência desencoraja as vítimas a relatarem a violência vivida ou testemunhada. 

Lembro do dia em que uma amiga me procurou para contar que havia sido abraçada por trás no elevador da empresa por seu diretor. Na época, ela trabalhava como gerente e ficou paralisada. Era um caso evidente de assédio sexual, que a deixou muito abalada. Recomendei que abrisse uma denúncia, mas ela optou por conversar com o presidente da companhia antes. Como resposta, ouviu uma frase inacreditável: “Você vai mesmo querer denunciar contra um dos caras mais importantes da empresa?”.

A permissividade com o assédio sexual e moral infelizmente é parte da rotina em muitas empresas como essa. Minha amiga é uma executiva brilhante e, pouco tempo depois, pediu demissão daquela companhia e foi contratada para outro lugar. Outras pessoas, com trajetórias e realidades diversas, podem não ter o mesmo final. Aliás, o diretor que a assediou manteve sua carreira e não sofreu nenhuma punição.

Considero esse tema tão importante que passei grande parte do ano de 2023 escrevendo um livro sobre o assunto. “Cultural Organizacional Livre de Assédio” é baseado em pesquisas e 15 anos da minha experiência acompanhando centenas de empresas como consultora na CKZ Diversidade. Como mulher, e aqui infelizmente não estou sozinha, minha vida pessoal também oferece exemplos de assédio – algumas destas histórias também conto no livro.

Uso os exemplos pessoais e profissionais para falar sobre as consequências da impunidade, sobre as diferenças entre os gêneros e também para explorar estratégias para reagir e prevenir essa violência. Também demonstro a importância de repensarmos como até mesmo as pequenas falas e atitudes do cotidiano, aparentemente inofensivas, alimentam uma cultura nociva e permissiva, que só gera exclusão e afeta a saúde mental das pessoas.

O livro será lançado no final de janeiro de 2024 e meu grande desejo é nos unirmos para mudar a cultura do assédio na qual ainda vivemos nas organizações. Espero que esse conhecimento ajude, a nós e as próximas gerações, a criarmos ambientes mais seguros e acolhedores.

Compartilhe essa matéria via:
Publicidade