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Teve discurso do Lula e Bolsonaro de máscara, mas a salvação do Ibovespa veio dos EUA

Dólar derreteu 2,5% assim que o BC despejou caminhões de dinheiro no mercado. E também teve uma ajuda da primeira votação da PEC Emergencial na Câmara, após uma nova lipoaspirada no texto.

Por Tássia Kastner 10 mar 2021, 19h32

Um mês condensado em oito horas. Foi mais ou menos assim o dia para a turma da Faria Lima. Aconteceu tanta coisa que vamos dividir esse texto em quatro frentes para dar conta de explicar tudo: 1) o discurso do ex-presidente Lula; 2) Bolsonaro de máscara e prometendo vacinas; 3) a PEC Emergencial na Câmara; 4) a inflação e o pacote de US$ 1,9 trilhão para socorrer a economia americana. Spoiler: foi o 4 (e um tantinho do 3) que salvou mesmo esta quarta-feira (10) e fez o Ibovespa subir mais de 1%. Vem com a gente pra entender.

Bem, você vive no Brasil e sabe que desde segunda só se fala em Lula – foi quando o ministro do Supremo Edson Fachin devolveu ao ex-presidente seus direitos políticos e espalhou a história de pânico do “Lula candidato” pelo mercado financeiro. Nesta quarta, o petista disse que não está pensando em 2022. Do jogo.

Só que o discurso de quase duas horas poderia ter sido em um palanque eleitoral e a uma semana das urnas. Lula atacou a Lava Jato (previsível), falou do tempo na prisão, da pandemia, de vacinas, de recuperação econômica e diálogo com os empresários, auxílio emergencial e arrematou com um “não tenham medo de mim”. 

Aí o dólar caiu. “Lula derruba o dólar?” Não é bem assim, por mais divertido que tenha sido para aliados do presidente essa associação depois da segunda de “bolsa cai com Lula Livre”. Na verdade, o buraco é outro. A moeda americana disparava mais uma vez para acima de R$ 5,80 durante a manhã, e isso era culpa da bagunça fiscal do país plus os rebuliços americanos com os juros futuros, o que depois perdeu força (falaremos mais adiante). Para conter a forte alta, o Banco Central jogou dois caminhões de dólares no mercado e aí a moeda inverteu o sinal, caiu 2,50% e fechou a R$ 5,6526. No total, o BC interveio com US$ 1,45 bilhão. 

Alguém (não algo) reagiu imediatamente após o pronunciamento de Lula: Jair Bolsonaro. Crítico das vacinas e negacionistas das medidas de controle do coronavírus, o presidente já disse infinitas barbaridades sobre imunizantes e máscaras. Aí, depois de duas horas de Lula defendendo vacinas, Bolsonaro assinou medidas para a compra de doses de mais dois laboratórios (Pfizer, o do Jacaré, e Janssen). Não só: ele e todos os ministros apareceram de máscara para o evento. Para arrematar, Flávio Bolsonaro, o filho zero um, pediu a apoiadores no Telegram para viralizarem (palavra dele) uma imagem de Bolsonaro com a seguinte frase: “nossa arma é a vacina”. Quem te viu, quem te vê. 

Mas enquanto todo mundo acompanhava a história Lula x Bolsonaro, a Câmara dos Deputados corria para aprovar a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial com medidas de ajuste fiscal em períodos de crise – a que libera o novo auxílio emergencial. Passou em primeiro turno com mais uma lipoaspirada: servidores poderão ter reajustes e promoções mesmo quando o governo não tiver dinheiro para pagar, algo que estava proibido pela versão anterior do texto.

E, acredite, a Faria Lima respirou aliviada, porque afinal tudo é uma questão de perspectiva. A manobra inicial retiraria todas as contrapartidas fiscais, tornando a PEC praticamente inútil. Isso foi durante a discussão dos destaques – que alteram partes do texto. A salvação do destaque veio no modo “até empatar”: o presidente da Câmara, Arthur Lira, manteve a votação aberta por duas horas para dar margem ao governo para negociar com deputados e reverter a derrota, dada como certa.

Não que Bolsonaro fosse exatamente contra a desidratação da PEC. Desde segunda, ele vinha sinalizando o desejo de proteger os aumentos dos policiais, que compõem sua base eleitoral. E eles usaram o poder de barganha, ameaçaram até com paralisação – o que é proibido para carreiras militares.

Bem, o mercado deu um suspiro aliviado quando a votação terminou menos pior que o esperado e a bolsa virou para o positivo. Agora o texto precisa de uma segunda rodada de votação na Câmara para entrar em vigor. 

Aí veio o empurrão do exterior. O que fez o Ibovespa subir 1,30% e fechar a 112.776 pontos foi a aprovação do pacote de US$ 1,9 trilhão para apoiar a economia americana enquanto o coronavírus ainda é uma pandemia que exige isolamento social e mantém negócios fechados. O presidente Joe Biden promete sancionar o projeto na sexta-feira.

Até anteontem (sim, tudo volta à segunda-feira), o mercado financeiro acreditava que esse dinheiro causaria um sobreaquecimento da economia americana, gerando inflação. E isso obrigaria o Fed (o banco central dos EUA) a subir os juros mais rápido que o esperado até então. Essa confusão estava fazendo o juro dos títulos públicos de 10 anos subir, e derrubava as bolsas. Outro efeito do dinheiro mais caro (o juro subindo) era rarear a quantidade de dólares nos países periféricos (aka Brasil). Hoje foi dia de dar um respiro nisso tudo.

É que nesta quarta, os dados de inflação dos EUA mostraram que investidores estavam exagerando com o medo da alta de preços – eles subiram apenas 0,4% no mês, abaixo das projeções. Aí investidores decidiram antecipar a comemoração do dinheiro que está para pingar na conta, levando os principais índices de Wall Street para o positivo. O Dow Jones bateu recorde (veja abaixo os fechamentos). Essa onda de euforia é que nos ajudou por aqui depois de um dia que não deu tempo nem de beber água.

E amanhã? Vai ser outro dia.

Maiores altas

Embraer: 11,99%

Via Varejo: 8,11%

GOL: 9,92%

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CVC: 9,82%

Cogna: 8%

Maiores baixas

Suzano: -5,46%

Marfrig: -4,83%

Totvs: -4,74%

PetroRio: -4,39%

Klabin: -4,03%

Bolsas americanas

Dow Jones: +1,46%, 32.297 pontos

S&P 500: +0,60%, 3.898 pontos

Nasdaq: -0,04, 13.068 pontos

Petróleo

WTI: US$ 64,67, +1,03%

Brent: US$ 68,16, +0,95%

Minério de ferro

+0,16%, a US$ 164,67 a tonelada no porto de Qingdao

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