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Lula já é passado? Ibovespa aposta na PEC Emergencial para voltar a subir

Bolsonaro tentava proteger policiais e servidores públicos de medidas de ajuste fiscal, mas a Câmara deu uma notícia boa à Faria Lima.

Por Luciana Lima e Tássia Kastner Atualizado em 9 mar 2021, 20h36 - Publicado em 9 mar 2021, 20h23

A Faria Lima amanheceu o dia ainda com o gosto amargo das notícias de ontem, quando a anulação das condenações do ex-presidente Lula pelo Ministro Edson Fachin fez o Ibovespa derreter. Mas, passada a tempestade, nesta terça-feira (9) o mercado começou a olhar para além dos estragos. 

O fato é que 2022 pode até ter ficado mais perto, mas o país tem problemas de prazo ainda mais curto para resolver. Um deles é a liberação da nova rodada de auxílio emergencial para garantir que as famílias tenham alguma renda enquanto a pandemia acelera no país.

Esse dinheiro foi condicionado a uma reforma já bastante desidratada, a PEC Emergencial. Enquanto investidores surtavam com a recuperação dos direitos políticos de Lula, o presidente Jair Bolsonaro tentava esfarelar o projeto em prol de sua base eleitoral. O plano era retirar do texto 1) a proibição de promoções e aumentos salariais de servidores públicos quando o governo estiver com 95% das receitas comprometidas; 2) o congelamento dos salários dos policiais; 3) a exigência de um plano de redução dos incentivos tributários e fiscais para as empresas que deverá ser enviado ao Congresso até seis meses após a promulgação da PEC. 

A questão é que o texto final do PEC Emergencial já veio mais furado que queijo-suíço. Apresentado ao Congresso antes de o coronavírus ser uma pandemia, o projeto tinha medidas draconianas de corte de gastos. Agora permite a nova rodada do auxílio emergencial sem nenhum tipo de corte extra de despesas. 

A possibilidade de dar cabo da PEC fez o Ibovespa abrir em queda pela manhã. Tudo indicava que seria mais um dia de sangue na bolsa. As coisas só foram melhorar mais para o meio-dia, quando o relator da PEC, o deputado Daniel Freitas (PSL-SC), declarou que a reforma não sofreria as alterações propostas por Bolsonaro. 

A declaração foi dada após Daniel e Arthur Lira, presidente da Câmara, saírem de uma reunião com líderes partidários do governo. Nela, estava, inclusive, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Segundo reportagem do Valor, o presidente do BC teria sido enfático: a mudança na PEC seria uma clara demonstração de falta de compromisso com as reformas, o que tornaria impossível para o BC segurar o juros e a inflação. Lira seguiu no mesmo tom e ainda completou dizendo que Bolsonaro havia recebido de forma muito tranquila e serena a notícia. 

Foi a dose de Rivotril que os mercados precisavam para se acalmar. Com a certeza de que Bolsonaro seria contido e a PEC não havia ido para as cucuias, o Ibov virou para o positivo. No final, terminou em alta de 0,65%, aos 111.330 pontos. Ainda longe de se recuperar do tombo de 4% com o surto pós-Faquin.

Antes de dar o assunto por encerrado, não esqueça que estamos falando de Brasília, e o texto ainda pode sofrer emendas da “bancada da bala” no plenário da Câmara. A PEC deve ser votada pelos deputados nesta quarta (10).

Enquanto investidores se entendiam com o caos, o cenário externo deu um belo empurrão. Depois do dia xoxo de ontem, Wall Street voltou nesta terça ao rali. O mercado deu uma trégua no pessimismo de uma alta acelerada da inflação + alta de juros de longo prazo, e o rendimento do título de dez anos diminuiu de 1,5968% para 1,5402%. Com isso, investidores se sentiram mais confiantes para voltar a tomar risco. No final, todos os índices terminaram em alta: Dow Jones ganhou 0,10%, aos 31.832 pontos; S&P 500 avançou 1,42%, aos 3.875,44 pontos e  Nasdaq cresceu 3,69%, aos 13.073. 

Parte dessa alta em Nova York veio da Tesla. A empresa de Elon Musk subiu impressionantes 20% no pregão de hoje. É que ela, assim como as outras big techs, foi uma das que mais apanhou nas últimas semanas. Com a perspectiva de alta de juros, investidores finalmente começaram a desconfiar que as empresas de tecnologia estavam um pouco caras (alta de 700% em um ano? Pfff). A conta de caro ou barato passa pelo potencial de lucro no futuro. Com esse potencial estimado, analistas descontam o custo do dinheiro. Como o juro estava subindo, o dinheiro ficava mais caro, e o potencial de lucro se reduz. Com isso, só entre o início de fevereiro e a última segunda, a Tesla havia tombado quase 30%. E é isso que inverteu o sinal com a mudança de expectativa. 

Se dependesse só lá de fora, o dia poderia ter sido melhor por aqui. Não foi. Primeiro, porque a instabilidade política, que começou com a anulação das condenações do ex-presidente Lula na segunda, ainda está longe de ter um desfecho. A estratégia de Fachin, por trás do movimento, era impedir o julgamento da suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, pedido pela defesa do petista.

Só que não deu certo. E, hoje, o STF começou o julgamento contra Moro. Existem grandes chances de que a maioria dos ministros conclua que o ex-juiz foi parcial quando estava à frente da 13º Vara de Curitiba. E, com isso, todos os processos da Lava Jato podem ser anulados também. Insegurança jurídica, é você? 

Aí o dólar foi para o espaço de novo. Chegou a bater em R$ 5,87 durante o dia e terminou com alta de 0,33%, a R$ 5,79. Os juros DI para janeiro de 2022 também pularam de 3,960% para 4,010%, mostrando que o mercado só vê salvação para o país quando a Selic sair dos 2%. Haja coração. 

Maiores altas

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Minerva: 6,13%

BRF: 5,97%

Suzano: 5,05%

Braskem: 4,27%

Totvs: 4,05%

Maiores baixas

Lojas Americanas: 5,7%

B2W: 5,25%

Via Varejo: 4,85%

Hering: 4,05%

Ezetec: 3,92%

Petróleo

Brent (referência internacional): -1,39%, cotado a US$ 67,29 o barril 

WTI (referência EUA): -1,60%, cotado a US$ 64,01 o barril

Minério de Ferro: queda 5,70%, cotado a US$ 164,41 a tonelada no porto de Qingdao (China)

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