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“Ganhei na loteria!”, diz mercado após afago de Powell 

Presidente do Fed sinaliza que vai seguir com sua enxurrada de dinheiro para estimular a economia. Resultado: bolsas nos EUA renovam seus recordes e Ibovespa encerra a sexta com alta de 1,65%. 

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 27 ago 2021, 17h50 - Publicado em 27 ago 2021, 17h37
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Jerome Powell, o Léo Batista deles. Tiago Araujo/VOCÊ S/A

 

Na Paleolítico Superior, o Brasil parava nas noites de domingo para ver o Léo Batista dar o resultado dos jogos da Loteria Esportiva. Hoje, o mercado financeiro fez algo parecido com um sósia poderoso de Léo, Jerome Powell.

Powell é o dono da máquina mais importante do planeta: a impressora de dólares do Banco Central do EUA, instituição presidida por esse cientista político de 68 anos, 38 deles passados no mercado financeiro. 

Hoje foi o dia de seu discurso no Simpósio de Jackson Hole, um evento que acontece todo ano numa estação de sky do Wyoming, e que junta boa parte dos zeladores das impressoras de dinheiro do resto do mundo – incluindo Roberto Campos Neto, do BC. A edição 2021 está rolando de forma virtual, vale lembrar.   

Todo mundo estava de olho porque as palavras de Powell movem o mundo. E o mundo se moveu para cima depois das palavras de hoje: S&P 500 e Nasdaq, que já estavam com pontuações mastodônticas, renovaram seus recordes de novo. Aqui no Ibovespa, uma alta expressiva de 1,65%. 

Para entender melhor a história, vale uma contextualizada.

As palavras de Powell make the world go round porque, de suas impressoras, têm saído 120 bilhões de dólares novos em folha por mês, direto para o sistema bancário dos EUA – eles fazem isso comprando títulos públicos e títulos de dívidas privadas em poder dos bancos por preços camaradas, e pagando com dinheiro mágico, criado para esse fim. 

Dos bancos, essa grana flui para o resto da economia. Essa é uma das partes mais importantes daquilo que convencionou-se chamar de “estímulos”. A outra é a manutenção da “Selic” americana próxima de zero – o que estimula o consumo (e a subsequente criação de empregos) ao permitir juros menores, entre outras vantagens. 

Mas nada dura para sempre. Desde a Roma Antiga, sabe-se que produzir dinheiro demais dá ruim. Chega uma hora em que há mais dinheiro em circulação do que coisas para comprar com esse dinheiro, e os preços sobem (e pois é: esse dinheiro não precisa estar necessariamente em todos os bolsos para que isso ocorra). 

E é que o que tem ocorrido nos EUA, que passam por uma inflação de 5,4% nos últimos 12 meses. Desde o longínquo ano de 1981, quando Léo Batista apresentava os resultados da rodada na companhia de uma zebra e a inflação americana fechou em 8,9%, os EUA não veem um patamar tão alto. 

Nisso, Powell e sua diretoria passaram a dar a entender que esse lance de produzir dinheiro como se não houvesse amanhã uma hora teria de parar. O mercado (irracional por natureza) queria mais que os estímulos durassem até o século 23. Mas entendeu, e calibrou um pouco suas expectativas: “Beleza, pode puxar o freio. Mas só se for de leve, se não eu sento e choro”. 

Então hoje pela manhã Powell disse: “Vai ser de leve”, ainda que com outras (e muitas) palavras: “Meu ponto de vista, como o da maioria dos presentes, é o de que pode ser apropriado iniciar uma redução no ritmo de compras de títulos neste ano”. 

Mas essa redução, ele completou, não pode começar “no momento errado”. 

“Hoje, com a frouxidão remanescente no mercado de trabalho e com a pandemia em andamento, um erro assim seria particularmente nocivo. Vamos observar cuidadosamente os novos dados que forem chegando”.

Como um desses dados é o de desemprego, temos que a redução ainda deve esperar mais um pouco – há 6 milhões de americanos a mais sem trabalho do que havia antes da pandemia.  

E o mercado reagiu como se tivesse ganhado na loteria. Até porque ganhou mesmo. E ainda levou um bônus: Powell também disse que não mexe na parte dos juros nem a pau, ainda que com palavras mais bonitas.

Usiminas

Por aqui, 64 das 84 ações que compõem a carteira do Ibovespa fecharam em alta. Um dos destaques lá na ponta de cima foi a Usiminas. A siderúrgica/mineradora decolou 7,04% depois de aprovar a distribuição de proventos rechonchudos. Somando os dividendos e os juros sobre capital próprio, dá R$ 1,03 por ação preferencial (USIM5, a mais negociada, e generosa na hora de pagar).

Rechonchudos mesmo. Pelo preço de fechamento do pregão de ontem para USIM5 (R$ 17,10), isso dá 6%. Mais que um ano da Selic atual (5,25%). Logo, não faltou quem saísse correndo para comprar, e garantir seu lucrinho. O pagamento rola dia 5 de outubro, e recebe quem tiver Usiminas na carteira na próxima terça, dia 31. 

E claro: essa grana é referente só ao primeiro semestre. Pode vir mais lá na frente – ainda que, para garantir uma remuneração forte, a cotação do minério precisa se recuperar das quedas recentes.

Como ensaia-se de fato uma recuperação nos últimos dias – alta de 3% no porto de Qindao (China) hoje, sobre outros 3% de ontem –, USIM5 se deu ainda melhor do que já se daria. 

PetroRio e Petrobras

PRIO3 surfou na alta do petróleo, que fica mais consistente com a fala de Powell – quanto mais dólares fluindo pelo mercado, mais caro o barril fica, simplesmente por ser cotado em dólar (que caiu 1,17%, a R$ 5,19). Alta de 8,31% para a PetroRio, medalha de ouro desta sexta. 

A Petrobras (PETR4) não aproveitou tanto (dadas as pressões para que ela volte a subbisidiar os combustíveis, matando no peito as altas do petróleo – um problema que a PetroRio, privada, não tem). Mesmo assim fechou em fortes 3,64%  

Banco Inter

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O Banco Inter (BIDI11) ficou com a prata: 7,43%. Os papéis da fintech vinham passando por um inferno astral – queda de 20% desde o pico mais recente, em 21 de julho. Mas hoje foi dia de festa. 

O Inter anunciou a compra da USEND, uma empresa americana especializada em remessas de dinheiro entre países. Isso também serve para viajar gastando menos com as tarifas de câmbio – veja aqui outra fintech que faz isso. Enquanto aquela impressora de dólares não chega na sua casa, pode ser uma boa mesmo.

Bom fds 🙂

MAIORES ALTAS

Usiminas (USIM5): 7,04%

Banco Inter (BIDI11): 7,43%

PetroRio (PRIO3): 8,31%

Cyrella (CYRE3): 6.07%

Locamérica (LCAM3): 5,11%

MAIORES QUEDAS

Americanas SA (AMER3): 2,54%

Yduqs (YDUQ3): 1,83%

CVC (CVCB3): 1,44%

Cogna (COGN3): 0,88%

JBS (JBSS3): 0,83%

Ibovespa: alta de 1,65%, aos 120.677 pontos

Em Nova York

S&P 500: alta de 0,69%, aos 4.509 pontos

Nasdaq: alta de 0,88%, aos 15.129 pontos

Dow Jones: alta de 0,69%, aos 35.454 pontos

Dólar: queda de 1,17%, a R$ 5,19

Petróleo

Brent: alta de 2,16%, a US$ 71,70

WTI: alta de 1,96%, a US$ 68,74 

Minério de ferro: alta de 3,03%, a US$ 157,55 a tonelada no porto de Qingdao (China)

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