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Dólar volta a namorar os R$ 5 após novo escândalo em compra de vacinas

Denúncias de corrupção, reforma tributária e risco de apagão azedaram o Ibovespa. Valorização de 7% no semestre fica pequena ante os 16% do S&P 500.

Por Juliana Américo 30 jun 2021, 18h30

Quem viu o dólar bater a marca dos R$ 5,80 em março dificilmente imaginava que ele chegaria a R$ 4,90 em junho. Aconteceu e trouxe aquela pontinha de esperança de uma viagem internacional pós-vacina. Mas os planos já estão novamente em risco. Hoje, a moeda americana voltou a superar os R$ 5 ao longo do pregão, a R$ 5,0227, para depois fechar a R$ 4,9732. 

É que o dólar foi quem melhor representou o risco político causado pela nova denúncia de irregularidades no governo nas negociações para a compra de vacinas. Na noite de terça, 

o jornal Folha de S. Paulo relatou um esquema de corrupção para a compra de 400 milhões de doses da AstraZeneca.

E-mails comprovam que o Ministério da Saúde negociou com representantes da Davati Medical Supply, uma suposta intermediadora da AstraZeneca, e propôs a propina de US$ 1 por cada dose em troca da assinatura do contrato.

Em um gesto que foi lido quase como uma confissão de culpa, o governo demitiu Roberto Ferreira Dias, o diretor de Logística do Ministério da Saúde que teria pedido a propina, segundo a Folha. 

E esse não é o único escândalo nas compras de vacinas. Na semana passada, a denúncia era de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin, um contrato de R$ 1,6 bilhão com suspeita de superfaturamento. Antes de estourar o escândalo da AstraZeneca, o governo havia suspendido esse acordo.

O lance é que o estrago já estava feito para a abertura do mercado e ainda ganhou mais pimenta. Já estava marcado para esta quarta a entrega do que foi apelidado de “superpedido de impeachment” do presidente Jair Bolsonaro. O documento reúne outros 123 pedidos de impeachment e lista 23 diferentes acusações. Entre elas, estão crimes contra a existência da União, probidade administrativa e crimes contra o cumprimento de decisões judiciais. Ele tem 46 signatários de partidos políticos, parlamentares, movimentos sociais e entidades da sociedade civil. 

A novidade é que, com os escândalos recentes, Bolsonaro uniu representantes tão diversos quanto os ex-apoiadores Joice Hasselmann e Kim Kataguiri ao lado de líderes da esquerda, como os presidentes dos partidos PT, Psol, PCO e PCdoB. Todos em prol do impeachment.

A Faria Lima ainda não engrossou o coro pela saída do presidente, mas anda um pouco desapontada desde a apresentação da reforma tributária proposta pelo ministro Paulo Guedes. É que ela prevê a cobrança de impostos sobre dividendos, antes isentos, sem falar no aumento de carga tributária sobre as empresas. 

A reforma do IR pesa sobre o mercado desde a sexta passada. E tem ainda a crise energética. 

Quer dizer, não tem investidor que resista a tanta incerteza. O dólar foi o mais vocal deles hoje, mas a bolsa também desandou. O Ibovespa terminou no menor patamar do mês, de 126.801 pontos, após uma queda de 0,41%. E não estamos falando de qualquer mês. No dia 4 de junho, o Ibov bateu pela primeira vez os 130 mil pontos – depois de uma sequência de sete altas e cinco recordes (ainda rolou uma oitava alta e um sexto recorde logo depois). 

Claro que 126 mil não é o fim do mundo. No primeiro semestre do ano, que se encerra hoje, a bolsa oscilou bastante e teve dias bem ruins entre fevereiro e março, quando ficou entre os 110 mil pontos. No acumulado do período, o Ibovespa valorizou 7%. É bem melhor do que a desvalorização de 18% registrada nos primeiros seis meses de 2020, mas bater o período da primeira onda da pandemia é como aquele meme “Parabéns, não fez mais que sua obrigação”.

Para o dólar, é bom dizer, há uma esperança de que ele volte a cair. No semestre, a baixa é de 4,31%, e nossas exportações vão tão bem que a tendência é de que mais verdinhas entrem no país. A conta só não vai fechar se estrangeiros decidirem se mandar daqui com medo da crise política.

Desemprego

Para agravar ainda mais a situação, hoje teve a divulgação da taxa de desemprego e, mais uma vez, ela bateu o recorde da série histórica iniciada em 2012. Ao todo, são 14,8 milhões buscando trabalho sem sucesso.

Segundo os dados do IBGE, a taxa de desemprego ficou nos 14,7% no trimestre de fevereiro até abril – é só um pouco (0,4 ponto percentual) acima do registrado entre os meses de novembro e janeiro. Mas quando comparado com o mesmo período do ano passado, aí a diferença é de 2,1 p.p., quando a taxa estava em 12,6%. 

O resultado não foi realmente uma surpresa. Na verdade, ele está em linha com as previsões de que a taxa estaria dentro de um intervalo entre 14,5% a 15,3%, estimadas pelo Refinitiv e pelo Broadcast, do Estadão. Ok, a faixa de tolerância era grande. O lance é que o mercado não gosta de saber que o desemprego continua subindo, porque isso indica que as pessoas vão ficar com a renda curta e sem grana para gastar.  

Commodities

As ações da Petrobras e da Vale impediram uma queda maior da bolsa brasileira pelo segundo dia seguido. Não é para menos. Juntas, as duas empresas possuem mais de 20% de participação no índice de ações e ambas fecharam em alta acompanhando o movimento de suas respectivas commodities. 

No caso do petróleo, houve a queda nos estoques americanos: foi uma redução de 6,718 milhões de barris na semana passada, ante a previsão de -3,6 milhões. Isso refletiu nos preços. O Brent, que é referência internacional, subiu 0,46%. Já o WTI, referência nos EUA, subiu 0,67%. 

Aqui no Brasil, os papéis da Petro avançaram 0,82%. Mais do que o petróleo, o que contou mesmo foi a expectativa sobre a venda de sua participação de 37,5% na BR Distribuidora, avaliada em R$ 11 bilhões.

Já a Vale (+0,76%) seguiu a alta de 0,82% no minério de ferro, cotado no porto chinês de Qingdao. Mas foi a única do setor. As empresas de siderurgia e metalúrgica registraram perdas. 

Lá na gringa

Nos EUA, sem a política para animar, a coisa anda meio xoxa. Tanto que o movimento do dia foi explicado por dados de emprego e de vendas pendentes de imóveis. Segundo o relatório da ADP, em junho o setor privado americano criou 692 mil vagas de emprego. O resultado superou o consenso de que seriam 550 mil novos postos. 

Por outro lado, a criação de empregos de maio foi revisada para baixo: de 978 mil para 886 mil. 

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Vale lembrar que a pesquisa da ADP é considerada uma prévia do relatório de emprego americano (conhecido como payroll). Ele inclui dados do setor público e será divulgado na sexta-feira (2).

Mas o que alegrou mesmo os investidores foi o resultado das vendas pendentes de imóveis, um indicador que a gente não fala muito por aqui. Esses dados são referentes aos contratos para comprar moradias usadas e são usados para medir a saúde do mercado imobiliário dos EUA. Basicamente, um contrato assinado não é considerado uma venda até o fechamento da transação, que acontece até dois meses depois. Significa que podemos esperar uma retomada na compra de imóveis nas próximas semanas. 

O que aconteceu é que, em maior, houve uma alta de 8% do mercado, enquanto o mercado esperava uma queda de 1%. Isso levou o índice para o mais alto patamar para o mês de maio desde 2005. 

Mas não é que seja um baita indicador para revolucionar o mercado. É só mais uma notícia boa. Tanto que os índices de Wall Street fecharam cada um para um lado: o Nasdaq caiu 0,17%, aos 14.503 pontos, enquanto o S&P 500 subiu e foi para mais um recorde. No semestre, as bolsas valorizaram 14% e 16%, respectivamente. Ok, aí a alta de 7% do Ibovespa ficou menos emocionante, né?

Bom, amanhã começa um novo semestre. Mas os problemas que assombram os investidores ainda são os mesmos: dólar, Brasília, pandemia. Acompanhe os próximos capítulos junto com a gente 😉

Maiores altas

Banco Inter: 5,12%

Iguatemi: 3,16%

PetroRio: 2,47%

Petrobras (PETR3): 2,19%

Multiplan: 2,09%

Maiores baixas

B2W: -3,80%

Cogna: -3,35%

Weg: -2,91%

Lojas Americanas: -2,62%

Santander: -2,50%

Ibovespa: queda de 0,41%, aos 126.801 pontos

Em NY:

S&P 500: alta de 0,13%, aos 4.297 pontos

Nasdaq: queda de 0,17%, aos 14.503 pontos 

Dow Jones: alta de 0,61%, aos 34.502 pontos 

Dólar: alta de 0,63%, a R$ 4,9732

Petróleo

Brent: alta de 0,46%, a US$ 74,62

WTI: alta de 0,67%, a US$ 73,47

Minério de ferro: alta de 0,82%, US$ 214,08 no porto de Qingdao (China)

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