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Emerson Feliciano

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Executivo, professor e palestrante, comprometido em formar profissionais e organizações mais estratégicas, inovadoras e inteligentes em diversidade racial.

Antifragilidade: um comportamento-chave para executivos negros

Para não se abalar num mundo que vive testando nossa resistência, precisamos transformar críticas e microagressões em combustível para crescimento e aprendizado.

Por Emerson Feliciano
9 fev 2025, 08h00
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 (Luis Alvarez/Getty Images)
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E

u tive meu momento “Vinicius Júnior” antes do próprio craque! Estou dando esse nome, mas não porque fui escolhido o melhor jogador do mundo ou fiz um gol em uma final. Infelizmente, a situação foi outra.

Imagine você indo para Madrid a trabalho, palestrar em um congresso internacional, hospedado em um hotel cinco estrelas. Com hábitos saudáveis, você acorda cedo para se exercitar antes do café. Esse era eu no outono de 2018.

Às 5h50 da manhã, estava esperando a academia do hotel abrir, ao lado de três cavalheiros na casa dos 60 anos. Em certo momento, um deles virou para a recepcionista da academia e disse: “Nós vamos mesmo ter de dividir a academia com esse índio? Esses índios só servem para jogar futebol e nada mais”. Mal sabia ele que eu falo espanhol e entendi tudo – incluindo o restante do “poema racista” que ele recitou naquela manhã. Só para esclarecer, depois fiquei sabendo que preconceituosos em Madrid chamam de índios as pessoas que vêm da América do Sul.

“Ah, Emerson, mas isso não foi uma situação profissional, foi um momento do dia a dia.” Nada disso! Eu só estava lá porque, ao conquistar meu lugar à mesa da liderança negra, abri portas para muitas experiências que não teria vivenciado se não fosse bem-sucedido na carreira. Então, sim, é sobre Liderança Negra que estamos conversando. E sério!

“Mas qual foi sua reação, Emerson?”, você deve estar se perguntando.

Antes de tudo, se você fosse meu aluno, eu começaria te dizendo de forma categórica que resiliência, embora importante, não é o suficiente para nós, pessoas negras, que buscamos posições de liderança no mundo corporativo. Por isso, há alguns anos, fui atrás de um conceito que expressasse melhor a competência que nós, negros, precisamos desenvolver. Foi assim que cheguei no ensaísta Nassim Taleb e o conceito de antifragilidade.

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Taleb, autor dos livros Antifrágil: Coisas que se beneficiam do caos e Arriscando A Própria Pele, é conhecido por explorar como sistemas, ideias e pessoas podem não apenas resistir, mas prosperar diante de adversidades. Para Taleb, ser antifrágil vai além de ser resiliente: é transformar choques, crises e caos em combustível para crescimento e aprendizado.

Agora, imagine o que significa “arriscar a própria pele” no contexto da Liderança Negra. No mundo corporativo, isso ganha um significado quase literal. Todos os dias, nós, profissionais negros, somos chamados a nos expor, enfrentar riscos reais e encarar situações nas quais errar não é uma opção. Cada reunião, palestra e decisão de se posicionar – como discutimos no artigo anterior – é um ato de coragem. É “arriscar a própria pele” no sentido mais puro, muitas vezes sem qualquer rede de proteção.

Se você fosse meu aluno, eu te diria que existem três competências essenciais para navegar nesse cenário e emergir mais forte. 

Essa dica é para você, mas, embora eu me considere um profissional bem-sucedido, é a sugestão que eu gostaria de ter recebido no meu início de carreira; ou seja, é uma mistura do que os especialistas recomendam com a minha vivência como Líder Negro.

Inteligência emocional: crescer com as tensões

No mundo corporativo, lidar com microagressões e preconceitos velados é uma batalha constante. Daniel Goleman define inteligência emocional como a habilidade de reconhecer, compreender e gerenciar suas emoções, além de influenciar positivamente o ambiente ao seu redor.

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Todos os dias, nós, profissionais negros, somos chamados a nos expor, enfrentar riscos reais e encarar situações nas quais errar não é uma opção.

De forma prática, isso significa aprender a pausar antes de reagir. Lembre-se: um momento de raiva pode custar meses de progresso. Em situações tensas, conte até dez, respire e responda com estratégia, não com instinto. Transforme provocações em oportunidades de demonstrar equilíbrio e liderança. Ler o livro Inteligência Emocional de Daniel Goleman é um excelente começo para dominar essa competência.

Domínio do inglês e da tecnologia

Competências técnicas são fundamentais, mas, para líderes negros, dominar o inglês e a tecnologia é muito mais do Djamila Ribeiro reforça que validar nossas experiências é, por si só, um ato de resistência. Reconheça o que você sente, mas não permita que isso dite suas ações – permita que suas ações mostrem seu valor.que um diferencial – é estratégico. No mundo globalizado, essas habilidades abrem portas para projetos internacionais, mesas de decisão e oportunidades que antes pareciam inatingíveis.

De forma prática: invista no que amplia seu alcance. Faça cursos online, use plataformas gratuitas para aprender um novo idioma ou tecnologia. Como Benetti et al. (2023) observam, profissionais negros que dominam essas ferramentas aumentam exponencialmente sua empregabilidade e sua influência. 

Djamila Ribeiro reforça que validar nossas experiências é, por si só, um ato de resistência. Reconheça o que você sente, mas não permita que isso dite suas ações – permita que suas ações mostrem seu valor.

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Meu conselho? Pergunte-se hoje: o que falta no meu currículo para me colocar entre os mais preparados? E, mais importante, o que posso começar a aprender agora?

Comunicação estratégica: de voz a impacto

Não basta ser ouvido, você precisa ser compreendido e respeitado. Taleb nos ensina que os antifrágeis sabem usar os recursos disponíveis para transformar cada interação em uma oportunidade de crescimento. No mundo corporativo, isso significa construir uma comunicação que seja clara, estratégica e alinhada aos seus objetivos.

Pratique sua narrativa. Seja em reuniões, apresentações ou conversas informais, saiba como posicionar suas ideias de forma que reflitam seu valor e propósito. Para isso, busque feedback, grave-se falando e esteja sempre disposto a melhorar. O que não faltam são excelentes plataformas e cursos, muitas vezes gratuitos, que te ajudam a dominar mais essa competência. 

Depois do treino na academia

Voltando àquela manhã em Madrid: eu entrei na academia. Não disse nada. Apenas treinei. Preparei-me para a palestra que faria no mesmo dia e que, ao final, foi eleita a melhor do evento. Quando um daqueles três senhores, presente na plateia – para aprender, veja bem –, veio até mim para me cumprimentar pela apresentação, eu pude olhar nos olhos dele e dizer algumas palavras, com inteligência emocional e em um inglês impecável, que em resumo diziam: “Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor”.

Pergunte-se hoje: o que falta no meu currículo para me colocar entre os mais preparados? E, mais importante, o que posso começar a aprender agora?

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A arena está montada. A batalha não é fácil, mas você tem tudo o que precisa para vencê-la. Você não está aqui para pedir permissão, e muito menos para se desculpar pela sua presença. Você está aqui para criar impacto e ocupar o seu lugar à mesa da liderança. E sabe o que é mais poderoso? Saber que cada passo seu não é apenas uma conquista individual, mas uma trilha aberta para outros seguirem.

Lembre-se: cabeça erguida, olhar sincero e antifragilidade. E, no próximo artigo, vou te mostrar como construir redes e alianças estratégicas – porque a liderança não é uma jornada solitária. Te vejo lá.

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