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Minério de ferro dispara quase 9%, mas não salva Ibovespa do negativo

Mercado financeiro faz piada com o surgimento de uma “criptoferro” em dia sem graça para as bolsas de valores.

Por Tássia Kastner 10 Maio 2021, 19h04

O minério de ferro tem vivido dias de bitcoin – ou dogecoin. Só nesta segunda, a matéria-prima saltou 8,63% e fechou o dia cotada a US$ 230,56 a tonelada. A disparada é resultado da demanda das siderúrgicas chinesas e da perspectiva de que esse apetite se espalhará como um rastilho de pólvora pelo mundo tão logo a vacinação avance. O empurrão adicional veio de um conflito diplomático entre China e Austrália (o principal fornecedor da commodity) que começou a ganhar corpo no final da semana passada.

No ano, a valorização é de 44%, metade galgada apenas nesses primeiros dias de maio. Por isso, hoje começaram as comparações com o mercado de criptomoedas. Uma matéria da Dow Jones foi a primeira a fazer a comparação. Depois, o estrategista-chefe da XP, Fernando Ferreira, decidiu brincar com a “nova cripto”: Bitore, Ironcoin? (em inglês, minério de ferro é Iron Ore). Em português, criptoferro?

Entre piadas e altas, a expectativa era de um dia extremamente positivo para a bolsa brasileira. Não aconteceu. O Ibovespa fechou em leve queda, -0,10%, a 121.909 pontos.

Foi uma segunda-feira estranha. Veja a Vale: a mais valiosa companhia da América Latina começou o dia batendo a marca de R$ 120 por ação. É que minério é o principal produto da mineradora brasileira, e a disparada dos preços eleva a receita da companhia. Só que a euforia na bolsa durou pouco. Os papéis entraram em uma trajetória descendente e fecharam em queda de 0,66%, a R$ 114,96. No mês, a empresa acumula ganho de 5%; no ano, segue em linha com o minério (+43%)

Também no negativo, contrariando todas as expectativas, ficou a Gerdau: -0,49%, a R$ 36,19. Já Usiminas (+0,82%) e CSN (+0,67%) avançaram, só que bem menos do que o dia prometia. 

O dia só não foi pior porque a Petrobras e os grandes bancos, logo atrás da Vale como maiores empresas no Ibovespa, tiveram um dia positivo. A petroleira divulga os resultados do primeiro trimestre, o último sob a batuta do ex-presidente Roberto Castello Branco, na quinta-feira. Já os bancos acabaram de sair de uma temporada com resultados acima das expectativas do mercado. Além disso, amanhã o Banco Central divulga a ata da reunião do Copom que elevou a Selic para 3,50% ao ano. Investidores estão ansiosos sobre os fundamentos usados pelo BC para justificar a sinalização de uma nova subida de 0,75 ponto percentual em junho, o que levaria a taxa para 4,25%.

De resto, as maiores altas do dia ficaram com a CVC, sem que o noticiário apresentasse uma justificativa concreta para a alta. Também avançaram o Pão de Açúcar, que caiu nas graças dos investidores em março e vive um bom momento na bolsa (contamos aqui) e os frigoríficos.

Na ponta negativa, destaque para Lojas Americanas e B2W, que continuam sob escrutínio da Faria Lima após anúncio de uma grande reorganização societária. 

O fato é que o dia não foi estranho apenas aqui no Brasil. Em Nova York, as bolsas passaram o dia no negativo. No começo, era mais um dia de “quedas das ações de empresas de tecnologia” e parecia tudo normal. Depois o noticiário foi incorporando novas camadas de notícias negativas.

Uma delas foi a releitura dos dados de emprego nos EUA, divulgados na sexta. Quando eles vieram pior que o esperado, Wall Strett decidiu ver o copo meio cheio. Considerou que a menor geração de vagas reduziria o risco de uma alta da inflação descontrolada. Hoje, no entanto, o mercado financeiro passou a concluir que a desaceleração era porque as pessoas ainda têm dinheiro do auxílio emergencial e estão sem pressa de voltar ao trabalho.

O mercado americano também está às voltas com uma outra notícia, que, por enquanto, é apenas pitoresca. Um importante oleoduto americano está com o transporte de combustíveis paralisado desde a semana passada. O motivo é um ataque hacker que bloqueou os sistemas que mantinham o funcionamento da rede.

O lance é que, se não for resolvido, isso tem potencial de afetar o abastecimento e gasolina (e querosene de aviação) na região de Nova York. Por lá, os preços da gasolina ensaiavam alta, ainda que as cotações do petróleo tenham se mantido praticamente estáveis.

Agora, quando o investidor soma “dinheiro para as famílias consumirem” + “alta de matérias-primas” o resultado volta a ser o medo da inflação. Aí os juros de 10 anos da dívida americana voltaram a avançar para o patamar de 1,60%, o jeito que o mercado  financeiro tem de dizer que não acredita no Fed (o banco central dos EUA) e que os juros por lá vão sair do zero mais cedo que o esperado. Esse pessimismo sempre acaba batendo por aqui.

Esse dia tão curioso foi coroado com a queda de 20% na dogecoin, a criptomoeda que surgiu como meme e mora nas piadas de Elon Musk, o fundador da Tesla. Os tuítes dele já ajudaram a cripto subir 10.000% neste ano. Saiu do nada, US$ 0,005, para US$ 0,50 na semana passada. O valor de mercado bateu US$ 90 bi, que não só não supera a Vale entre todas as empresas brasileiras.

Bem, convidado do programa de TV americano Saturday Night Live no último final de semana, o bilionário chamou a moeda de “fraude” em meio às infinitas piadas típicas do programa. Nem adiantou ele tentar falar sério e dizer que pretendia levar a moeda – literalmente – para a lua. De concreto, ele anunciou que sua outra empresa, a SpaceX, aceitará pagamentos em Dogecoin para uma missão lunar.  Eis um dia que não foi salvo. Nem pelo minério de ferro, nem por Elon Musk.

 

MAIORES ALTAS

CVC +5,05%

Marfrig +3,48%

Pão de Açúcar +2,72%

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Cogna +2,58%

Minerva +2,28%

 

MAIORES QUEDAS

Locaweb -5,28%

Banco Inter -4,87%

B2W -4,37%

Qualicorp -3,64%

Lojas Americanas -3,95%

Ibovespa: -0,11%, a 121.909 pontos

Dólar: +0,07%, a R$ 5,2320

 

Nova York

Dow Jones: -0,10%, a 34.742,82 pontos

S&P 500: -1,04%, a 4.188,43 pontos

Nasdaq: -2,55%, 13.401,86 pontos

 

Petróleo

WTI: +0,02%, a US$ 64,92

Brent: -0,07%, a US$ 68,21

Minério de Ferro: +8,63%, a US$ 230,56 no porto de Qingdao, na China

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