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Ibovespa tem dia de avestruz, ignora caos em Brasília e sobe quase 1%

Alta teve um empurrão da Petrobras, mas o impressionante mesmo foi a disparada das ações do Pão de Açúcar.

Por Tássia Kastner e Bruno Carbinato 12 abr 2021, 18h33

Tudo indica que o Ibovespa decidiu ter um dia de avestruz: enfiou a cabeça em um buraco para não ver os problemas do país. Ignorando o dia fraco lá fora e o caos político em Brasília, a bolsa brasileira subiu quase 1% nesta segunda-feira (12). 

O presidente Jair Bolsonaro anda às voltas na tentativa de barrar a CPI da Covid no Senado, até que a articulação virou uma bagunça. O senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) divulgou uma conversa com o presidente sobre o tema. O que Brasília entendeu do diálogo é que Bolsonaro fez pressão para que o senador peça o impeachment de ministros do Supremo e que modifique o texto base da CPI para que ela inclua investigações contra governadores e prefeitos na gestão da pandemia. Na visão do presidente, o inquérito atual teria como objetivo único prejudicar seu mandato.

Bolsonaro também adotou tom ainda mais belicoso contra o Congresso e insinuou que teria que “sair na porrada” com o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), autor do requerimento da instalação da CPI. As colocações, é claro, não foram bem recebidas pelos congressistas, que viram nas palavras do presidente uma tentativa de interferir nos outros poderes. 

Eis uma relação inversamente proporcional: de perda de poder de Bolsonaro e fortalecimento do Senado. E o timing é péssimo. Isso porque o presidente já anda com um problema gigantesco com a Câmara. Aí voltamos à novela do Orçamento.

O texto aprovado pelo Congresso é considerado inexequível e levaria a uma nova rodada de pedaladas fiscais — aquelas que serviram de justificativa jurídica para o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O Ministério da Economia recomendou o veto à proposta, deputados e senadores recorreram ao “deixa disso”. Em palavras mais técnicas, disseram que matariam no peito a falta de dinheiro para despesas obrigatórias, desde que o ajuste seja feito ao longo do ano. O deixa disso foi tão longe que já há uma articulação para que Bolsonaro e Mourão viajem, assim o presidente da Câmara, Arthur Lira, sancionaria o texto e ficaria com o ônus de um Orçamento que não para de pé.

A situação já não era favorável para Bolsonaro antes, com a CPI e todo o enrosco posterior. E faz semanas que o mercado financeiro cobra uma solução que preserve o teto de gastos e evite o aumento da dívida pública.

O problema é que a pandemia continua acelerando no país. E do jeito que o orçamento está, não haverá dinheiro para bancar o aumento inevitável de gastos com saúde e nem as medidas econômicas para amenizar a crise causada pelo coronavírus — as principais são os programas de redução de salário e jornada e o crédito a empresas.

Uma saída em estudo para fazer a conta fechar foi revelada pela Agência Estado nesta tarde: o ministro Paulo Guedes quer propor uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que coloque os gastos extras da saúde fora do teto de gastos. Esse seria um jeito de bancar as novas despesas, sem o decreto de calamidade pública (que abriria porteira para gastos de maneira indiscriminada).

A Faria Lima não gostou muito da ideia, mas não deu para notar pelo Ibovespa. O índice fechou em alta de 0,97%, a 118.811 pontos, na máxima do dia. Só o volume de negócios que continua reduzido em relação à média do ano: o pregão movimentou R$ 24 bilhões, ante média diária de R$ 36 bilhões no ano

Os sintomas de que a medida pode ser um problema para as contas públicas apareceram no dólar (que chegou a subir mais de 1% no pior momento do dia e voltou a ficar acima de R$ 5,70) e nos juros futuros (que desaceleraram o ritmo de queda após a notícia). Quando investidores temem o equilíbrio fiscal, cobram mais para emprestar ao governo.

O efeito-avestruz teve um empurrão da Petrobras. A estatal subiu 0,97% no dia em que acionistas votaram em assembleia o nome de Joaquim Silva e Luna para a presidência da companhia. Ele assumirá o posto de Roberto Castello Branco, que foi demitido por Bolsonaro em fevereiro em mais um episódio de intervenção na estatal. 

Mas a estrela mesmo foi o Pão de Açúcar, que caiu nas graças dos investidores depois que o plano de reestruturação do negócio avançou. Nesta segunda, a alta foi de impressionantes 9,79%, para R$ 37. Desde a cisão com o Assaí, no começo de março, a companhia disparou 236% – a história você relembra aqui

Foi um dia tão atípico, que a bolsa conseguiu se descolar completamente do exterior. Em Nova York, o índice S&P 500 chegou a bater um recorde intraday, mas fechou praticamente estável (-0,02%) após atingir seu recorde histórico na última sexta. Resta saber quanto tempo o mercado financeiro vai aguentar com a cabeça no buraco.

Maiores altas

Pão de Açúcar: 9,79%

Braskem: 7,82%

Minerva: 5,18%

Eneva: 4,63%

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JBS: 2,87%

Maiores baixas

Eletrobras PNB: -2,84%

Azul: -2,54%

Eletrobras ON: -2,00%

Eztec: -1,46%

BR Malls: -1,31%

Ibovespa:  +0,97%, a 118.811 pontos

Bolsas americanas

Dow Jones:  -0,16% (33.746 pontos)

S&P 500: -0,02% (4.128 pontos)

Nasdaq: -0,36% (13.850 pontos)

Dólar

+0,84%, a R$ 5,7224

Petróleo 

Brent: +0,40%, a US$ 63,35

WTI: +0,43%, a US$ 59,75

Minério de Ferro, 

+0,59%, para US$ 174,57 a tonelada no porto de Qingdao, na China

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