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Evergrande coloca bolsas globais em liquidação

Ibov tombou mais de 2% com a possibilidade de quebra da construtora chinesa. Nos EUA, o S&P 500 teve a maior baixa desde maio e analistas apontam para o fim do ciclo de recordes.

Por Tássia Kastner 20 set 2021, 18h36

O Ibovespa afundou e caminhou até perto dos 107 mil pontos, patamar que não via desde novembro do ano passado. Wall Street amargou o pior pregão desde maio, e as bolsas europeias também derreteram. Os principais índices chineses não caíram apenas porque era feriado na Ásia e não houve pregão – à exceção de Hong Kong, que despencou mais de 3%. 

O mau agouro que se espalhou no mercado veio justamente da porção oriental do globo. Há semanas, o mercado financeiro descobriu que a segunda maior construtora da China, a Evergrande, tinha uma dívida efetivamente impagável, que soma US$ 300 bilhões. A dúvida agora é se Pequim tentará mediar o resgate para evitar um efeito contágio sobre a economia não só do país, mas do globo todo.

A priori, a Evergrande tem credores na própria China e, sozinha, não seria capaz de provocar um colapso global a exemplo da quebra do Lehman Brothers, a assombração que pairou sobre os investidores nesta segunda-feira vermelha.

O problema é que o colapso da companhia tem o potencial de travar o setor de construção na China. Aí sim é possível falar em um tsunami de proporções globais. Primeiro, o setor de construção responde por fatia importante do PIB chinês, e uma queda abrupta na atividade poderia travar a economia como um todo.

Com a trava em um pedaço tão representativo da economia, todo o resto da atividade econômica do país perderia fôlego, algo que já vinha sendo aventado pelo mercado financeiro desde agosto. No mês passado, a incerteza era sobre o tamanho do impacto econômico dos lockdowns impostos para conter a variante delta do coronavírus no país. 

Um resgate do governo à companhia não parece improvável, e Roberto Dumas disse à Folha contar com um resgate. O editor de China de Financial Times pondera que o regime chinês pode estar disposto a deixar a Evergrande sangrar por mais tempo. O motivo, ele aponta, é que Pequim já vinha pressionando por um crescimento, digamos, mais responsável das empresas do setor e redução da alavancagem. A Evergrande seria o exemplo do que pode acontecer por descumprir a determinação do Partido Comunista.

Não se trata de falta de recursos para salvar a companhia, mas apenas de um castigo exemplar que combina com o atual momento. 

Para além do ataque de pânico que investidores sofreram hoje no mundo todo, dá para medir algumas consequências de uma desaceleração brutal na China. A primeira delas é sobre o preço do minério de ferro.

Derreteu

A commodity despencou 8,80% hoje e agora acumula perda de mais de 60% desde o pico recente de maio. Sem construção, as siderúrgicas podem cortar a produção de aço e, portanto, a demanda por minério. A China já vinha limitando a atuação das indústrias de siderurgia por lá, com o objetivo explícito de reduzir as emissões de gases poluentes. Para além da causa nobre, o partido também falava em controlar os custos das matérias-primas na marra (o que, vale notar, daria um alívio às construtoras).

O ponto é que surtiu efeito e a conta já chegou no Brasil.

A Vale tombou 3,30% nesta segunda e fechou a R$ 83,31. O derretimento dos papéis, que chegaram a ser cotados a R$ 118 em maio, fez com que ela perdesse o posto de maior empresa da América Latina para o Mercado Livre, avaliado em US$ 90 bilhões 

E, por óbvio, como maior empresa do Ibovespa, ela ajudou a sugar o principal índice do país para o buraco. O Ibov terminou o dia em queda de 2,33%, a 108.843 pontos. É o menor patamar desde novembro. Poderia ter sido pior, na mínima o índice chegou a afundar a 107 mil pontos. Mas, durante a tarde, os ânimos deram uma acalmada.

Buy the dip

Não só por aqui. Nos Estados Unidos, investidores também ficaram com a impressão de que estavam exagerando um pouco (ao menos para um único pregão) e começaram a recomprar algumas ações, tirando os principais índices do país das mínimas do dia. Ainda assim, foi um tombo de respeito para quem vinha engatando recordes e não caía mais de 1% desde 18 de agosto. O S&P 500 fechou em queda de 1,7%, os três principais índices americanos acumulam baixa de 4% no mês – no pior momento do dia, chegou a 5%.

Foi na última volta do relógio e ajudaram a içar os mercados do buraco. O mercado chama o fenômeno de buy the dip, algo como “compre o fundo do poço”, numa tradução bem livre. E foi o que disse o estrategista-chefe do J.P. Morgan, Marko Kolanovic, à Bloomberg. O problema é saber quando o fundo do poço chegou.

Nesta semana, haverá reunião do Fed e o mercado financeiro aguarda ansiosamente alguma sinalização sobre a redução no programa de impressão de dinheiro que vem alimentando a economia e os recordes das bolsas de valores desde o começo da pandemia. São US$ 125 bilhões em ração que termina em ativos de risco todos os meses.

Essa redução tende a tirar o ímpeto de investidores comprar ações e outros ativos de risco a qualquer preço.Mas não é só. Há uma outra ração de dinheiro no mercado: os gastos do governo americano.

Lá, a relação dívida/PIB deles está em 129% (por aqui, para comparar, são 84%), e assim como no Brasil, há um teto de gastos para conter a trajetória de alta. O problema é que, no momento atual, um corte nas despesas significaria paralisar a máquina pública americana e frear a maior economia do mundo. O ano fiscal dos americanos vira em 1º de outubro, e a Secretária do Tesouro de lá, Janet Yellen, afirmou que os EUA podem ficar sem grana já na metade do mês. Em um artigo ao The Wall Street Journal, ela pediu aos parlamentares que suspendessem o teto neste ano, para evitar um colapso que abateria o crescimento do país.

O mercado financeiro tenta há algum tempo prever quando as torneiras de dinheiro vão fechar e qual deverá ser o impacto sobre as bolsas. Nesta segunda turbulenta, o Morgan Stanley jogou uma bomba: disse trabalhar com uma possibilidade de queda de mais de 20% no S&P 500, o principal índice. O cenário mais benigno é uma queda de 10% em relação ao pico recente, o que o mercado chama de correção. O apocalipse de -20% colocaria o índice em bear market. 

Em dólares, a bolsa brasileira já cai mais de 20% desde o pico. Em reais, o Ibovespa está no meio do caminho: 16% abaixo da máxima recente (de 130 mil pontos). Eis a definição de pessimismo.

MAIORES ALTAS

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Copel (CPLE6) +4,98%

Sabesp (SBSP3) +1,36%

CVC (CVCB3) +0,73%

Iguatemi (IGTA3) +0,50%

Taesa (TAEE11) +0,11%

MAIORES QUEDAS

Braskem (BRKM5) -11,01%

Via (VIIA3) -6,15%

PetroRio (PRIO3)  -6,08%

Méliuz (CASH3) -5,91%

Banco Inter (BIDI11) -5,68%

Ibovespa: queda de 2,33%, a a 108.843 pontos

Nova York

Dow Jones: -1,78%, a  33.970 pontos

S&P 500: -1,70%, a 4.357,73 pontos 

Nasdaq: -2,19%, a 14.713,90 pontos

Dólar: alta de 0,93%, a R$ 5,3312

Petróleo

Brent: -1,23%, a US$ 74,41

WTI: -1,61%, a US$ 70,81

Minério de ferro

queda de 8,80% a US$ 92,98 por tonelada no porto de Qingdao

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