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Bolsonaro ameaça demitir presidente do Banco do Brasil e ações caem quase 5%

Intervenção derruba também a Petrobras e piora dia que já era negativo para o Ibovespa.

Por Juliana Américo, Tássia Kastner 13 jan 2021, 19h20

Não é que no ano 3 do governo Bolsonaro alguém ainda acredite que o presidente seja um defensor do livre mercado e da não intervenção do governo na economia. A surpresa é o tamanho da potencial intervenção. A vítima da vez é o Banco do Brasil.

Nesta quarta, o grande assunto do mercado financeiro foi a possível demissão do presidente do banco, André Brandão, por decisão de Jair Bolsonaro. Brandão tem menos de quatro meses no cargo, vale dizer. Até a conclusão deste texto, a situação era a seguinte: alguns jornalistas cravavam a saída como certa, outros que ainda estava em negociação no Palácio do Planalto. Procurado, o Banco do Brasil não comentou.

O presidente da república teria reclamado da repercussão negativa da decisão do banco de fechar agências e abrir um novo programa de demissão voluntária, medidas anunciadas na segunda-feira. O plano é acabar com 361 unidades – entre agências, escritórios e postos de atendimento – ainda no primeiro semestre deste ano e desligar 5 mil funcionários.

Essa reestruturação foi vista com bons olhos pelo mercado. Quando comparado com outras instituições financeiras, o BB estava ficando para trás. Os grandes bancos privados já haviam fechado postos de atendimento e desligado funcionários no ano passado, um processo que vem de anos, mas se acelerou com a pandemia. É aquilo que já escrevemos um milhão de vezes: mais pessoas estavam em casa e se converteram à tecnologia. Descobriram que não precisam tanto assim da agência. E o banco descobriu que poderia cortar custos, claro.

Investidores ficaram felizes com a economia potencial anunciada pelo BB: R$ 353 milhões em 2021 e R$ 2,7 bilhões, até 2025. 

Mas houve um preço político. É que o fato relevante que anunciou as mudanças veio no mesmo dia em que a Ford comunicou o fechamento de suas fábricas e a demissão de outros 5.000 funcionários. E isso no Brasil com as taxas de desemprego na estratosfera (e subindo). E junte a isso o fato de que os sindicatos dos bancários são bastante fortes país afora: eles fizeram um bom barulho depois do anúncio do BB.

Bolsonaro se preocupou com o estrago em sua imagem, já investidores com a nova intervenção do governo numa empresa listada em bolsa. Os papéis do banco chegaram a liderar as quedas do Ibovespa e encerraram o dia com desvalorização de 4,94%, a segunda maior baixa do dia. 

Essa não é a primeira vez – e ninguém arriscaria a dizer que será a última – que o governo Bolsonaro interfere em empresas públicas. Antes da troca de comando do banco, o ocupante do Planalto mandou tirar do ar um comercial do Banco do Brasil em que apareciam “jovens descolados”, ou seja, em que havia diversidade racial e sexual. Havia uma transexual entre os personagens da campanha. O diretor da área foi demitido.

Na época, pegou mal entre investidores, mas não chegou a causar um grande dano às ações do banco. Eles se apegaram ao fato de que não se tratava de uma decisão que atingisse os resultados financeiros da companhia diretamente — como seria baixar juros na marra (governo Dilma) ou demitir um presidente (Bolsonaro).

Foi diferente da interferência na Petrobras, claro. Em abril de 2019, os papéis da petroleira registraram queda de mais de 8% depois que o presidente pediu à companhia que cancelasse um aumento no preço do diesel.

Por falar em Petro, a empresa está sendo acusada de segurar o reajuste de preços dos combustíveis. Não custa lembrar que os preços até subiram no segundo semestre — e bateram na inflação, outra coisa que aniquila a popularidade de qualquer presidente.

A Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) alega que a companhia pratica preços predatórios – que é quando uma empresa reduz o preço dos seus produtos para tentar eliminar concorrentes. 

Em sua defesa, o presidente da Petrobras afirma que a associação está baseando os seus cálculos em custos irreais. “Nossa política é ajustar os preços à paridade internacional, com margem pelo risco” explicou Roberto Castello Branco, em entrevista para o jornal Valor Econômico

As ações da petroleira caíram 4,83% nesta quarta. Mais que o petróleo, que recuou ao redor de 1% (veja abaixo). Tem o efeito contágio, claro. Hoje é o BB, amanhã pode ser a Petrobras.

Dia ruim para as estatais e para a bolsa no geral. Depois de um começo de ano excepcional, no qual subiu 5% e atingiu a máxima de 125.076 pontos só na primeira semana, o Ibov parece estar voltando à realidade e o mercado segurando os ânimos. Não dá pra ir nessa toada de 5% por semana o ano todo, afinal.

Assim, o Ibovespa fechou o dia em queda de 1,67%, a 121.933 pontos. O preço do minério de ferro teve uma queda expressiva de 1,48% no Porto de Qingdao e isso afetou a Vale. As ações da mineradora recuaram 2,84%. 

Os papéis das siderúrgicas também, claro. Tudo pelo minério. É que as cidades chinesas estão adotando novas medidas de lockdown para conter o avanço dos casos de covid-19 e parte da indústria siderúrgica da china pode ser fechada. A Usiminas liderou as quedas (-6,07%), seguida pela CSN (-4,81%), Gerdau (-3,31%) e Metalúrgica Gerdau (-2,57%).

Apesar do minério, nem dá para colocar a culpa do tombo de hoje no exterior. Ok que a cautela continua por causa do processo de impeachment contra o presidente Donald Trump e das ameaças de violência para a posse de Joe Biden, na próxima quarta (20).

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Esse é o segundo impeachment do presidente americano. Em dezembro de 2019, a Câmara aprovou o afastamento de Trump por abuso de poder e obstrução do Congresso. Na época, o processo não passou pelo Senado. 

Agora, o clima é diferente. Os senadores republicanos não estão felizes com o atual presidente e não devem ajudá-lo desta vez. Mas as bolsas americanas superaram isso tudo. Começaram o dia em baixa, mas passaram a subir, ainda que de forma modesta. O Nasdaq Composite terminou o dia em alta de 0,43% a 13.128 pontos; já o S&P 500 subiu discretos 0,23% a 3.809 pontos.

Maiores altas

MRV Engenharia: 4,39%

PetroRio: 3,90%

Eneva: 3,67%

Cosan: 2,15%

Pão de Açúcar: 1,95%

Maiores baixas

Usiminas: -6,07%

Banco do Brasil: -4,94%

Petrobras: -4,83%

CSN: -4,81%

Azul: -4,67%

Petróleo

Tipo Brent: -0,92%, , cotado a US$ 56,06 o barril

Tipo WTI: -0,56%, para US$ 52,91 o barril

Dólar: -0,23%, cotado a R$ 5,31

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