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As criptos além do Bitcoin

O universo das criptomoedas ainda é um castelo de cartas, que pode ruir a qualquer momento.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 13 jan 2022, 21h27 - Publicado em 14 jan 2022, 05h00

Não faltam picaretas que montam esquemas de pirâmide dizendo se tratar de “investimento em cripto”. É fácil detectá-los: qualquer um que ofereça retorno garantido de 5%, 10% ao mês está tentando enganar você.

Mas essa não é a história da nossa reportagem de capa. O buraco ali é mais embaixo: mostrar que todo o universo das criptomoedas ainda é um castelo de cartas, que pode ruir a qualquer momento.

Não há picaretas entre os criadores do Bitcoin ou do Ethereum, as criptos mais tradicionais, e nada indica que haja por trás daquelas que bombaram mais recentemente – Cardano, Binance Coin, Solana. Mas a mecânica dos ganhos com cripto é a mesma das pirâmides financeiras.

Por um motivo: a razão de existir de uma cripto não é proporcionar lucros de 1.000%, 10.000% ao ano. As maiores entre elas se dividem em duas classes: a do Bitcoin, feita para substituir o dinheiro comum; e as mais recentes, que servem de alimento para redes de blockchain com funções mais diversas do que operar moedas eletrônicas.

O Bitcoin surgiu em 2009 como uma espécie de protesto. Seus criadores queriam dar à luz algo que pudesse substituir o dinheiro comum, emitido por bancos centrais.

A nova moeda se propunha a resolver um problema do dinheiro comum: os governos emitem o quanto quiserem. Hoje mesmo há 30% mais dólares em circulação do que antes da pandemia, já que o BC dos EUA ligou suas impressoras para evitar um colapso econômico. Isso cria inflação: tanto que os EUA passam hoje por sua maior em 40 anos.

O Bitcoin é à prova de inflação. Hoje há 18,9 milhões deles circulando, e o suprimento máximo será de 21 milhões (a ser atingido no ano de 2140). Isso bastaria para que ele substituísse as moedas comuns?

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Difícil. É preciso um excesso de pessimismo para esperar que as moedas fortes deixem de existir – ou mesmo as nem tão fortes, como a nossa. Mas a ideia foi pegando. Entre 2013 e 2015, cada unidade de Bitcoin já era comercializada por algumas centenas de dólares.

Em 2016 veio o primeiro pico: US$ 20 mil. Em 2021, o segundo: US$ 67 mil. O que fez a cripto subir tanto? A crença generalizada de que as moedas comuns deixariam de existir?

Não. A alta retroalimentou mais altas. Histórias de quem comprou a US$ 500 lá atrás e revendeu a US$ 20 mil (3.900% de lucro) foram se espalhando. Aí começou a chover gente entrando nessa para tentar repetir os lucros do passado – gente e profissionais do mercado, apostando o dinheiro dos clientes. E a cotação foi subindo. Em novembro, o valor somado de todos os Bitcoins em circulação era de US$ 1,25 trilhão.

É a mecânica de uma pirâmide. O sucesso financeiro de quem entrou para ganhar dinheiro só acontece se entrar cada vez mais gente lá dentro para ganhar dinheiro. Como pessoas a fim de fazer esse tipo de aposta a qualquer custo são um recurso finito, uma hora a fonte seca – isso ajuda a explicar o tombo de 30% que o Bitcoin levou depois do pico mais recente.

Seja como for, os maiores entusiastas do mercado cripto tendem a apostar menos no Bitcoin hoje. As fichas estão nas moedas da “Web 3.0”, as que movem o metaverso e criam serviços inéditos – como corretoras-robôs que pagam juros em dólar sem a intermediação de bancos.

Esses sistemas rodam em diferentes redes de blockchain, cada uma com a sua própria cripto particular. E quanto mais funcionalidades uma blockchain oferece, mais a cripto atrelada a ela tende a subir – pois serve como porta de entrada para os serviços que existem lá dentro.

Várias blockchains agora disputam o papel de protagonista. E isso move uma corrida especulativa ainda mais surrealista que a do Bitcoin. O Ethereum subiu 416% em 2021; o Cardano, 676%; o Binance Coin, 1.286%; o Solana, 9.788%. Cada um na esteira de sua rede de blockchain.

Entenda, na nossa reportagem de capa, o lado revolucionário desse novo capítulo na história das criptos. E o lado pirâmide também.

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