Saiba como identificar esquemas de pirâmide financeira

Cuidado com quem promete lucros astronômicos ou fórmulas mágicas para ganhar dinheiro.

Um amigo te apresenta a oportunidade de uma vida: uma operação financeira nova, criativa, que rende 50% de lucro a cada 45 dias. Você então segue a dica e coloca R$ 1 mil. 45 dias depois, seu saldo na aplicação está mesmo em R$ 1.500. Depois de três meses, já são R$ 2.250. Em seis meses, R$ 5.062. Uau. Ao final de um ano, seu milzinho se transformou em parrudos R$ 25.628. Um sonho.

Até que você ouve rumores: parece que a tal operação financeira criativa oferece uns riscos pesados. Então você corre para sacar o dinheiro. Mas não consegue. A empresa de investimentos diz que a operação de saque está temporariamente paralisada, mas deve voltar em breve. O breve acaba se tornando nunca. Depois, você descobre que ninguém consegue sacar. E que os cabeças por trás da coisa toda foram presos.

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Você caiu num “esquema Ponzi”, a forma mais sofisticada de pirâmide financeira: uma tramoia na qual os rendimentos não vêm de negócios concretos, mas do dinheiro investido por quem entra. No exemplo acima, seus R$ 1 mil foram parar no saldo de outra pessoa. Mas o seu saldo cresceu porque cada vez mais gente foi entrando depois de você e colocando os R$ 1 mil delas. Porque elas fizeram isso? Oras: pelo mesmo motivo que você. Por que viram outras pessoas ganhando muito dinheiro no esquema.

O problema das pirâmides financeiras é matemático. Quando para de entrar gente nova, o “rendimento” que elas provêm cai a zero – e “gente nova” é um negócio finito. Ao ver que o dinheiro não rende mais, o pessoal da base, que acabou de entrar, acaba sacando o que investiu, já que ninguém pode impedi-las de fazer isso. Já quem está mais no alto tende a não sacar porque espera que aquele retorno mágico de 50% em 45 dias volte no futuro. E aí, quando você finalmente decide sacar, descobre que não tem mais fundos – o dinheiro lá do pessoal da base, que iria para você, já não existe mais.

Bom, como as grandes pirâmides do Egito – Quéops, Quéfren e Miquerinos –, as pirâmides financeiras também são três. Três tipos: há as pirâmides clássicas, os esquemas Ponzi e o “marketing multinível”. Sigamos no esquema Ponzi pela próximas páginas.
O nome vem do golpista ítalo-americano Charles Ponzi (1882-1949), que, há um século, prometia um investimento de 100% de lucro em três meses (igual o do nosso exemplo lá no início).

Ponzi dizia fazer uma manobra com “cupons-resposta” internacionais. Eram cartas enviadas com o valor da resposta já embutido. No país de recebimento, esses cupons podiam ser trocados pelos selos locais, no valor local da postagem. Por conta da depressão econômica causada pela Primeira Guerra, o valor dessa postagem na Itália era ¼ do dos EUA. Isto é, um cupom-postal comprado na Itália multiplicava em 400% seu valor ao ser trocado por selos do outro lado do Atlântico. Aí era só vender os selos. Lembre-se: na época, selos eram tão importantes quanto crédito de celular é hoje. A demanda era tanta que era simples convertê-los em dinheiro, e valeria a pena “importar” os cupons da Itália (ou de qualquer outro país onde eles fossem mais baratos que nos EUA) só por conta disso.

Na linguagem financeira de hoje, era um esquema de “arbitragem” – quando você compra um produto específico que tem conotações diferentes em mercados distintos, e lucra com a diferença, comprando num lugar e revendendo no outro.

No começo, Ponzi entregava os lucros que prometia. Quem investiu com ele em março de 1920 e sacou, por exemplo, em junho, embolsou 100% de lucro. No boca a boca, e com uma rede de representantes, o negócio foi crescendo. Investidores vieram como formigas no açúcar. Em seu primeiro mês, entre fevereiro e março de 1929, Ponzi arrecadou US$ 25 mil (US$ 323 mil atuais). Em junho, esse valor havia sido multiplicado por 100, chegando a US$ 2,5 milhões (US$ 32 mi hoje). No começo de julho, a cada semana entrava US$ 1 milhão (US$ 13 mi hoje). No final de julho, eram esses US$ 13 milhões de hoje por dia.

Ia tudo muito bem, até alguém fazer outra conta: quantos “cartões-resposta” havia no mundo? Foi a pergunta que se fez o jornalista Charles Barron, do Boston Post, no final de julho para investigar o milagre. A primeira coisa esquisita que Barron notou foi que Ponzi não investia na própria empresa. Depois fez as contas: para o esquema funcionar, precisaria haver 160 milhões de cupons-resposta em circulação. Questionada, a agência de correios dos EUA gentilmente respondeu: havia 27 mil.

 (Samuel Rodrigues / Espaço Ilusório/Você S/A)

Para seus primeiros 18 investidores, que depositaram US$ 1.800 em janeiro de 1920, Ponzi precisaria de 53 mil cupons para entregar o lucro prometido. Ou seja: se algum dia Ponzi realmente operou com cartões-resposta, não deu nem para o começo. O que fez os saldos dos primeiros sócios crescer absurdamente foi, sim, o dinheiro de gente nova entrando no esquema.

Como os lucros eram reais (ainda que fruto de picaretagem), começaram a entrar avalanches de novos investidores. Então sobrava dinheiro para que Ponzi pagasse os tais 100% de lucro por trimestre – e para que ele próprio fizesse saques vultuosos e ostentasse uma vida de altíssimo padrão (US$ 13 milhões por dia resolve bem, né?).

A reportagem do Boston Post acabou com a festa. O esquema deixou de receber novos investidores. E os que estavam antes correram para sacar o que tinham colocado. A grande maioria acabou sem nada, pois saques anteriores já tinham deixado a “companhia” com pouco caixa, e agora, sem gente nova entrando, não chegava mais dinheiro.

Em agosto de 1920, o esquema ruiu, deixando um rombo de US$ 1 bilhão em dinheiro nunca devolvido. O fraudador passaria seus próximos 14 anos indo e voltando da cadeia (pois o esquema lhe rendeu dinheiro para contratar bons advogados), até que foi deportado para a Itália, em 1934. Tentou outros golpes por lá, sem sucesso, arranjou um modesto emprego numa companhia aérea e… se mudou para o Rio de Janeiro. Pobre e doente, Charles Ponzi morreu num hospital da UFRJ, perto do centro da capital carioca, em 1949. Tinha 66 anos.

Ponzi não foi o último, lógico. Entre 1991 e 2008, Bernie Madoff, que chegou a ser diretor da Nasdaq e era conhecido na alta roda de Nova York como um grande filantropo, fez a mesma coisa. Sua firma de investimentos, a Madoff Securities, garantia lucros até discretos, mas ainda assim polpudos, de 10% a 17% ao ano. Como Nova York sempre esteve cheia de firmas de investimentos, ninguém desconfiava. Mas Madoff rodava um esquema Ponzi. Era o dinheiro de novos investidores que remunerava os antigos. Quando o esquema foi descoberto e começou a corrida pelos saques, quase todo mundo ficou sem nada. O rombo foi de US$ 50 bilhões. E, entre os que saíram de mãos abanando, estavam Steven Spielberg, o apresentador Larry King e os atores John Malkovich e Kevin Bacon.

O Brasil, que está a um grau de separação do próprio Charles Ponzi, também viu vários esquemas assim. O mais famoso é o das Fazendas Reunidas Boi Gordo, que prometia, nos anos 1990, um lucro a seu investidores baseado em criação de gado. Chamaram até Antônio Fagundes (protagonista da novela O Rei do Gado, de 1996) para fazer comerciais do fundo na TV. Em 1998 veio a quebra, causando um prejuízo de R$ 6 bilhões atuais a seus 32 mil investidores.

Hoje, a Justiça brasileira tem em mãos outro caso. Em agosto de 2019, a empresa de arbitragem financeira Atlas Quantum bloqueou as contas de seus investidores. O negócio prometia lucros a partir de operações automáticas com Bitcoin, no que se chama de high-frequency trading (negociações em alta frequência). Um software (ou robô, como chamam nesses casos) da Atlas comprava Bitcoins por um valor menor numa corretora de algum canto do mundo e revendia para outra por um valor maior, em questões de milissegundos. Arbitragem. Ela prometia lucros de 60% ao ano – e entregava.

Mas aí veio um problema. A CVM, que fiscaliza o mercado financeiro, concluiu que a empresa não podia funcionar sem sua autorização. Então exigiu que a Quantum parasse de operar, sob a ameaça de uma multa de R$ 100 mil por dia. Os clientes, assustados, tentaram sacar em massa. Os primeiros receberam, mas logo a grana secou – e os clientes que não receberam seguem com ações na Justiça até hoje. Era pirâmide? O fato é que o caso chegou à Polícia Federal em julho, e ainda deve passar muita água por baixo dessa ponte.

Mandala da prosperidade

Se esquemas Ponzi são uma indústria da picaretagem, as pirâmides clássicas, que mencionamos lá no início, são o artesanato. Uma pirâmide clássica não é exatamente uma promessa de investimento. É uma espécie de jogo. Nem rende tanto assim para quem organiza: a pessoa que começa, pelo próprio mecanismo, deixa o esquema antes que ele fique grande demais. Mas, como no Ponzi, todo o rendimento depende de mais gente entrando. E, invariavelmente, a maioria acaba sem nada.

Pirâmides clássicas também podem envolver jogos sociais mais complexos que um esquema Ponzi, baseado só no lucro frio e racional. Elas podem se basear nos melhores sentimentos. Por exemplo: a solidariedade entre mulheres. A sororidade.

Foi assim com uma versão moderna desse clássico: a Mandala da Prosperidade, que, dependendo do local onde ela era aplicada, também podia atender por nomes como Tear dos Sonhos, Mandala Feminina ou Flor da Abundância. Em 30 de junho, duas mulheres foram presas em São Paulo por encabeçar um esquema assim, mas há registros no resto do país.

A Mandala da Prosperidade seduzia se apropriando de temas sérios: autoconfiança, crescimento espiritual. Falava de mulher para mulher propondo independência financeira para quem se envolvesse no “jogo”.

Funciona assim: uma pessoa é convidada para o grupo. Para tanto, porém, precisa dar um “investimento inicial”. No caso da Mandala, isso é chamado de “presente para a Mulher Água”. Dali em diante, seu trabalho é convencer mais gente a fazer a mesma coisa.

Quantas pessoas? Dependendo do esquema, podem ser duas, três, quatro, oito novos integrantes – quanto maior o número, maior a recompensa, claro. A Mandala exigia apenas duas. A ideia é que, atingido esse número, você seja promovido a um nível superior, com as pessoas que você convidou ocupando seu nível anterior.

 (Samuel Rodrigues / Espaço Ilusório/Você S/A)

No último nível, está o cabeça da pirâmide, que é quem está para receber o prêmio. Isso acontece quando o nível inferior da pirâmide é totalmente preenchido. Aí o cabeça sai com o dinheiro e não faz mais parte da brincadeira – e vai embora com o dinheiro dos incautos que entraram na roda.

Então a pirâmide se divide, com as pessoas do nível anterior encabeçando novas pirâmides. Assim, numa pirâmide de quatro níveis, a pessoa no topo tem duas abaixo, e cada uma dessas duas tem mais duas, e o nível mais baixo tem oito pessoas. Nesse caso, quem está acima ganha oito vezes o investimento. Portanto, se você investiu R$ 5 mil, sai com R$ 40 mil: esses são valores da vida real, apurados pela Justiça de São Paulo no caso da Mandala da Prosperidade.

A Mandala se apresenta como um octógono colorido. Ao entrar, a participante dá o “presente para a mulher água” (dinheiro) e passa a ser chamada de “mulher fogo” e precisa recrutar duas novas para subir de nível, quando se torna “mulher ar”. Depois vira “mulher terra”, até atingir a posição central, a de “mulher água”, a cabeça da pirâmide. Então formam-se duas novas mandalas. Tudo isso vem com reuniões, rezas, conversas “terapêuticas”. A ideia ali é que ir para um nível acima na pirâmide também significava crescer espiritualmente.

O octógono é só uma configuração geométrica diferente do triângulo com o qual se costuma representar pirâmides. Elas ainda estão lá, em outras direções. Isso foi usado pelas participantes para se desviar da acusação de ser um esquema de pirâmide – um argumento sem sentido.

O fato é que qualquer pirâmide financeira é sempre inviável. Seu crescimento tem limite. Se, para a primeira pessoa sair, são necessários 14 indivíduos, para formar as duas segundas pirâmides seriam 28. Depois, para as quatro seguintes, 56. Aí as próximas oito pirâmides precisam de 112. Depois de apenas 20 desdobramentos, teremos 3 milhões de novas pirâmides, que precisariam de 42 milhões de adeptos para serem preenchidas. Após 30 desdobramentos (só isso), 28 bilhões. Pois é.

Pirâmide cheirosa

E agora chegamos à terceira forma de pirâmide. Nesse caso, uma perfeitamente legal, se feita em sua definição estrita: são as empresas de marketing multinível. No lugar de um investimento, o que eles oferecem é, em tese, uma carreira.

Você entra como vendedor “júnior” e precisa atrair mais vendedores – então parte das comissões deles cai na sua conta. É como operam empresas legítimas e famosas, como a Tupperware. Elas dão vários tipos de benefícios a revendedores que recrutam novos revendedores. Mas não geram muita controvérsia porque seus produtos são populares, e a maioria dos representantes se mostra satisfeita. O marketing multinível, então, é considerado apenas uma forma heterodoxa de negócio, não um golpe.

Mas há uma fronteira nebulosa aí. É quando o produto à venda começa a parecer o que menos importa. A mais controversa (e, de longe, maior) empresa de marketing multinível em operação atende pelo nome de Amway – uma distribuidora de produtos de limpeza e de higiene pessoal. Foi investigada em múltiplos países sob acusação de ser um esquema pirâmide, mas venceu os processos.

A Amway foi acusada não só de ser uma pirâmide, mas também uma seita – promovendo seminários motivacionais que lembram cultos religiosos, pregando uma espécie de evangelho da prosperidade a seus representantes. E é literalmente uma empresa religiosa: seus donos fazem parte do cristianismo ultraconservador americano e buscam recrutar entre evangélicos de carteirinha. De fato, um dos poucos processos que a
empresa perdeu foi por espalhar, via seus representantes, um boato de que a concorrente Procter & Gamble tinha um círculo de satanistas
em sua diretoria. Por conta disso, a Amway teve que ressarcir a P&G em U$ 19 milhões em 2008. Em 2004, um relatório da NBC revelou que todos os representantes mais bem pagos de uma de suas subsidiárias, a Quixtar, obtinha sua renda de livros e palestras, não de produtos.

 (Samuel Rodrigues / Espaço Ilusório/Você S/A)

Já o público dos produtos é formado em grande parte por representantes da própria Amway. Como os filiados só vão usar produtos da Amway, o que a empresa forma para valer não são revendedores que conquistam a independência financeira, mas uma base de clientes fanáticos – literalmente. Segundo um relatório da Comissão Federal do Comércio (FTC), órgão governamental dos EUA, 99% das pessoas que se envolvem em marketing multinível não obtêm lucro, enquanto o 1% restante é formado por grandes revendedores propagandistas, que anunciam seus ganhos em eventos para amealhar mais revendedores-clientes.

Tudo dentro da lei, porém. “Se a renda da companhia vier majoritariamente da venda de produtos, o marketing multinível é legal. Se vier da captação de novos adeptos, pode ser tipificado como crime”, diz Lorenzo Parodi, presidente da Associação Nacional de Combate a Fraudes (ANCAF). Resumindo: se a empresa pede dinheiro para novos adeptos, é pirâmide.

O que nos leva ao caso final, que foi tudo ao mesmo tempo: a Telexfree. Ali, você entrava num esquema de marketing multinível, mas exigiam um malandro “investimento inicial” de US$ 50. O produto era um sistema de telefonia por internet (VoiP). Ao revender o pacote, o representante devia também tentar recrutar o cliente. Quanto mais recrutados, mais comissões. Em 2014, após dois anos em atuação, a empresa se decretou insolvente. Em 2016, seus executivos admitiriam a fraude. Prejuízo: R$ 2,5 bilhões.

No fim, só existe uma certeza: depois do holocausto nuclear, vão sobrar as baratas e os esquemas de pirâmide. Eles sempre voltam. Mantenha-se alerta.


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