Quase metade dos empreendedores negros já tiveram acesso a crédito negado, indica estudo
Ainda, 51% dos afroempreendedores da América Latina sofreram algum tipo de discriminação racial de clientes ou durante processos burocráticos.

O acesso a crédito é um dos principais desafios enfrentados por empreendedores pretos e pardos na América Latina. A taxa de recusa é de 44% para o primeiro grupo, e 35% para o segundo grupo. Para comparativo, com empreendedores brancos, essa taxa é de 29%.
É isso que mostra uma pesquisa realizada pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), Feira Preta e Plano CDE, que busca explorar o perfil dos negócios liderados por pessoas negras. Os 2.855 entrevistados são do Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Peru, e o estudo foi realizado em outubro de 2024. Mulheres são maioria absoluta: representando 80% dos empreendedores entrevistados.
Segundo o levantamento, existem três razões centrais para que esse gargalo no crédito aconteça: a quantidade de burocracia; o custo (vide juros cobrados) e o racismo que 54% dos entrevistados já viveram ao menos uma vez nessas circunstâncias.
A discriminação racial, infelizmente, não se delimita às paredes das instituições bancárias. 59% dos entrevistados afirmou ter sofrido racismo também da clientela.
Esses são os números da América Latina como um todo, vale reiterar. No Brasil, o racismo nos processos burocráticos é 35%; por parte dos clientes, 40%. Por parte dos fornecedores, 32% – e por parte de outros empreendedores, 35%.
“Eu acho que a questão do ser preto, o gargalo que eu vejo que isso nos limita, é no sentido financeiro, no sentido financeiro de obtenção de crédito, ou ter um networking ali que nos facilite esse acesso a contatos”, reitera um dos cofundadores da Resisto OPM, uma produtora de artigos de moda, na pesquisa.
Ainda em relação ao crédito, a solução encontrada pelos afroempreendedores, segundo a pesquisa, é a busca informal com conhecidos – ou tirar do próprio bolso. No Brasil, 41% dos negócios começam com investimentos pessoais (e 7% vem da venda de bens), enquanto 9% vem de empréstimos familiares. Empréstimos de banco ficam em 17%.
Para referência: 74% dos empreendedores pediram empréstimos para o uso do negócio. Essa busca é motivada, principalmente, para que eles possam ter mais fôlego no capital de giro da empresa.
“[Algumas] ideias que não vão exatamente para frente, mas aí quando você olha para o lado, tem um homem branco dando a mesma ideia que você deu e aquilo é abraçado. Eles ganham um aporte ou projetos que eventualmente têm muita verba para serem executados”, diz uma sócia da Silva, empresa de publicidade que prega a diversidade e inclusão dentro e fora de casa: além das campanhas terem esse olhar, 80% dos funcionários da empresa são pessoas pretas ou pardas.
Mesmo quando conseguem, os empreendedores não utilizam de modalidades de crédito destinadas ao negócio. A maior parte (81%) aqui no Brasil utiliza de empréstimos para uso pessoal ou aumentam o limite do cartão de crédito próprio. Justamente por essa razão, inclusive, que 64% deles usa a mesma conta para o negócio e a vida pessoal (da amostra total).
Uma curiosidade descoberta pela pesquisa: os brasileiros preferem aumentar o limite do cartão de crédito. Argentinos optam por empréstimos com agentes não bancários. Empreendedores da Colômbia, Peru e Panamá recorrem mais a empréstimos com amigos e familiares ou microcrédito produtivo.
Outro lado da moeda
Ainda que haja uma insegurança na hora de lidar com os processos burocráticos de crédito, isso felizmente não se traduz ao DNA dos negócios pretos e pardos na América Latina. Os empreendedores negros mostram altos índices de confiança em seus negócios e produtos. No Brasil, isso é fato para 63% dos entrevistados. A maioria também confia em sua habilidade de vender os produtos e serviços que oferecem (53%).
Ainda, o estudo indica que cerca de 50% deles trazem elementos de sua ancestralidade e
cultura para o negócio. E 89% considera que seu negócio é um empreendimento antirracista – por serem liderados e por venderem para pessoas negras.
Fato esse materializado pelo relato da fundadora da livraria argentina Malungo, voltada para produções com temática afrocentrada: “Quando fui [pela primeira na feira] e dispus sobre a mesa todo o material afrocentrado, as pessoas não conseguiam acreditar: tiravam fotos da mesa e comigo. Os professores se emocionaram muito, e diziam “como é que pode existir algo assim?”, e eu respondia ‘Isso sempre existiu’. Mas eu não sabia que era a primeira pessoa em 200 anos de história da Argentina que estava fazendo isso.”