Quase metade dos empreendedores negros já tiveram acesso a crédito negado, indica estudo

Ainda, 51% dos afroempreendedores da América Latina sofreram algum tipo de discriminação racial de clientes ou durante processos burocráticos.

Por Sofia Kercher
11 dez 2024, 12h00
computador
 (Photo by Christina @ wocintechchat.com/Unsplash)
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O acesso a crédito é um dos principais desafios enfrentados por empreendedores pretos e pardos na América Latina. A taxa de recusa é de 44% para o primeiro grupo, e 35% para o segundo grupo. Para comparativo, com empreendedores brancos, essa taxa é de 29%. 

É isso que mostra uma pesquisa realizada pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), Feira Preta e Plano CDE, que busca explorar o perfil dos negócios liderados por pessoas negras. Os 2.855 entrevistados são do Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Peru, e o estudo foi realizado em outubro de 2024. Mulheres são maioria absoluta: representando 80% dos empreendedores entrevistados.

Segundo o levantamento, existem três razões centrais para que esse gargalo no crédito aconteça: a quantidade de burocracia; o custo (vide juros cobrados) e o racismo que 54% dos entrevistados já viveram ao menos uma vez nessas circunstâncias.

A discriminação racial, infelizmente, não se delimita às paredes das instituições bancárias. 59% dos entrevistados afirmou ter sofrido racismo também da clientela. 

Esses são os números da América Latina como um todo, vale reiterar. No Brasil, o racismo nos processos burocráticos é 35%; por parte dos clientes, 40%. Por parte dos fornecedores, 32% – e por parte de outros empreendedores, 35%.

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“Eu acho que a questão do ser preto, o gargalo que eu vejo que isso nos limita, é no sentido financeiro, no sentido financeiro de obtenção de crédito, ou ter um networking ali que nos facilite esse acesso a contatos”, reitera um dos cofundadores da Resisto OPM, uma produtora de artigos de moda, na pesquisa.

Ainda em relação ao crédito, a solução encontrada pelos afroempreendedores, segundo a pesquisa, é a busca informal com conhecidos – ou tirar do próprio bolso. No Brasil, 41% dos negócios começam com investimentos pessoais (e 7% vem da venda de bens), enquanto 9% vem de empréstimos familiares. Empréstimos de banco ficam em 17%.

Para referência: 74% dos empreendedores pediram empréstimos para o uso do negócio. Essa busca é motivada, principalmente, para que eles possam ter mais fôlego no capital de giro da empresa. 

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“[Algumas] ideias que não vão exatamente para frente, mas aí quando você olha para o lado, tem um homem branco dando a mesma ideia que você deu e aquilo é abraçado. Eles ganham um aporte ou projetos que eventualmente têm muita verba para serem executados”, diz uma sócia da Silva, empresa de publicidade que prega a diversidade e inclusão dentro e fora de casa: além das campanhas terem esse olhar, 80% dos funcionários da empresa são pessoas pretas ou pardas.

Mesmo quando conseguem, os empreendedores não utilizam de modalidades de crédito destinadas ao negócio. A maior parte (81%) aqui no Brasil utiliza de empréstimos para uso pessoal ou aumentam o limite do cartão de crédito próprio. Justamente por essa razão, inclusive, que 64% deles usa a mesma conta para o negócio e a vida pessoal (da amostra total). 

Uma curiosidade descoberta pela pesquisa: os brasileiros preferem aumentar o limite do cartão de crédito. Argentinos optam por empréstimos com agentes não bancários. Empreendedores da Colômbia, Peru e Panamá recorrem mais a empréstimos com amigos e familiares ou microcrédito produtivo.

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Outro lado da moeda

Ainda que haja uma insegurança na hora de lidar com os processos burocráticos de crédito, isso felizmente não se traduz ao DNA dos negócios pretos e pardos na América Latina. Os empreendedores negros mostram altos índices de confiança em seus negócios e produtos. No Brasil, isso é fato para 63% dos entrevistados. A maioria também confia em sua habilidade de vender os produtos e serviços que oferecem (53%).

Ainda, o estudo indica que cerca de 50% deles trazem elementos de sua ancestralidade e

cultura para o negócio. E 89% considera que seu negócio é um empreendimento antirracista – por serem liderados e por venderem para pessoas negras.

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Fato esse materializado pelo relato da fundadora da livraria argentina Malungo, voltada para produções com temática afrocentrada: “Quando fui [pela primeira na feira] e dispus sobre a mesa todo o material afrocentrado, as pessoas não conseguiam acreditar: tiravam fotos da mesa e comigo. Os professores se emocionaram muito, e diziam “como é que pode existir algo assim?”, e eu respondia ‘Isso sempre existiu’. Mas eu não sabia que era a primeira pessoa em 200 anos de história da Argentina que estava fazendo isso.”

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