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Brasil, o Pelé da inflação

Entre 1953 e 1995, o Brasil experimentou uma inflação acumulada de 19 quatrilhões por cento. O real e o sistema de metas viraram essa página. Mas estamos num momento delicado, com altas no IPCA não vistas desde o século 20. Hora de lembrar que todo cuidado é pouco.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 17 Maio 2022, 21h45 - Publicado em 13 Maio 2022, 06h20

“O Brasil talvez tenha vivido o período mais longo de inflação contínua registrado em qualquer país”, escreveu o economista americano Donald Paarlberg. De fato. Tivemos taxas de pelo menos dois dígitos em todos os anos entre 1953 e 1995. Como o raio multiplicador dos juros compostos também se aplica a taxas de inflação, o acumulado nesses 42 anos foi de 19.509.846.374.237.060% – 19 milhões de bilhões por cento.

Para comparar: no mesmo período, a inflação americana ficou em 976%, e foram só três anos com inflação igual ou superior a 10% (1974, 1979, 1980). Já por aqui tivemos seis anos com taxas de quatro dígitos, acima de 1.000%. O recorde, só para constar, veio em 1993: 2.477%.

De onde vem a diferença? Bom, inflação não cai do céu. Ela existe porque governos imprimem dinheiro novo o tempo todo. Eles fazem isso para fomentar a economia. Se você produz feijão e começa a circular mais dinheiro, você passa a produzir mais feijão, para ganhar mais dinheiro. E o PIB do país cresce. Bom para o governo, bom para os governados.

Mas aumentos de produção têm certos limites. Chega uma hora em que a sua capacidade de plantar feijão bate no teto. Começa a faltar fertilizante, maquinário, gente, terra. Quando isso acontece (não só com o feijão, claro, mas com todos os produtos e serviços de uma economia), passa a haver mais dinheiro em circulação do que coisas para comprar com esse dinheiro. A moeda perde valor. Você vai precisar de mais moeda para comprar a mesma quantidade de feijão.

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Mesmo assim, a equação costuma valer a pena. Se o PIB cresce 5% e a inflação fica em 2%, significa que a população enriqueceu. O produtor de feijão vai gastar 2% a mais para comprar coisas, mas o dinheiro extra que ele ganhou produzindo mais compensa essa perda com vantagem. Vale o mesmo para os seus empregados: numa realidade ideal, o aumento na sua produção significa um salário maior para eles, com ganho real, acima da inflação.

Mas o mecanismo de criação de dinheiro novo para fomentar a economia só funciona quando é bem gerido. No Brasil, historicamente, não foi. Isso mudou com o Plano Real, que acabou com certas torneiras de dinheiro novo (caso da emissão de moeda para dar de graça a bancos estaduais incompetentes – e corruptos). E amadurecemos de vez em 1999, com a introdução da ferramenta que o mundo desenvolvido usa para manter as coisas nos eixos, o sistema de metas de inflação.

Ele existe porque é bom haver alguma inflação. Quando o preço de um ou outro item sobe um pouco, beleza: significa aumento de demanda; oportunidades para novos negócios. Logo, é bom que o Banco Central bombeie dinheiro na economia quando a inflação ameaça baixar demais. Esse “demais” varia de tempos em tempos. Neste momento, o BC considera 2,5% como o limite mínimo; e 6,5% como a fronteira máxima, a partir da qual é preciso drenar dinheiro da praça (subindo os juros) para conter a inflação.

O problema: o IPCA para os últimos 12 meses encerrados em março fechou em 11,3%. E o mês trouxe um recorde perigoso: maior índice para março nos 28 anos de história do real (1,62%). Sem falar que estamos em meio a uma inflação global. Nos EUA, o índice é de 8,5%, contra uma meta de 2%. Mesmo assim, o BC americano mostra pouca firmeza na drenagem de dinheiro, com medo de sufocar a economia.

O nosso Banco Central agiu mais rápido. Começou a aumentar os juros um ano antes de os EUA fazerem o mesmo. Mas ainda falta chão para voltarmos para o território da meta. Que o BC siga disciplinado, e não caia na tentação de brecar o ciclo de alta nos juros cedo demais. Porque sabemos bem as consequências de uma política econômica mal gerida – talvez melhor do que qualquer outro país.

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