Avatar do usuário logado
Usuário
Abril Day: Assine VEJA por apenas 9,90
Imagem Blog

Clara Cecchini

Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Palestrante e consultora, especialista em aprendizagem organizacional e desenvolvimento de habilidades humanas.

A metacognição pode mudar a forma como você pensa, aprende e decide

Manter um ritual para analisar os próprios pensamentos, como a esquiadora Eileen Gu, é um hábito útil pra sua carreira – principalmente em tempos de IA.

Por Clara Cecchini, colunista da Você S/A
20 mar 2026, 17h00 • Atualizado em 20 mar 2026, 18h36
-
 (Luiz Mello/VOCÊ S/A)
Continua após publicidade
  • Uma declaração recente da esquiadora Eileen Gu – a atleta mais condecorada da história dos Jogos Olímpicos de Inverno, aos 22 anos – ganhou repercussão na mídia e nas redes sociais. Ela contou que mantém um processo de “treino mental”, passando por longos períodos de introspecção, escrevendo em um diário e revisitando pensamentos com atenção meticulosa. Segundo a atleta, o exercício consiste em observar como pensa, aplicar uma lente analítica sobre essas ideias e, quando necessário, ajustá-las.

    A descrição pode soar sofisticada mas é um hábito mais comum e necessário do que parece. Trata-se da metacognição, a capacidade de observar o próprio pensamento enquanto ele acontece. O termo pode intimidar à primeira vista, mas é simples: designa a prática de perceber como pensamos, avaliar esse processo e, se preciso, redirecioná-lo. Não é um talento reservado a atletas de elite, mas uma habilidade humana básica, que muitas vezes fica subutilizada no cotidiano profissional.

    Quando você lê um texto e percebe que não entendeu o que acabou de ler, por exemplo, esta já é uma observação metacognitiva. Há um instante de consciência: algo no raciocínio não funcionou como deveria. Essa percepção aparentemente banal é o primeiro passo de um mecanismo mais amplo que sustenta o aprendizado ao longo da vida. A metacognição cria uma camada de observação sobre o próprio raciocínio, permitindo que a pessoa deixe de ser apenas executora de tarefas mentais para se tornar gestora delas.

    Esse processo envolve dimensões complementares. A primeira é justamente a consciência de que estamos pensando e de como esse pensamento se organiza. A segunda envolve o repertório de estratégias metacognitivas disponíveis. Por exemplo, algumas pessoas compreendem melhor quando escrevem à mão. Outras precisam discutir ideias em voz alta ou dividir um problema em etapas menores. Reconhecer quais caminhos funcionam melhor para si mesmo é parte central da construção de “autonomia intelectual”.

    A terceira dimensão é a regulação metacognitiva. Ela acontece quando você percebe que seu raciocínio poderia ser melhor estruturado e decide interferir nele. Em vez de seguir automaticamente uma linha de pensamento, você pausa, reorganiza, testa outra abordagem. É nesse ponto que o pensamento deixa de ser apenas um fluxo espontâneo e passa a ser também um processo deliberado.

    Continua após a publicidade

    Inteligência artificial

    No ambiente de trabalho, essa habilidade ganha uma importância particular em um momento em que ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais presentes nas rotinas profissionais. A tecnologia amplia a velocidade, o acesso à informação e a capacidade de processamento. Mas também abre brecha para delegarmos não apenas tarefas, mas o próprio raciocínio.

    A metacognição funciona como um antídoto para esse risco. Quando alguém entende como estrutura um problema, quais etapas precisa percorrer e quais critérios usa para avaliar qualidade, a IA deixa de ser um atalho automático e passa a ser um instrumento integrado ao pensamento humano. Em vez de substituir o raciocínio, a tecnologia passa a operar dentro dele.

    Um exercício simples ilustra essa lógica. Antes de abrir a caixa de perguntas de uma ferramenta de IA, vale dedicar alguns minutos a um mapa mental preliminar. Como eu começaria essa tarefa sozinho? Quais etapas ela exige? Que tipo de resultado indicaria que estou no caminho certo? Ao estruturar essas perguntas antes de interagir com o sistema, você mantém o controle do processo intelectual. A IA entra como colaboradora em vez de condutora.

    Continua após a publicidade

    Esse pequeno deslocamento muda profundamente a relação com a tecnologia. Quando alguém começa a tarefa diretamente dentro da lógica da ferramenta, corre o risco de seguir o raciocínio sugerido por ela sem perceber. Já quando a interação parte de um plano do próprio usuário, a inteligência artificial ajuda a amplificar um pensamento que já existe.

    Nesse sentido, a metacognição sustenta as “brain skills”, habilidades cognitivas associadas à análise, ao julgamento e à tomada de decisão em ambientes complexos. Diferentemente de competências técnicas específicas, essas capacidades não ficam obsoletas à medida que novas ferramentas surgem. Elas acompanham o profissional ao longo das mudanças tecnológicas porque dizem respeito ao modo como ele pensa.

    Isso é ainda mais relevante em um mercado no qual as ferramentas digitais evoluem com rapidez. Softwares, plataformas e modelos de linguagem continuarão mudando. O pensamento humano, por outro lado, permanece como centro das decisões. Vêm dele o senso crítico, a responsabilidade ética e a autoria intelectual – coisas que nenhuma automação substitui.

    Continua após a publicidade

    Faça do seu jeito

    Cultivar a metacognição, portanto, não é um exercício abstrato de introspecção. É uma prática concreta de autonomia intelectual. Quem desenvolve essa habilidade aprende a observar as próprias estratégias cognitivas, ajustá-las quando necessário e escolher conscientemente quando e como usar tecnologia para ampliá-las.

    A rotina de Eileen Gu, que envolve escrever, refletir e revisitar ideias, é apenas uma das possíveis portas de entrada para esse processo. Outras pessoas podem desenvolver o mesmo hábito ao revisar decisões importantes, ao refletir como resolveram um problema complexo ou ao avaliar por que determinada abordagem funcionou melhor do que outra.

    No fim das contas, a metacognição funciona como um lembrete essencial em tempos de inteligência artificial: as ferramentas podem transformar a forma como trabalhamos, mas o pensamento continua sendo um território humano. Quanto mais conscientes formos sobre como ele acontece, maior será nossa capacidade de dirigir as mudanças que vêm pela frente.

    A tirania da positividade

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    10 grandes marcas em uma única assinatura digital

    BLACK
    FRIDAY

    ECONOMIZE ATÉ 65% OFF

    Digital Completo
    Digital Completo

    Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

    a partir de 6,00/mês*

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.