Setembro Amarelo: os sinais da depressão no trabalho

Nesta primeira matéria de uma série sobre depressão, especialistas pedem atenção aos sinais da doença – e que as empresas atuem na prevenção.

Um estudo feito pela agência internacional especializada em saúde apontou que a depressão e a ansiedade são responsáveis pela perda global de 1 trilhão de dólares em produtividade a cada ano.

“Um funcionário com um transtorno mental deixa de produzir porque falta ao trabalho, o que é conhecido como absenteísmo; ou está na empresa fisicamente, mas não consegue se concentrar, não rende – é o chamado presenteísmo”, explica o psiquiatra José Gallucci Neto, diretor da unidade de vídeo EGG do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP. 

Segundo Galucci, o presenteísmo é o principal problema ligado à depressão, que corresponde a 70% do prejuízo das empresas. Isso acontece porque, além do sintoma mais conhecido, a tristeza, a doença se manifesta sob outras formas clínicas (veja mais detalhes no fim da reportagem), que interferem diretamente na capacidade produtiva do profissional.

“O raciocínio fica mais lento, a pessoa tem dificuldade para se concentrar, para entender uma instrução, e a memória fica prejudicada. Essas alterações cognitivas acontecem em qualquer depressão, da leve a mais grave”, afirma Gallucci. 

Trata-se de uma doença multifatorial, com um componente genético, que pode ser desencadeada por uma série de fatores, inclusive um ambiente de trabalho muito estressante. “As empresas têm grande responsabilidade social sobre isso”, afirma o psiquiatra Luiz Scocca, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Associação Americana de Psiquiatria.

“Segundo a Top Employer Organization, instituição que certifica as melhores empresas para trabalhar, o Brasil tem um número 15% maior de cumprimento de hora extra, em relação à média global”, afirma Scocca. “A implantação de programas antiestresse é de 61%, e a média mundial é de 82%.”

O empecilho do preconceito

Para lidar melhor com esse problema, as companhias precisam adotar basicamente três estratégias, recomenda Gallucci. A primeira, e mais importante, é eliminar o estigma de que depressão é falta de vontade, preguiça. Afinal, o profissional não consegue trabalhar direito porque está doente.

“Enquanto a maioria das empresas tem programas para sobrepeso, diabetes, hipertensão e outras condições clínicas, não se vê ainda, de forma consistente, nenhum programa robusto para prevenção de doenças mentais”, afirma.

O segundo passo é fazer a prevenção do adoecimento do trabalhador. Para isso, os gestores e o RH precisam receber um treinamento com o objetivo de conseguir identificar os primeiros sinais e sintomas dos adoecimentos. Outro aspecto da prevenção é mapear o nível de stress das áreas da empresa. “Esse controle cria um ambiente melhor para trabalhar, e a chance de adoecimento dos funcionários diminui”, diz Gallucci. “O último pilar é tratar quem já está doente.”

Ele conta que, em países como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, existem empresas especializadas em avaliar a saúde mental no trabalho, que são contratadas pelas organizações e trabalham de forma sigilosa. Os funcionários recebem as pesquisas sobre os sintomas depressivos por e-mail, e esses dados não são compartilhados com os gestores da empresa contratante. “Existe uma crença no Brasil de que é mais econômico demitir o funcionário doente do que tratá-lo. Mas estudos internacionais mostram que, para cada dólar que as empresas investem na saúde mental dos funcionários, o retorno é de, pelo menos, 2 dólares”, conclui Gallucci. 

Autoexame

Os sintomas que podem indicar a necessidade de procurar ajuda médica

Cognitivos: déficit de memória, déficit de atenção, dificuldade de compreender instruções ou situações pela sensação de estar perdido.

Físicos: dores generalizadas pelo corpo, mudanças no padrão de sono e no apetite. 

No limite

Veja as ocupações com maior incidência* de depressão

  • Assistentes sociais
  • Bancários
  • Enfermeiros
  • Funcionários públicos
  • Garçons (particularmente, os que trabalham em redes de fast food e em restaurantes com grande movimento)
  • Médicos
  • Pilotos de avião
  • Professores da rede pública de ensino

* A lista está em ordem alfabética; não se trata de um ranking

Fontes: José Gallucci Neto, diretor da unidade de vídeo EGG do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, e Luiz Scocca, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Associação Americana de Psiquiatria


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