Como usar a crise para refletir sobre sua carreira

Períodos de crise podem exacerbar nossas insatisfações com os rumos profissionais. Aprenda a estruturar uma reflexão sobre seu momento de vida

Matéria originalmente publicada na Revista VOCÊ S/A, edição 265, em 19 de junho de 2020. 

Nos últimos meses, a rotina de milhares de pessoas mudou drasticamente. A pandemia causada pelo novo coronavírus colocou estados e municípios inteiros em quarentena, levando a demissões em massa, suspensão de contratos de trabalho, redução de salários e de cargas horárias, causando pausas forçadas na carreira de muitos profissionais. Os tempos são difíceis, mas essa pausa involuntária das atividades pode ser usada para algo positivo: repensar as escolhas de carreira. “Nem tudo é negativo em meio ao caos. Surgem oportunidades para rever hábitos, valores, mudar de rotina, e quem sabe escolher um novo caminho”, diz Ana Carolina Souza, neurocientista e sócia da Nêmesis, consultoria de neurociência organizacional.

Tais reflexões, entretanto, precisam ser feitas com cuidado. Superar o desânimo e tomar as rédeas da situação não é algo simples. “Mesmo quem manteve o emprego está passando por momentos de insegurança. Essa falta de controle deixa evidente uma resposta de estresse natural, e não deve existir a obrigação de achar que está tudo lindo”, explica Ana Carolina. A solução é ir com calma e começar se permitindo viver um pouco o estado de inércia — aquele período em que não conseguimos vislumbrar nada por estarmos muito imersos numa situação complicada. Quando a poei­ra baixar um pouco, será hora de começar a refletir sobre o que já foi conquistado e o que se quer alcançar.

 (Arte/VOCÊ S/A)

Tente desacelerar

Não é incomum que, na rotina habitual, as pessoas passem o tempo todo resolvendo questões práticas, trabalhando ou pensando no emprego. Nesse dia a dia cheio de tarefas, não sobra tempo — nem cérebro – para refletir. Por isso, uma das atitudes mais importantes é criar momentos de conexão consigo próprio. Só assim é possível começar a raciocinar sobre o que está bom e o que está ruim na carreira. “O ócio favorece o desenvolvimento do autoconhecimento e também da criatividade, duas habilidades valorizadas no mercado de trabalho e cruciais para a determinação do que se deseja para o futuro”, diz Ana Carolina.

Fazer essa pausa é fundamental, porque processos mentais importantes (como o da criatividade) precisam de inatividade para renovar os reservatórios de energia física e psíquica. Marcia Vazquez, consultora de carreira, coach e psicóloga, explica que, no momento em que há silêncio e inatividade, alguns questionamentos devem nortear as reflexões sobre uma mudança. “O que eu gosto de fazer? O que faço melhor? Quais são as prioridades da minha vida? Essas são perguntas que levam a entender as possibilidades de emprego dentro da personalidade de cada um”, explica a especialista.


Em busca de si mesma

Formada em hotelaria, Isabela Aoki, de 36 anos, só teve empregos temporários em sua trajetória profissional. “Trabalhei em cruzeiros como recepcionista, camareira, gerente, com contratos que sempre duravam somente o período da viagem.” Além disso, ela foi comissária de bordo e agenciadora. Em 2019, quando havia se demitido de seu emprego como consultora de operações em uma agência de viagens, Isabela se deu conta de que estava infeliz com essa inconstância, mas não sabia o que fazer. A situação começou a ficar mais clara quando ela conseguiu desacelerar durante uma viagem de férias de um mês que fez junto com os pais. “Eu não me sentia valorizada nesses empregos, queria mudar para algo que me desse mais satisfação. Comecei a pensar em tudo o que já fiz, no que já aprendi, do que eu gostei e no que quero fazer agora”, diz.

Isabela Aoki, de 36 anos, só teve empregos temporários em sua trajetória profissional.

Isabela Aoki, de 36 anos, só teve empregos temporários em sua trajetória profissional. (Luísa Santosa/VOCÊ S/A)

Quando voltou de férias, ela contratou um programa de transição de carreira. Ali, fez testes de personalidade e avaliação de habilidades e conhecimentos. Assim, conseguiu encontrar um novo setor de atuação: customer experience. Como não tinha vivência na área, entrou em grupos virtuais e fez contato com pessoas do segmento para buscar dicas e indicações de cursos. “O ­networking me ajudou a ter certeza da área e também na busca por material para estudo. Recebi dicas de webinars, lives, livros, tudo para me dar base de conhecimento”, afirma. Agora Isabela está na fase de recolocação profissional, que deve ser retomada depois da quarentena.


Do pensamento para a ação

Um caminho para a reflexão pode ser a busca por ajuda profissional (como um coach ou uma consultoria de transição de carreira). Mas, quando não é possível investir nisso, uma maneira de pensar sobre os próprios passos é conversar com amigos, colegas ou parentes que o conheçam e tenham maturidade para opinar com objetividade e isenção. “Essa pessoa pode validar características e ideias que formamos sobre nós mesmos, além de agregar informações que sozinhos não teríamos”, diz a neurocientista Ana Carolina.

 (Arte/VOCÊ S/A)

Caso a decisão seja mudar de área, interagir com pessoas que trabalhem nesse novo setor pode trazer reflexões profundas. “Nem sempre as informações da internet são capazes de dar um panorama completo sobre a profissão. Somente as pessoas que já atuam podem falar com propriedade a respeito do cenário atual e das expectativas para quem quer ingressar”, diz Lucas Papa, gerente da Michael Page, consultoria de recrutamento.

O especialista afirma que esse movimento de pensar sobre a profissão é muito rico para os trabalhadores. “Para quem deseja ser dono da própria carreira, o tempo para essa reflexão é muito precioso. Ter na mente definido o que se quer permite a inversão de papéis, que é se colocar na posição de entrevistar a empresa no momento em que é entrevistado. Passa a ser uma decisão para ambos os lados”, diz Lucas. Mas ele faz uma ponderação: “As pessoas não podem se deixar levar pela ideia de que se reinventar completamente e mudar de carreira será a solução para tudo. O passo a passo dessa reflexão é importante e deve ser feito com profundidade”. Cuidado para não cair nessa armadilha.


Superando a insegurança

Os pensamentos sobre o rumo profissional vieram à tona quando Renata Barretto, de 38 anos, ficou desempregada. Com 13 anos de carreira na área de tesouraria, ela estava confortável, mas tinha von­tade de trabalhar com investimentos. Em 2015, quando foi desligada da companhia em que trabalhava, ela se viu em casa e compreendeu que era hora de se renovar. No começo não foi fácil. Renata não sabia como definir seu caminho profissional dali para a frente. Pensou nas habilidades que já possuía e nas que teria de aprender se fosse mudar de profissão. Por um momento, sentiu-se insegura e resolveu manter tudo como estava. Na sua cabeça, os dez anos de carreira na área e o investimento de tempo e dinheiro para se reinventar eram impeditivos para encontrar um novo caminho.

Os pensamentos sobre o rumo profissional vieram à tona quando Renata Barretto, de 38 anos, ficou desempregada.

Os pensamentos sobre o rumo profissional vieram à tona quando Renata Barretto, de 38 anos, ficou desempregada. (Divulgação/Divulgação)

Tudo mudou quando ela começou a ser entrevistada para vagas de tesouraria. “Depois de várias negativas, me enchi de coragem e decidi mudar: queria mesmo era trabalhar com investimentos”, diz. Renata compreendeu que a dificuldade já existia de toda maneira, então, era melhor lutar por aquilo que parecia fazer mais sentido. Com uma reserva financeira de 4.000 reais, ela conseguiu parar por um tempo para investir em educação. “Busquei por cursos com certificação, pagos e gratuitos, presenciais e online, li muitos livros. Foram meses dedicados a aprender tudo o que eu precisava para me qualificar”, diz. Em dezembro de 2016, ela viu seu esforço ser recompensado. Renata foi contratada como planejadora na K1 Capital Humano, empresa de planejamento financeiro. Dois anos depois, o bom trabalho prestado a levou a se tornar sócia adjunta da empresa.


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