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Tesla, Amazon e cia descem a ladeira nos EUA e atropelam Ibov em quase 3%

Petrobras tem lucro histórico e prometia um dia de glória na bolsa. Mas Bolsonaro clamou por “função social” da petroleira e acabou com a festa.

Por Tássia Kastner e Monique Lima 25 fev 2021, 20h18

Hoje o dia foi de banho de sangue, de fechar o home broker para não fazer bobagem, e isso aqui e lá na gringa. É que o jogo virou, e as adoradas big techs viraram ovelhas negras. A Tesla, por exemplo, despencou 8%. A Amazon: -3,24%. Apple e Facebook, -3,48% e -3,64%, respectivamente. 

Motivo do terror: investidores agora acham que os papéis dessas empresas ficaram caros demais — não que essa já não fosse uma questão depois que a Tesla se valorizou 700% em um ano e a Amazon, 76%. É que agora a régua de barato ou caro mudou um pouco. 

A história é a seguinte. A ação de uma empresa vale aquilo que o mercado acha que ela dará de lucro no futuro. E a aposta era um all in em big techs. É tudo uma questão matemática, mas investidores tinham uma historinha para contar. Com a pandemia se desenrolando, o mercado apostou que o potencial das empresas de tecnologia era infinito, enquanto negócios mais tradicionais penavam para se adaptar ao isolamento social. 

Onde entra a matemática? Aqui. Essa conta de potencial de lucro de uma empresa passa  pela conta do fluxo de caixa descontado. Isso é um método da contabilidade que estima a receita futura, mas desconta o custo do dinheiro. E o custo do dinheiro é a taxa de juros. 

Só que estamos falando de um lucro futuro, então não dá para fazer com a conta do juro de hoje. Aqui entra a confusão do mercado financeiro.

É que o juro americano está hoje em zero, mas a taxa dos títulos americanos de dez anos (uma referência de quanto o mercado espera que estará o juro lá na frente) subiu para 1,52%. Parece pouco olhando daqui do Brasil  de Selic 2% e juros futuros beirando os 8%. Mas é a maior taxa em um ano e continua subindo, portanto, o suficiente para fazer o estrago que estamos vendo.

Só que isso faz o “desconto” da estimativa de resultado das empresas ser maior e, por consequência, o potencial de lucro diminui. Assim, a ação que parecia uma pechincha até a semana passada, agora começa a ficar cara.

A pergunta é a seguinte: por que os juros estão subindo dessa maneira? O mercado financeiro acha que essa impressão de dinheiro sem fim no mundo rico vai levar a uma alta repentina da inflação. E quando a inflação sobe, os juros sobem para controlá-la. O que o mercado faz? Antecipa essa alta de juros.

Que os bancos centrais não param de imprimir dinheiro não é novidade, inclusive os americanos continuam à espera de um caminhão adicional de US$ 1,9 trilhão. O ponto é que agora a vacinação está andando e a economia tem mais chances de se recuperar e não precisaria tanto do dinheiro extra do governo. Por isso que a impressão de mais dinheiro causaria inflação agora, mesmo que há poucos meses o máximo que o dinheiro fez foi evitar a falência da economia como um todo.

O resultado dessa bagunça de juro pra cima e techs pra baixo foi um tombo nas principais bolsas do mundo. O índice que concentra o maior números de empresas de tecnologia, o Nasdaq, despencou 3,52%. Já o S&P 500 perdeu 2,45%. O Dow Jones, que concentra menos empresas de tecnologia e mais empresas consideradas tradicionais, caiu menos do que suas similares, -1,76%. 

Sim, o Ibovespa foi de arrasto com a confusão americana. E olha que o dia tinha começado no azul, após a divulgação de bons resultados de empresas daqui. No fechamento, a perda foi de 2,95%, aos 112.256 pontos. 

A queda foi tão brusca que das 81 ações do índice, somente duas fecharam no positivo. A Multiplan (0,45%) e a Telefônica (0,29%). 

Petrobras

E a Petrobras tem tudo a ver com o balanço positivo, ação no negativo. Na noite de quarta, a companhia anunciou um lucro trimestral histórico. A companhia de óleo fechou o quarto trimestre de 2020 com lucro líquido 634,6% superior ao do mesmo período de 2019. 

Enquanto no ano anterior a pandemia a empresa teve um quarto trimestre com lucro de R$ 8,2 bilhões, em 2020 o valor saltou para R$ 59,9 bilhões. Segundo a empresa de análises econômicas Economatica, trata-se do maior lucro trimestral da história das empresas de capital aberto no Brasil. 

Mas isso foi em um trimestre apenas, porque durante todo o ano de 2020, a estatal teve grandes prejuízos e o lucro acumulado foi de R$ 7,1 bilhões, 82,3% menor do que no ano anterior. Já a receita de 2020 somou R$ 272,1 bilhões, queda de 10% em relação a 2019. E o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) avançou 10,6%, para R$ 143 bilhões.

Foi o suficiente para aplacar a crise na companhia? Não, as ações da empresa caíram 3,87% (PETR3) e 4,96% (PETR4). Reflexo direto de mais uma fala do presidente Jair Bolsonaro, que aproveitou a divulgação do balanço para reafirmar que o general Joaquim Silva e Luna, indicado para a presidência da companhia, tem como objetivo dar à estatal uma “visão social”. 

Essa discussão de visão social tem uma única interpretação para analistas: parar de subir os preços dos combustíveis. Acontece que gasolina e diesel estão mais caros não porque a Petrobras quer lucrar às custas do pobre brasilerio. O preço do combustível é formado, basicamente, por dois componentes: petróleo e dólar. E as duas coisas não param de subir (veja abaixo). 

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Mesmo com os reajustes promovidos pela gestão de Roberto Castello Branco, ainda há uma defasagem de 7% nos preços do combustível em relação ao mercado internacional. Em sua última conversa com o mercado financeiro antes da saída da presidência da estatal, Castello Branco deu um recado claro. Em um tipo de evento em que estaria ao menos de camisa, vestiu uma camiseta do metrô de Londres com o clássico Mind the Gap. Bem, é bom mesmo se a companhia quiser repetir esse lucro.

 

MAIORES ALTAS 

Multiplan: 0,45%

Telefônica: 0,29%

 

MAIORES BAIXAS 

WEG: -8,30%

Ultrapar: -7,52%

CSNA: -6,70%

Embraer: -6,34%

Pão de Açúcar: -6,18%

 

Dólar: +2,39%, cotado a R$ 5,53

Petróleo 

Brent: -0,24% (US$ 66,88)

WTI: +0,49% (US$ 63,53)

Minério de ferro: +0,89%, cotado a US$ 174,24

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