Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês

Sem medo da vaca louca, frigoríficos puxam alta do Ibovespa

Ações da Minerva subiram mais de 6% e foram acompanhadas pelos concorrentes. Já a dona da Havaianas estreou no Ibov com o pé esquerdo.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 6 set 2021, 17h55 - Publicado em 6 set 2021, 17h51

Doença da vaca louca é um nome que assusta, é verdade. Mas não assustou o mercado nesta segunda-feira: as ações dos frigoríficos registraram fortes altas do Ibovespa na véspera de feriado, mesmo com a suspensão temporária das exportações de carne para a China, em vigor desde sábado (4).

Acontece que ninguém espera que a suspensão dure muito – nem mesmo os compradores chineses, como noticiou O Globo hoje. É que o comércio foi suspenso para cumprir o protocolo sanitário de avaliação de dois casos atípicos de encefalopatia espongiforme bovina (EEB), a doença da vaca louca, detectados em Minas Gerais e Mato Grosso.

A chave aqui é a palavra “atípicos”. A doença da vaca louca é causada por um príon, que não é um ser como um vírus ou uma bactéria, mas sim um agente infeccioso derivado de proteínas defeituosas. Essas estruturas criam placas no sistema nervoso dos bois e vacas e causam sintomas neurológicos.

Caso atípicos são aqueles em que os bovinos, especialmente os mais idosos, desenvolvem esses príons espontaneamente – e não são transmissíveis. Pode acontecer com qualquer animal, e isso não afeta o status sanitário do Brasil perante às organizações internacionais. A versão normal da doença é mais preocupante porque ocorre por contaminação da ração dos bovinos (que tem restos de proteína animal). O que temos por aqui é a versão menos preocupante. Não é o fim do mundo.

Tanto que, em 2019, aconteceu a mesma coisa quando um caso de vaca louca foi identificado por aqui – e a restrição durou só dez dias. Mais: até os protocolos sanitários serem cumpridos, a Minerva Foods, gigante do ramo, anunciou que vai continuar vendendo carne para a China através de suas instalações no Uruguai e Argentina.

Bom para a China, diga-se. Como lembrou a agência Bloomberg, o país mais populoso do mundo não tem muitas outras opções para comprar carne para além de nós. Depois do Brasil, os dois maiores exportadores do produto para a nação asiática são Argentina e Austrália, e ambos não estão sendo os melhores fornecedores no momento. Em junho, nosso vizinho latino limitou as exportações de carne até 31 de outubro para tentar combater a inflação. E a China colocou restrições na importação de produtos da Austrália, incluindo a carne, em meio a tensão política crescente entre os países nos últimos meses.

Ou seja: o medo da vaca louca nem fez cosquinha nos mercados hoje. Pelo contrário – empresas do ramo tiveram altas firmes, com a Minerva ficando com a medalha de prata do Ibovespa: +6,68%. Seguiram JBS +3,22%, Marfrig +2,58% e BRF +0,88%, com menos impacto, já que o negócio dela é carne suína e de frango.

Estreantes

Hoje também foi dia de novidades no Ibovespa. Sete novas ações foram incluídas no principal índice brasileiro, que agora contém 91 papéis, um recorde. 

Não foi uma entrada triunfal para a maioria delas – a Dexco (ex-Duratex) liderou as maiores perdas no dia, com -2,96%. Também caíram os papéis do Méliuz, Petz, Banco Pan e da Alpargatas, dona da Havaianas, e os papéis preferenciais do Inter (BIDI4). O banco já estava no Ibov com sua unit, o BIDI11 (-0,09% hoje). A única novata a brilhar foi a Rede D’Or, com uma alta de 4,12%.

Nada animador começar assim com o pé esquerdo, mas é só uma coincidência. Não tem um único fator que justifique a queda. 

Combo de feriados

De resto, o dia foi em grande parte entediante para o mercado, que decidiu emendar o feriado e negociou pouco: giro de menos de R$ 20 bilhões, ante a média diária de mais de R$ 30 bilhões neste ano. Hoje, também não rolou pregão nas bolsas americanas, que costumam ditar o humor da Faria Lima, porque é o feriado de Dia do Trabalho deles. O resultado foi uma alta de 0,80% no Ibovespa, que não foi suficiente para recuperar os 118 mil pontos.

Poderia ter sido melhor, não fosse a queda de 1,57% da toda-poderosa Vale. O motivo da baixa tem nome e sobrenome: DE FERRO, minério. É que o preço da commodity lá em Qingdao, na China, despencou 8,52% nesta segunda. Após um ciclo de forte alta, que fez o produto valer o recorde de US$ 230 a tonelada em maio, o governo chinês passou a intervir no mercado. Mandou cortar a produção de aço, para reduzir a poluição; de quebra, abateu os preços da matéria-prima do aço, o minério.

No fim, sem nossos amigos americanos, quem decidiu fazer negócio deu uma espiada no que rolava na Europa. E encontrou um dia positivo. O índice Stoxx 600, que reúne as principais empresas do continente, subiu 0,70%; bolsa de Frankfurt teve alta de +0,93%; Londres +0,70% e Paris +0,80%.

Agora, depois do dia tedioso, todos os olhares do mercado estão para esta terça-feira. A bolsa não abre, porque é feriado, mas os acontecimentos de amanhã podem influenciar bastante os próximos pregões. 

Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer nas grandes manifestações planejadas por apoiadores de Bolsonaro, que deverão ocorrer em São Paulo e Brasília. Pode ser que só seja um protesto, ou pode rolar coisas mais graves, como violência e ameaças golpistas. O presidente, você sabe, tem engrossado seu discurso contra o STF e o Congresso nos últimos dias, e sua base também tem se radicalizado. No meio disso, o mercado, que não costuma focar suas preocupações em questões meramente políticas, está receoso.  A ver.

Maiores altas

Continua após a publicidade

Pão de Açúcar (PCAR3): 6,75%

Minerva (BEEF3): 6,68%

Americanas (AMER3): 5,42%

Copel (CPLE6): 5,01%

Rede D’OR (RDOR3): 4,12%

Maiores baixas

Dexco (DXCO3): -2,96%

CSN (CSNA3): -1,90%

Vale (VALE3): -1,57%

Embraer (EMBR3): -0,97%

Equatorial (EQTL3): -0,97% 

Ibovespa: alta de 0,80%, aos 117.868 pontos

Em Nova York: feriado, não houve negociação;

Dólar: baixa de 0,15%, a R$ 5,1767

Petróleo

Brent: queda de 0,54%, a US$ 72,22

WTI: queda de 0,58%, a US$ 68,89

Minério de ferro: queda de 8,52%, cotado a US$ 132,28 a tonelada no porto de Qingdao (China).

Continua após a publicidade
Publicidade