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Petrobras sobe 5,16% e acionista fica com um olho na estrada e outro no retrovisor

Estatal ajudou a puxar o Ibovespa nesta sexta após um lucro de R$ 1,2 bi no 1ºtri. Expectativa é com a capacidade da companhia de evitar interferências de Bolsonaro nos combustíveis.

Por Bruno Carbinatto, Tássia Kastner Atualizado em 14 Maio 2021, 19h51 - Publicado em 14 Maio 2021, 19h03

Balanços de empresas são uma mistura de algo novo na estrada com imagens passadas, vistas apenas pelo retrovisor. Os números do primeiro trimestre da Petrobras são um exemplo máximo disso. As ações da petroleira saltaram 5,16% nesta sexta após a companhia anunciar que reverteu um prejuízo recorde do primeiro trimestre de 2020 e terminou igual período de 2021 com um lucro de R$ 1,2 bilhão.

Nada surpreendente. O primeiro trimestre deste ano foi marcado pela recuperação completa dos preços do petróleo, e agora a matéria-prima é negociada em um preço pré-pandêmico. O valor médio do petróleo tipo Brent no período foi de US$ 60, ante US$ 50 um ano antes. Nesta sexta, o barril fechou cotado em alta, cotado US$ 68,71 (veja mais abaixo). Petróleo é o que a estatal tira do fundo do mar. Depois disso ela pode exportar o produto bruto ou refinar e vender na forma de combustível que vai abastecer o seu carro. 

Segundo a corretora Guide, o destaque não foi a gasolina, mas o diesel que abastece principalmente caminhões. Os analistas da corretora afirmam que a venda do combustível cresceu 39,6% comparado a igual período do ano passado e 26,7% ante o quarto trimestre. Isso apesar das medidas de restrição de circulação e do aumento nos preços dos combustíveis.

Hora de olhar pelo retrovisor. O primeiro trimestre foi marcado também pela intervenção do governo na Petrobras. O motivo foi justamente a alta nos preços dos combustíveis causada pela valorização do brent e do dólar (que chegou a bater R$ 5,77 no período). O problema é que, desde o governo Temer, a estatal assumiu o compromisso de seguir a referência internacional de preços dos combustíveis, o que significa que era preciso elevar os valores da gasolina e do diesel vendido aos brasileiros. A forma de fazer isso já mudou ao longo dos anos, mas segue. Não foi diferente entre janeiro e março, tanto que a receita da companhia saltou para R$ 86,2 bilhões no período. 

Deu ruim

Só que pegou direto na popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Se quem tem um carro para abastecer de gasosa já acha ruim pagar mais caro, imagina quem cruza o país de norte a sul. 

A solução de Bolsonaro para a crise, porém, foi a pior possível. Ele demitiu o presidente Roberto Castello Branco da companhia e colocou o General Joaquim Silva e Luna no lugar. E depois da medida drástica, disse que nada mudaria na política de preços da estatal.

O mercado até hoje se pergunta o seguinte: se não vai mudar nada, pra que trocar o presidente, então? Pois é. As ações estavam ao redor de R$ 29 em fevereiro, quando essa intervenção direta ocorreu. Nesta sexta, fecharam em R$ 26,28, ainda 9,4% abaixo do patamar pré-interferência política.

Sempre após a divulgação dos resultados, os executivos das empresas fazem teleconferências com o mercado financeiro para dar mais detalhes. É normal que o presidente da companhia participe e responda a perguntas. Silva e Luna, em sua estreia, decidiu apenas gravar um vídeo.

Ficou com o resto da diretoria a tarefa de explicar para o mercado por que olhar para o retrovisor é seguro, em vez de focar na estrada à frente. 

Longa estrada

O diretor de Comercialização e Logística, Cláudio Mastella, afirmou que a empresa vai continuar perseguindo o alinhamento dos preços dos combustíveis com o mercado internacional, mas anualmente, mas que a companhia manterá a paridade de preços com o cenário externo. Beleza. Parece em linha com a ideia de continuidade.

Só que aí Bolsonaro falou de novo. Criticou a tributação dos estados sobre os combustíveis, uma briga que dura mais de ano e um esforço de se desresponsabilizar pela alta de preços. O governo federal chegou a isentar PIS/Cofins sobre o diesel para acalmar caminhoneiros, medida que terminou agora em maio. Além disso, acrescentou que está trabalhando com Silva e Luna em uma nova política para os preços do gás de botijão, que também subiram com o petróleo e afetam as famílias de baixa renda.

Por isso o mercado se divide entre o otimismo do retrovisor e a dúvida com o futuro. Esse é o clássico “o que vem aí não dá para saber”. O Credit Suisse destacou em seu relatório a clientes que a redução do endividamento continua e que essa é uma boa notícia para acionistas. A meta da estatal é baixar de US$ 60 bilhões. Quando essa marca for alcançada, a companhia deverá liberar dividendos mais gordos aos seus acionistas.

Ainda assim, o banco não recomendou a compra das ações. Por quê? Um dos motivos é justamente o risco de mudanças na política de preços e uma ameaça de greve de caminhoneiros com o fim do “desconto” com a isenção de impostos federais. 

Ibovespa

O lance é que a Petro tem um peso enorme no Ibovespa (a PETR4 é a terceira maior participação do índice). E isso ajudou a devolver a bolsa para o positivo nesta sexta. O índice subiu 0,97%, a 121.880 pontos. Na semana, a queda é de 0,2%.

Mesmo com o bom desempenho de hoje, quem liderou as altas nos últimos cinco dias foi a YDUQS, empresa de educação privada dona da Estácio. O motivo também foi a divulgação de um balanço, mas o curioso é que os números nem eram tão fortes assim – o lucro caiu 74% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Mas a leitura do mercado é que a empresa só tem a crescer no segundo semestre, com ampliação dos número de alunos tanto presencialmente (graças à vacinação, mesmo em passos de tartaruga) como no modelo EAD.

É uma explicação parecida para a maior alta nesta sexta-feira, da administradora de planos de saúde Qualicorp (+7,21%), que também liberou seu balanço na quinta-feira pós fechamento. O que chamou atenção foi o crescimento sólido no número de clientes (52,5 mil) através de fusões e aquisições no período. Não para por aí: o presidente da companhia, Bruno Blatt, afirmou que a empresa quer adicionar 45 novos mil novos usuários por mês no portfólio da empresa. O mercado confiou. 

O dia não foi bom para mineradoras e siderúrgicas, porém. É que o preço do minério de ferro despencou no porto de Qingdao, na China, que é referência para as negociações da commodity. Foi um tombo de 12,11%, para US$ 208,79 a tonelada – proporcional às altas seguidas nos últimos dias, chegando a beirar os +9%. 

Acontece que, na quarta-feira, autoridades chinesas anunciaram que o governo vai tomar medidas para frear o aumento do preço da commodity, incluindo a investigação de siderúrgicas que, segundo o regime, poderiam estar cometendo manipulação do preço do minério através de boatos e acúmulo do produto. O anúncio foi lido pelo mercado com forte receio que o governo vá interferir pesado na área, segundo agências de notícias como a Reuters e Bloomberg. Como a quinta-feira foi um feriado local em Qingdao, o tombo veio quantificado hoje.

Por aqui, caíram com a notícia as principais ações de empresas do setor siderúrgico: Gerdau Metalúrgica ( -2,60%); Usiminas PNA (-4,96%); Gerdau PN (-2,86%); e Vale (-1,72%).

EUA

Enquanto isso, nos EUA, Wall Street seguiu em uma sexta-feira de calmaria e otimismo e todos os principais índices das bolsas americanas tiveram altas substanciais lideradas pelo bom desempenho de ações de tecnologia.

É um fechamento semanal tranquilo para uma semana que não teve nada de tranquila: as bolsas ficaram no vermelho na segunda e na terça, com o receio dos números sobre inflação que seriam divulgados na quarta. E, quando finalmente a tão temida quarta chegou, o baque foi ainda maior do que previsto pelos cautelosos: aumento de 0,8% no “IPCA” americano, quatro vezes acima das previsões.

Foi o dia que concentrou o maior derretimento das bolsas em Nova York – e no mundo todo também, é claro. Mas, curiosamente, a quinta-feira foi de altas em Wall Street, que optou por encarar o problema com yoga e meditação, algo que se repetiu nesta sexta-feira. Não é como se os temores com a inflação tivessem desaparecido – o saldo semanal foi de queda por causa deles –, mas os investidores americanos decidiram não sofrer por antecedência e curtir o fim de semana relax. Ajudou a colocar a B3, as bolsas europeias e as asiáticas no azul também.

É claro que a divulgação de novos dados macroeconômicos deram uma ajudinha para essa postura: hoje, o governo americano divulgou os dados do varejo, que vieram estáveis em abril diante de março. Foi um número bem visto para o mercado: um aumento muito grande poderia alimentar os medos sobre a inflação, já que indica mais dinheiro circulando. O aumento da produção industrial divulgado hoje também não foi nada extraordinário (+0,7% em abril ante março, contra +0,8% das previsões).

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Sem grandes variações, aumenta a confiança dos investidores de que o Fed, o Banco Central americano, vai cumprir sua promessa e não vai alterar sua política econômica tão cedo. Segundo o Fed, a inflação é um fenômeno apenas pontual no país. 

Há outros indicadores positivos para acalmar os ânimos: ontem, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças do país (CDC) anunciou que pessoas totalmente vacinadas podem ficar sem máscara na maioria dos ambientes – um sinal de como o país avança a passos largos para superar a pandemia. Por lá, mais de 59% dos adultos receberam pelo menos uma dose das vacinas da Pfizer ou da Moderna, ou a dose única da Johnson & Johnson.

Bem diferente da situação por aqui. Tanto o Instituto Butantan, que produz a Coronavac, como a Fiocruz, que fornece a vacina da Astrazeneca, relataram um problema sério de falta de insumos para a produção de seus imunizantes. O Butantan paralisou sua produção nesta sexta-feira, e a Fiocruz anunciou que fará o mesmo na semana que vem. 

Os problemas vêm para piorar a vacinação que já é bastante lenta no Brasil – só cerca de 18% dos brasileiros receberam pelo menos uma dose da vacina. Até agora, a Faria Lima não parece ter ligado muito para a notícia. Mas sem vacinação não há retomada econômica – e não há otimismo americano que puxe o Ibovespa para cima se o cenário interno não melhorar.

Maiores altas

Qualicorp: +7,21%

Hering: +6,43%

YDUQS: +6,04%

Petrorio: +5,71%

Gol: +5,39%

Maiores baixas

IRB: -5,08%

Usiminas: -4,96%

Gerdau: -2,86%

Gerdau Metalúrgica: -2,59%

Suzano: -2,48%

 

Ibovespa: alta de 0,97%, aos 121.880 pontos

Em NY:

S&P 500: alta de 1,49%, aos 4.173 pontos

Nasdaq: alta de 2,32%, aos 13.429 pontos

Dow Jones: alta de 1,06%, aos 34.380 pontos

Dólar: queda de 0,80%, a R$ 5,27 

Petróleo

Brent: alta de 2,47%, a US$ 68,71

WTI: alta de 2,42%, a US$ 65,37

Minério de ferro: queda de 12,11% para US$ 208,79 a tonelada no porto de Qingdao (China).

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