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O parque de diversões dos fundos temáticos

Urânio, cannabis, metaverso, créditos de carbono, água. Entenda como funcionam os fundos que servem para apostar em nichos de mercado.

Por Alexandre Versignassi | Design e Colagem: Caroline Aranha 11 fev 2022, 08h45

No início do século, eu e a minha namorada da época tínhamos uma tese: o etanol iria bombar no mundo. Seria o combustível do futuro. Na mesma época, um certo Elon Musk comprou por US$ 6,5 milhões uma startup de carros elétricos que ainda estava no papel, a Tesla – um trilhão de dólares depois, sabemos quem acertou.

Mas foi divertido. A sanha por apostar numa hipótese bem específica fez com que a gente abandonasse os fundos de investimento tradicionais para comprar ações por conta própria, da área em que a gente colocava nossas fichas.

Com o passar do tempo, cada vez mais gente foi tomando decisões parecidas. Há 10 anos, havia 500 mil investidores pessoa física na B3. Hoje são 5 milhões. Mas o investimento em ações via fundos ainda é o preferido. Há R$ 2,1 trilhões aplicados em fundos de ações e multimercados – que juntam renda variável (ações) e títulos de renda fixa no mesmo pacote –, contra apenas R$ 500 bilhões investidos diretamente em papéis por gente como a gente.

Os fundos com alguma parcela de renda variável tendem a ser parecidos. Quando você vira cotista de algum deles, não sabe exatamente para onde o seu dinheiro está indo. E isso não é um problema: a proposta ali, afinal, é delegar a escolha das ações a profissionais.

Não que seja algo completamente aberto. Você pode entrar num fundo que investe só em empresas pequenas, com potencial para crescer (as small caps). Ou em algum que só coloque dinheiro em boas pagadoras de dividendos. Ou em mais outro, voltado para companhias de infraestrutura.

Ainda assim, o leque fica bastante aberto. Se você tem uma tese mais específica de investimento, ou seja, se aposta em algo menos generalista do que “infraestrutura” ou “dividendos”, e ainda assim não quer se aventurar no home broker, não há muito o que fazer.

Digo: não havia, porque essa história está mudando. Nos últimos anos, têm aparecido cada vez mais “fundos temáticos”. São fundos de renda variável que só investem em ações de algum nicho: urânio, cannabis, games, petróleo, tratamento de água…

Uma corretora que tem se notabilizado pelo lançamento de fundos temáticos é a Vítreo. George Wachsmann, sócio-fundador da empresa, trabalhou por décadas na área de gestão de patrimônio – wealth management. Trata-se da alfaiataria do mundo dos investimentos: busca oportunidades sob medida para clientes com muita bala na agulha. Nesse mundo, as aplicações temáticas nunca foram uma exceção. São parte do dia a dia. “Nas ofertas de investimentos que você faz para o investidor de altíssimo patrimônio, você fala disso”, diz Wachsmann. “A gente conversa sobre ‘investir em água’, sobre grandes teses.”

A ideia, então, foi levar essa linha de pensamento para a corretora, que vem lançando novos fundos temáticos paulatinamente. Outra que tem se destacado na área é a XP, que batizou sua linha de temáticos como “fundos Trend”.

Vamos entender aqui como eles funcionam.

Urânio

Um dos temáticos mais nichados é o Vítreo Urânio. A tese de quem aposta no urânio é simples. Usinas nucleares, que são movidas pela radioatividade desse mineral, podem ser polêmicas, já que eventuais acidentes com elas podem trazer consequências dantescas (vide Fukushima, 2011), mas trata-se de uma fonte de energia limpa, ao menos em termos de CO2. E basicamente todos os países têm programas para acelerar a adoção de matrizes que não emitem gases-estufa, de modo a evitar uma catástrofe climática.

Bom, 60% da eletricidade global vem de usinas termelétricas, movidas a carvão ou a gás natural. Se a ideia é frear o aquecimento global (e esperemos que seja), elas têm de acabar. O problema: as alternativas mais badaladas (energia eólica e solar) sofrem de intermitência: nem sempre venta, nem sempre faz sol. A energia hidrelétrica também não resolve sozinha: que o diga as ameaças de apagão quando São Pedro fecha as torneiras. Já as usinas movidas a urânio funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, sem emitir gases-estufa. Num cenário de virada de chave nas matrizes energéticas, então, é possível que a energia nuclear volte a se expandir. Essa é a lógica de quem aposta em urânio, e a razão de existir de um fundo temático voltado ao combustível das usinas nucleares.

Nesse da Vítreo, você coloca o dinheiro ali e ele fica dividido entre as maiores companhias do setor – sejam mineradoras de urânio, sejam operadoras de usinas nucleares. Note que não existem ações desse setor no Brasil. O que o fundo faz é adquirir ETFs lá fora. ETF é a sigla em inglês para “fundo negociado em bolsa”. São “blocos” de ações de algum setor específico.
Hoje, a Vítreo usa um ETF chamado Global X Uranium, negociado na Bolsa de Nova York. A maior empresa dentro desse ETF, com 23% de participação no bolo, é a canadense Cameco, que produz 20% do urânio do planeta. Em seguida, com 10%, vem a Kazatomprom, do Cazaquistão, o centro mundial da mineração de urânio. Mais embaixo, a CGN, uma operadora chinesa de usinas nucleares, com 2%. No fim das contas, o dinheiro que você coloca ali fica dividido entre 45 companhias cujos negócios tenham a ver com as pedrinhas radioativas, através de um ETF estrangeiro.

E isso explica por que esse tipo de fundo só começou a chegar recentemente ao investidor comum, de fora do clube do wealth management. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) restringe o acesso a fundos que investem mais de 20% de sua grana no exterior. Eles são só para “investidores qualificados” – título atribuído a quem tem mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras.

A intenção aqui é proteger pequenos investidores de eventuais roubadas. Se um ETF dos EUA for extinto pelas autoridades americanas por conta de alguma ilegalidade, por exemplo, um investidor brasileiro precisaria brigar lá fora, nos tribunais americanos, para reaver seu dinheiro – algo complexo para quem não tem dinheiro sobrando.

Mas há uma forma de contornar essa restrição: em vez de comprar um ETF lá fora, a corretora que administra o fundo faz um “swap de ETF”.

Swap

O termo soa áspero, mas descreve algo relativamente simples: troca de rendimentos. Nesse caso, um banco com sede no Brasil faz a compra do ETF. A corretora, então, compra títulos de renda fixa e faz um acordo com o banco. Ela paga à instituição financeira os juros que esses títulos oferecem. O banco, como contrapartida, paga à corretora aquilo que o ETF render (e cobra uma taxa pelo serviço – uns 0,20% sobre o montante envolvido). Trata-se de uma troca (um “swap”) de rendimentos.

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É uma jogada comum no mercado. O banco faz isso para contar com uma renda fixa turbinada: ganha os juros dos títulos mais o chorinho da taxa. Já a corretora garante que a eventual rentabilidade do ETF gringo caia na sua conta sem que ela tenha comprado o ETF lá fora. O acordo, note bem, foi feito com um banco sediado no Brasil. Isso “nacionaliza” o fundo – caso o banco deixe de pagar, o investidor tem como resolver na justiça brasileira. Essa manobra, então, permite que a corretora ofereça um fundo 100% investido num ativo estrangeiro a pessoas comuns, que não tenham mais de R$ 1 milhão em aplicações.

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Como tudo o que envolve o mercado financeiro, trata-se de um cabo de guerra entre duas instituições com perspectivas diferentes. A corretora aposta que o ETF vai dar mais dinheiro do que a renda fixa. E o banco coloca suas ficha no oposto (claro, se ele apostasse cegamente na alta do ETF, ficaria com o ETF e pronto, sem swap).

Por enquanto, o lado da corretora está vencendo a disputa: o fundo baseado no Global X Uranium rendeu 35,21% nos últimos 12 meses, contra 4,8% do CDI – a taxa-base da renda fixa.

Nem todo fundo temático aberto para investidores comuns precisa recorrer aos swaps, diga-se. Se empresas gringas de um setor tal tiverem BDRs (recibos de ações) na bolsa brasileira, o fundo pode comprar à vontade, já que papéis gringos na forma de recibos comercializados no Brasil não são considerados um “investimento no exterior”. E os 20% liberados para investimentos lá fora podem ir para ativos que não são nem ETFs nem ações – caso dos contratos futuros, instrumentos financeiros que permitem ganhos exponenciais em caso de alta ou de baixa, contanto que você tenha feito a aposta certa.

“O nosso de temático de petróleo, por exemplo, tem BDRs da Chevron, da BP; ações da Petrobras, ETFs e contratos futuros”, diz Wachsmann. “O de agro tem ETF, ações de empresas de fertilizantes, de frigoríficos, de distribuição; mais contratos futuros de commodities agrícolas – café, soja…” A mercadoria agrícola que mais chama a atenção no mundo dos fundos temáticos, porém, é outra: a cannabis.

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Até a última ponta

A Vítreo e a XP têm fundos de cannabis desde 2019. O da XP aplica tudo em swaps do Alternative Harvest, um ETF americano dedicado ao tema. O código dele na bolsa é, marotamente, “MJ”, de “marijuana”. O que puxa um lembrete para evitar confusão: “maconha” (entre outros termos) é o nome da droga; “cannabis”, o da planta, que produz outros derivados também: a começar pelo canabidiol, um estrato de uso medicinal, sem efeito alucinógeno, já usado de forma regular em boa parte do mundo – Brasil incluído.

As empresas com mais peso dentro desse ETF que a XP usa são do Canadá, que legalizou completamente a cannabis em outubro de 2018, e se tornou a Pasárgada da verdinha. Por lá, uma empresa pode ter até marcas de maconha, devidamente registradas no escritório federal de patentes, como se fosse uma marca de cigarros – algo que segue proibido nos EUA.

Para dar uma ideia: a Aurora Cannabis, que compõe 7,6% do MJ, tem uma linha de fumo premium (a “San Raphael”, de alto teor alucinógeno); uma mais baratinha (a “Daily Special”), uma de chocolates, cookies e outras guloseimas com maconha dentro (Aurora Drift). Outra empresa, a Canopy Growth Corp (que compõe 6,2% do MJ), vende baseados pré-enrolados em caixinhas de metal sob a marca Tweed – que também produz comestíveis e latinhas de chá gelado com infusão de maconha.

A hipótese de que o resto do mundo, mais hora menos hora, se tornará um lugar tão maconha-friendly quanto o Canadá é o que move quem coloca dinheiro nesse tipo de fundo. Mas ainda falta combinar com os russos. Eles têm caído forte. O da XP perdeu 48% nos últimos 12 meses. Culpa das incertezas regulatórias que ainda envolvem a cannabis.

O caso dos EUA é bizarro. 18 estados liberam o uso recreativo e 37 o medicinal, mas a cannabis é proibida na esfera federal. Na prática, significa o seguinte: se você abrir uma companhia de cultivo de maconha ou um dispensário (uma loja de maconha) nesses lugares, tudo bem. Mas você não vai conseguir crédito com os grandes bancos, já que eles devem obedecer a lei federal. E pela lei federal financiar um dispensário é tão ilegal quanto fazer um empréstimo para o Cartel de Cali. Quem investe em maconha precisa recorrer a cooperativas de crédito menores (sujeitas apenas à legislação estadual), o que restringe o acesso a capital.

Pior: as empresas americanas do ramo não podem abrir capital em Wall Street, já que as bolsas americanas também rezam pela cartilha da lei federal. Com isso, elas têm lançado ações na bolsa canadense. Já as canadenses do ramo abrem capital na bolsa americana – pois a lei não impede companhias que operam legalmente em seus países de origem de lançar suas ações nos EUA. Uma zona.

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Bom, outro jeito de investir em setores temáticos é comprar diretamente os ETFs via corretoras gringas. Trata-se de uma faca de dois gumes: de um lado, você paga menos taxas de administração; de outro, o processo para quitar o imposto de renda fica um pouco mais burocrático.

Um dos fundos temáticos que, por enquanto, só existe na forma de um ETF que você precisa comprar diretamente é o BAD, que chamou a atenção quando foi lançado, em dezembro, por ser mais pitoresco que a média. Ele tem uma postura anti-ESG: só investe em companhias “do mal”, que fabricam bebidas alcoólicas, drogas (aí entra maconha e indústria farmacêutica) e operam cassinos.

Mas, no fundo, isso é mais marketing do que filosofia de investimento. Na parte de álcool, esse ETF compra ações da Ambev (um investimento completamente natural para os brasileiros); na de “drogas”, tem Pfizer, BioNTech e AstraZeneca (não dá para dizer que colocar dinheiro em desenvolvedoras de vacinas seja algo marginal). Em suma, os gestores do fundo podem pagar de loucos para aparecer, mas não rasgam dinheiro.

Isso é comum no mundo dos temáticos. O MJ, aquele ETF de cannabis, também tem ações da indústria tabagista, que nada têm a ver com a imagem paz e amor do universo canábico. Mas faz sentido: Philip Morris, British American Tobacco e cia estariam bem posicionadas para uma realidade de legalização global da maconha. O mercado financeiro não tem nada de ideológico. É pragmático.

Seja como for, a forma mais segura de investir em ações continua sendo comprar outro tipo de ETF, os de índice, caso dos que acompanham a variação do Ibovespa ou do S&P 500. Eles acompanham todos os setores da economia, afinal. Se um não for bem, outros podem compensar. Investir num nicho, seguindo uma tese, é, de fato, mais emocionante. Mas use com moderação: nem você nem ninguém sabe de fato como será o amanhã.

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