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Mercado faz birra com a manutenção de Powell no Fed

Índices futuros começam o dia em baixa, já que o Fed deve seguir com sua política de tirar doces da boca dos investidores. Para o longo prazo, porém, a recondução de Powell é um bom sinal. Entenda.

Por Alexandre Versignassi, Guilherme Jacques 23 nov 2021, 08h48

Os índices futuros nos EUA acordaram em baixa após a recondução de Jerome Powell para a presidência do Fed, o Banco Central americano. O mercado entende que Powell vai passar a tesoura com mais vontade nos estímulos financeiros e adiantar uma alta na taxa básica de juros (a “Selic” deles, atualmente entre 0% e 0,25%).

Menos agrados e mais juros controlam a inflação – o preço do dinheiro aumenta, começa a circular menos moeda e os preços baixam. O efeito colateral é que a economia também desaquece, o que não ajuda nos lucros das empresas, o motor que move a bolsa. 

Some-se a isso o fato de que juros mais altos tornam a própria bolsa um investimento menos interessante, já que os títulos públicos começam a pagar taxas mais atraentes, acompanhando as eventuais altas na taxa básica. 

Os investidores, inclusive, antecipam tais aumentos, negociando títulos a taxas mais altas antes mesmo dos aumentos de verdade. Com a recondução de Powell, as taxas dos títulos mais curtos, com vencimento em dois anos, subiram para 0,638% ao ano – a maior desde março de 2020.      

A nomeação em si não trouxe surpresa. A tradição por lá é justamente referendar a autonomia do Banco Central. O presidente da entidade é escolhido pelo presidente da nação para um mandato de quatro anos, mas as datas de posse não casam. Powell, por exemplo, foi indicado por Trump. Seu mandato começou em fevereiro de 2018, para terminar em fevereiro de 2022, assumisse quem assumisse a Casa Branca. 

Biden assumiu, e renovou o mandato do sujeito que seu opositor ferrenho tinha apontado. É assim que funciona por lá. Um dos poucos a quebrar a tradição, que serve para referendar a autonomia do Banco Central em relação ao governo da vez, foi justamente Trump, que substitui Janet Yellen, a presidente do Fed apontada por Obama, justamente por Powell. 

Essa tradição existe para ratificar a ideia de que o Banco Central não é uma instituição “de governo”, mas “de Estado”. Que seu papel não é participar do jogo político, é controlar a inflação (e, quando necessário, estimular a economia para evitar o desemprego). 

O Brasil copiou o sistema em fevereiro deste ano. Os mandatos de quatro anos dos presidentes da República e do Banco Central serão intercalados. O chefe de Estado assume e só em seu segundo ano de trono aponta seu presidente do BC (ou reelege o anterior). Ou seja: passa metade do mandato tendo alguém que não indicou numa posição chave para a economia. É o que acontecerá com o próximo presidente da república. Seja ele quem for, terá Roberto Campos Neto à frente do BC por um bom tempo. 

Funciona? A experiência americana mostra que sim. O mercado amanheceu mal humorado não porque considera Powell despreparado. Mas simplesmente porque precisa de novidades para seguir quebrando recordes. A novidade para o momento seria Biden empossar alguém a fim de manter os juros perto de zero até o século 22. Ela não veio. Mas agora que essa possibilidade não existe mais, o mercado dá uma emburrada – tal qual uma criança que se vê sem a chance de ganhar um doce. Mas a economia de verdade, aquela cujo objetivo é a geração de emprego concomitante à manutenção do valor da moeda, não vive só de doce. 

Ela precisa de brócolis também.                      

Boa terça.

Humorômetro - dia com tendência de baixa

Futuros S&P 500: -0,03%

Futuros Nasdaq: -0,25%

Futuros Dow: 0,07%

*às 7h55

Europa

Índice europeu (EuroStoxx 50): -0,87%

Bolsa de Londres (FTSE 100): -0,20%

Bolsa de Frankfurt (Dax): -0,93%

Bolsa de Paris (CAC): -0,50%

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*às 7h54

Fechamento na Ásia

Índice chinês CSI 300 (Xangai e Shenzhen): 0,02%

Bolsa de Tóquio (Nikkei): 0,09%

Hong Kong (Hang Seng): -1,20%

Commodities

Brent: -0,93%, a US$ 78,96*

Minério de ferro: 4,39%, a US$ 99,83, no porto de Qingdao na China (a nova alta deve dar impulso extra a VALE3, que ontem subiu 5,5% após uma alta de 4,30% no minério).   

*às 7h54

Agenda

11h45- O IHS Markit divulga o índice de gerentes de compras dos EUA (PMI composto) de novembro. Ele afere as condições de negócios no setor industrial. Mais cedo, o índice na zona do Euro foi a 55,8 em novembro, ante 54,2 em outubro, indicando aceleração (qualquer coisa ao norte dos 50, pela métrica deles, significa alguma alta em relação ao mês anterior). A expectativa era de queda em razão da nova onda de Covid-19 no continente.

market facts

Criptos no Mercado Pago

Depois de realizar testes com um pequeno grupo de clientes, o Mercado Livre anunciou que vai liberar a compra, venda e armazenagem de criptomoedas para clientes brasileiros do Mercado Pago, a sua fintech. Mas não será possível utilizá-las para pagar por mercadorias no marketplace, só para guardar criptos mesmo. A ideia, segundo o grupo argentino, é levar a experiência para outros países da América Latina. A americana Paypal já tinha feito isso. Vale lembrar que o volume total de pagamentos via Mercado Pago saltou 44% no terceiro trimestre, em relação ao ano anterior.  Seja como for, o anúncio não emocionou investidores brasileiros. O BDR do Mercado Livre (MELI34) fechou o dia ontem com uma queda de -5,95%.

Desemprego correndo solto

Um levantamento da agência de classificação de risco Austin Rating mostrou que o Brasil tem mais que o dobro da média internacional de desempregados, de 6,5%. Os 13,2% apurados no trimestre fechado em agosto nos colocam atrás apenas de Costa Rica (15,2%), Espanha (14,6%) e Grécia (13,8%). O levantamento inclui 43 nações – EUA (5,2%), os países da zona do Euro (7,5%) e, na melhor posição, Singapura (2,6%). Desde 2015, o Brasil não alcança taxa de desocupação de um dígito.

Vale a pena ler:

Como se tornar um profissional disputado

Quem está buscando emprego e mesmo quem não está, já escutou alguém dizer que “há vagas, mas faltam candidatos qualificados”. É verdade. Não são mais só requisitos técnicos que faltam a quem disputa uma vaga. Há uma série de fatores que aumentam ou reduzem a empregabilidade perante os recrutadores. Na Você S/A deste mês, apontamos cinco dicas para você se tornar um profissional disputado no mercado. Leia aqui.

A vice de Powell

Outro desafio para Jerome Powel neste novo mandato atende por Lael Brainard, a vice-presidente do Fed indicada por Biden. Ela é democrata e Powell, republicano. Eles discordam em ao menos três pontos importantes: a regulação dos grandes bancos, a influência das mudanças climáticas nas decisões do Fed e o lançamento de uma versão digital do dólar americano. Leia a análise da The Economist.

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