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5 dicas para se tornar um profissional disputado por recrutadores

Alguns fatores-chave aumentam ou reduzem a sua empregabilidade. Veja quais são.

Por Guilherme Jacques | Edição: Alexandre Versignassi | Design: Brenna Oriá | Ilustração: Peve Azevedo Atualizado em 18 nov 2021, 18h24 - Publicado em 19 nov 2021, 05h04

Quem está buscando emprego e mesmo quem não está, já escutou alguém dizer que “há vagas, mas faltam candidatos qualificados”. Não é uma falácia. Segundo uma pesquisa de 2020 da CNI, a Confederação Nacional da Indústria, cinco em cada dez empresas do setor encontram dificuldades para recrutar profissionais. E, embora educação de qualidade seja um problema crônico do país, não são apenas requisitos técnicos que faltam a quem está disputando uma vaga, de acordo com os potenciais empregadores.

O X da questão é que há uma série de fatores que compõem a empregabilidade de um candidato, ou seja, que fazem dele atraente ou não para quem quer contratar. E eles precisam estar em sintonia. É como em uma orquestra: se um estiver fora do tom, pode ofuscar todos os outros.O primeiro-violino dessa orquestra – o instrumento mais importante – permeia basicamente todos os fatores da empregabilidade: a forma como você lida com as pessoas.

A história do esporte ajuda a ilustrar. Quando Nelson Piquet ganhou seu primeiro título na Fórmula 1, em 1981, lhe perguntaram a quem ele dedicava o campeonato. Resposta: “Dedico a mim mesmo. Fui eu quem ganhei, pô”. Claro que a declaração tem muito do humor peculiar de Piquet, mas ela também reflete o espírito daquela época, que glorificava os feitos individuais.

Só que ninguém realiza nada sozinho. E o espírito da nossa época tem esse fato bem introjetado. Não à toa, Lewis Hamilton e Max Verstappen agradecem servilmente seus mecânicos pelo rádio a cada vitória. Cumprimentam um a um os membros da equipe ao pé do pódio. Se esses sujeitos se comportam dessa forma, imagine o que o mercado não espera de mortais como nós.

“Eu diria que as habilidades interpessoais, a forma como você trabalha em equipe e motiva os demais, é o que há de mais importante atualmente”, diz Diogo Forghieri, da consultoria de RH Randstad. De fato: se antes a arrogância fazia parte do jogo, hoje é mais fácil perder o emprego por conta de algum deslize de comportamento do que por alguma deficiência técnica. A parte técnica, afinal, é mais simples de aprimorar do que os vícios
de personalidade.

Isso dito, vamos aos cinco principais instrumentos para manter sua empregabilidade em alta no mercado.

1. Saia da sua caixa

As organizações buscam profissionais que tragam vantagens competitivas. E isso vai além de você ser bom naquilo que faz. “É importante abrir os olhos para competências que, eventualmente, ficaram adormecidas ao longo da carreira. Nunca houve tantas escolas voltadas ao desenvolvimento de habilidades como a criatividade”, diz Genis Fidelis, gerente-executivo da consultoria de recursos humanos Michael Page.

É impossível aprender criatividade na marra. Mas vale buscar alguns caminhos. Se você é um ótimo administrador, e não escreve uma redação desde o vestibular, vale buscar técnicas para aprimorar sua escrita, por exemplo. Um caso: a Amazon, um dos maiores empregadores do mundo, com 1,3 milhão de funcionários, abandonou o uso de PowerPoint por ordem de Jeff Bezos. A companhia espera que você seja capaz de se comunicar bem por escrito, sem a ajuda de imagens como muleta. Não é uma virada de chave simples. Mas, para empresas que seguem essa filosofia, é preciso dar um jeito. Se esse for o seu caso, leia mais. Gostou de um seriado? Escreva sobre ele nas redes. Pode ajudar mais do que você imagina.

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Também vale o oposto, claro. Se você é reconhecido pela sua criatividade e não sabe fazer uma planilha de Excel, aprenda. Mais hora menos hora o mercado vai cobrar.

E há ainda a parte interpessoal. Se você busca um cargo gerencial, investir tempo e dinheiro num MBA de gestão de pessoas pode ser útil. Mas, claro: nenhum certificado assim faz mágica. Se você tem um desses e não responde quando te dão bom-dia, pode jogar no lixo.

Outro ponto é observar as tendências do mercado. Exemplo: muitas empresas passaram a adotar a chamada “metodologia ágil”. Trata-se de fatiar as entregas de um projeto, para possibilitar correções ao longo da jornada – em vez de terminar tudo primeiro e só depois ver se funciona. Se a empresa onde você está hoje nem sabe o que é isso, tome a iniciativa. Leve a metodologia lá para dentro. Teste-a para tentar melhorar os fluxos. Se der certo, isso não só vai tornar você um funcionário mais valioso, como vai ajudar no currículo. O que nos leva ao próximo tema.

2. Você é os projetos que realizou

Quando você vai procurar um novo emprego, ninguém quer saber se você foi o rei da cocada preta no Itaú, na Volkswagen ou no Google por dois séculos. O que interessa para os recrutadores é ver se você foi capaz de melhorar algo na empresa onde trabalhava – seja qual for a empresa. “Antigamente, valorizavam-se muito mais as companhias pelas quais aquele profissional havia passado e o tempo que ele tinha permanecido em cada posição. Hoje, as organizações buscam entender as transformações causadas pelos projetos que essa pessoa desenvolveu”, diz Genis Fidelis, da consultoria de RH Michael Page.

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Nessa seara, vale tudo. Havia algum processo que levava dois dias e que, depois da sua intervenção, passou a ser resolvido em um dia? Mostre, por mais simples que tenha sido. Fez algo que proporcionou alguma economia financeira? Apresente. Assumiu uma equipe e, com feedbacks mais constantes, ações motivacionais, treinamentos e uma política mais lógica de bonificação, melhorou a retenção de talentos? Mostre. E com números. Nesta linha: “Em um ano, a rotatividade de pessoal caiu de 30% para a nossa meta, que era de 10%”.

Parece óbvio. Mas não é. No dia a dia, vamos matando leões e apagando incêndios muitas vezes sem olhar com atenção para os resultados concretos, os legados, que vamos deixando ao longo da carreira. Quando matar seu próximo leão, quantifique o resultado. Mantenha isso escrito em algum lugar para lembrar depois – e poder apresentar os highlights de sua carreira de forma cristalina quando isso for necessário.

Ah… E cuidado com o “nós”. Dentro de uma organização é fundamental dar crédito a quem 0 apoiou, sejam pares, sejam subalternos, sejam superiores – não dar crédito é sintoma de psicopatia. Numa entrevista de emprego, porém, um eventual excesso de humildade pode se voltar contra você. Subestime sua própria participação em projetos bem-sucedidos, e o recrutador pode e vai entender exatamente isso: que você é um profissional que não faz diferença. Cuidado.

3. Mostre que você sabe lidar

Dizer que “você trabalha muito bem em equipe” é o novo “meu maior defeito é ser perfeccionista” – uma frase feita que não
diz chongas. Os recrutadores sabem disso. Então usam técnicas para descobrir como você lidou com situações estressantes, em equipe, ao longo de sua trajetória profissional.

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Uma dessas técnicas é o “método STAR” – sigla bonitinha em inglês para “Situação, Tarefa, Ação e Resultado”. Primeiro perguntam sobre alguma situação pela qual você passou, tipo: “Me diga sobre alguma vez em que você entrou em atrito com um colega”. O tal atrito é a “situação”. A “tarefa”, resolvê-la. A “ação”, o que você fez para resolvê-la. E o “resultado” é ver o que a sua empresa ganhou com a solução da pendenga.

Você pode ter se desentendido com um colega porque ele deixou de fazer algo e complicou o deadline que vocês tinham para entregar um relatório. Se você passou por uma situação assim e conseguiu resolver na conversa, possibilitando a entrega dentro do prazo (o “resultado”, nesse caso), conte. E, sim: é virtualmente impossível se lembrar de tudo pelo qual você passou. Então mantenha uma “autobiografia” por escrito, de forma que você possa acessá-la às vésperas de uma conversa com um recrutador. Ele vai perguntar.

E por um motivo óbvio. As empresas têm interesse em saber como você lidou com conflitos no passado para projetar seu comportamento no futuro. “Muitas vezes, determinada experiência vai dizer mais sobre se a pessoa atende às necessidades da vaga do que a formação dela”, diz Diogo Forghieri.

Genis Fidelis, da Michael Page, completa: “Há a máxima que diz ‘os profissionais são recrutados pelo currículo e demitidos por características comportamentais’. Por quê? Porque a forma como o profissional vai negociar um orçamento, por exemplo, dependerá das relações que ele construir lá dentro”.

4. Adapte seu currículo

Currículo é igual roupa que escolhemos para o processo seletivo. Você não vai de jeans e camiseta ao escritório de advocacia mais importante da cidade, nem de terninho e salto alto a uma agência de publicidade 100% informal. Então adapte seu currículo. Sempre. Para cada oportunidade que concorrer, em cada empresa, um documento diferente. Veja o que eles escreveram na divulgação da vaga, o estilo do texto, a escolha de palavras. E use-as no seu currículo.

Algumas empresas se dizem “obcecadas pela experiência do cliente” (o que faz todo o sentido como filosofia). Se você vem de uma cultura em que não se falava muito disso, adapte o currículo. Mostre como o trabalho que você faz ou fazia influía positivamente na vida dos clientes. Deixe claro que eram eles que você tinha em mente todo o tempo – mesmo que seu único objetivo tenha sido agradar seu chefe, mas isso fica entre nós 😉

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Nas experiências, evidencie o que realmente pode ajudá-lo a conseguir a vaga, e não esqueça que nem tudo que reluz é ouro. Se você foi gerente em uma gigante farmacêutica por cinco anos, mas concorre a uma vaga no segmento alimentício, em que foi coordenador de uma empresa média por dez anos, dê destaque para essa vivência mais humilde.

Deixe de fora tudo que não agregue valor. Se você tem conhecimentos avançados em photoshop, mas agora concorre a uma vaga no financeiro, corte. Mas nem tudo é gordura. Empresas tendem a gostar de quem fez trabalhos voluntários – isso denota que você tem iniciativa, princípios. E tem ainda mais valor para quem está em busca do primeiro emprego. Um trabalho voluntário, afinal, já é uma experiência de trabalho. Se você não tem algo assim para colocar no seu resumé, talvez valha ir atrás. Mesmo assim, esse tipo de experiência deve entrar no campo de “informações complementares”.

Por fim, esqueça aquele currículo com mais de uma página. Seja sucinto. As empresas não querem perder tempo lendo descrições enormes e que dizem pouca coisa.

5. Calibre seu LinkedIn

Ser ativo no LinkedIn não é só manter o perfil em dia. Aproveite a rede social para mostrar valores que sejam caros a você e, principalmente, às empresas. Preocupações ambientais ou demonstrações de apoio à inclusão e diversidade são bem vistas.

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Mas tome cuidado: fuja do efeito Facebook, de opinar sobre tudo. Provocações e lacrações ali até rendem seguidores, mas podem mostrar que você é uma pessoa difícil de lidar. Também não faz sentido florear sua trajetória, dizer que tudo o que você toca vira ouro. “Empresas querem um perfil atualizado, com um storytelling legal, mas sem exageros, que poderiam soar como desespero. O que se espera é que você consiga mostrar seu trabalho e um pouco da personalidade”, diz Fidelis, da Michael Page.

E não cuspa no prato em que comeu. Nem aplauda quem faz isso. Textos de ex-funcionários criticando antigas experiências costumam ser repositórios de likes, mas endossar posts como esses não vai pegar bem junto aos recrutadores.

Seja como for, LinkedIn sozinho não faz milagre. “O bom networking é orgânico, então é preciso pensar na imagem que você passa ao longo da vida. Você indicaria a si próprio para alguém?”, questiona Daniel Rodrigues, da consultoria de RH Robert Half.

Isso não significa ficar sentado esperando, claro. Se o seu networking orgânico não está funcionando, use o LinkedIn para correr atrás, mas de forma objetiva. Não faz sentido um candidato a analista adicionar e abordar um vice-presidente da empresa em que sonha trabalhar.

Busque quem pode lhe ser útil e, ao mandar sua mensagem, seja humano. Jamais use textos padronizados para dizer que está em busca de recolocação. Diga o que quer, por que quer e torça por uma resposta. Se ela não vier, nem pense em insistir. O silêncio do outro diz mais do que mil palavras. E, se os silêncios se tornarem uma constante, não baixe a cabeça. Aprimore a forma como você conta sua vida profissional nas entrevistas, aprenda algo que pode complementar sua formação, ajeite melhor o currículo e o LinkedIn. Esperamos que este texto lhe ajude com isso. E ficamos aqui na torcida para que tudo dê certo.

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