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Bolsonaro se aproxima de Centrão – e mercado assiste com cautela

Ibovespa seguiu NY e fechou com alta modesta. Ruídos políticos atrapalham, mas a expectativa de bons balanços na próxima semana mantém o otimismo dos investidores

Por Bruno Carbinatto 22 jul 2021, 18h25

“Eu sou do centrão”: a frase dita por Bolsonaro hoje (22) certamente não entrará para a história como “O Estado sou eu”, de Luís XIV, mas ajuda a entender o cenário político atual. É que, em meio a uma turbulência política em Brasília que às vezes repercute no mercado, o executivo parece ter entrado em harmonia com o legislativo, ainda que de forma frágil. O mercado, por ora, parece aprovar com cautela.

“Centrão”, aliás, é aquela jabutica na política brasileira: um bloco formado por partidos pouco ideológicos, geralmente colocados no centro ou centro-direita do espectro político, que ora joga num time, ora em outro. Com bases eleitorais bem consolidadas, esses deputados e senadores atuam nos bastidores para tecer acordos e aumentar sua influência no parlamento.

Bom, a questão é que, ame-o ou odeio-o, o centrão é uma força central na política brasileira (sem trocadilhos). Prova disso é que três partidos do grupo – PSL, DEM e PP – estão negociando se unir em uma nova sigla única, que seria a mais poderosa do Congresso, com 121 deputados e 15 senadores, noticiou hoje o site Poder 360. Em termos de comparação, o maior partido da Câmara atualmente é o PT, com 53 deputados. E o novo partido nem inclui todos os que comumente são enquadrados na categoria “centrão”.

Ontem, você sabe, Bolsonaro anunciou que pretende colocar um expoente do Centrão, Ciro Nogueira (PP) na Casa Civil, uma articulação que segundo Rodrigo Maia (ex-presidente da Câmara) sepulta o risco de impeachment de Bolsonaro.

Essa é a preocupação do presidente. Já o mercado está olhando para outra coisa. Qualquer legislação de impacto precisa da aprovação do centrão para ser aprovada – ainda mais reformas grandes e estruturais. E é por isso que a recente aproximação do Bolsonaro com o bloco dá um alento a investidores. 

Além da harmonia entre governo e centrão, o ministro Paulo Guedes falou hoje sobre a reforma tributária. Nada de realmente novo, mas em um dia fraco de pautas econômicas, serviu para justificar o sinal positivo na bolsa brasileira.

Calmaria no Ibov

O dia no Ibovespa foi bastante morno – abriu com um leve negativo, virou de tarde e fechou quase no 0 a 0: alta de apenas 0,17%, aos 126.146 pontos. Sem grandes emoções. Nem parece que a quinta-feira foi realmente tumultuada em Brasília.

É que a quinta-feira começou já com a chocante notícia que colocou os alicerces da democracia brasileira em xeque. Segundo o jornal Estadão, o ministro da Defesa Braga Netto teria enviado um recado a Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, avisando que ou a casa aprova o projeto de voto impresso, ou não haverá eleições em 2022. 

A declaração golpista foi posteriormente negada por Braga Netto, mas o Estadão reafirmou o conteúdo da sua reportagem. No Twitter, Lira nem negou, nem confirmou, mas reforçou que vão haver eleições ano que vem, sim senhor. Mas, se a Faria Lima se preocupou com o futuro da democracia brasileira, não deixou transparecer. 

Nos EUA

O Ibovespa até abriu no negativo nesta quinta-feira, mas não por causa da tal declaração golpista. Foi o mesmo movimento do S&P 500, o mais importante índice financeiro dos EUA. É que os investidores americanos começaram o dia receosos com um dado liberado semanalmente: o de novos pedidos de seguro-desemprego no país. 

O número registrado na semana passada (e divulgado hoje) foi de 419 mil novos desempregados, um aumento de 51 mil em relação à última atualização, quando o total de novos pedidos atingiu o menor patamar da pandemia. Pior: o aumento não era esperado pelo mercado, que projetava que o número ficasse estável.

Dados sobre desemprego, você deve saber, são hoje os mais preciosos para o mercado financeiro. Eles revelam a velocidade da tão desejada retomada econômica e mostram para os investidores se e onde vale a pena colocar grana. Enquanto o payroll (um relatório mensal completo sobre a situação do emprego nos EUA) não sai, os dados de novos pedidos de seguro emprego cumprem essa função.

A inesperada guinada negativa deu uma baixada no otimismo dos investidores, que vinham se permitindo correr mais riscos e recuperando as perdas da segunda-feira, quando as bolsas mundo afora derreteram com o medo da variante delta do coronavírus. 

Mas não foi o fim do mundo, é claro, e não durou nem até o meio da tarde. A retomada econômica não é uma linha perfeitamente reta, e os investidores ainda estão mais pro lado do otimismo do que pro pessimismo por enquanto. Para isso, eles se ancoram em outros dados igualmente importantes: o balanço das empresas. Estamos na temporada de divulgação dos números referentes ao segundo trimestre do ano, e prevalece o sentimento de que os balanços são predominantemente positivos, com bons lucros para gigantes do mercado. 

Hoje, por exemplo, o Twitter divulgou seu balanço reportando lucro líquido de US$ 66 milhões no segundo trimestre ante prejuízo de US$ 1,4 bilhão em igual período do ano passado. Todos os principais indicadores superaram as expectativas dos analistas, que já eram altas e ajudaram na subida (ainda que razovável) das big techs durante o dia.  As ações da rede social chegaram a subir 7% no after market. Outras techs, que devem divulgar seus balanços na semana que vem, fecharam em alta no pregão de hoje: Apple +0,87%, Alphabet +0,61%, Facebook +1,43% e Amazon +1,48%.

Bem, o resultado de tudo isso? As bolsas americanas fecharam com tímidas altas: S&P 500 +0,20%, Dow Jones +0,07% e Nasdaq +0,36%.

Fenômeno parecido acontece na Europa, cujo índice Stoxx 600 subiu 0,55% hoje. Entre as empresas que compõe a carteira e já divulgaram balanços corporativos, 61% tiveram resultados que superaram as previsões dos analistas, de acordo com a consultoria Refinitiv.

No Brasil, a temporada de balanços engrena mesmo a partir da semana que vem. É quando investidores vão ter ao menos uma justificativa para tirar o olho do risco político de Brasília. 

Maiores altas

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Locaweb: +5,49%

Marfrig: +3,34%

CSN: +3,19%

Totvs: +2,31%

Hypera: +2,29%

Maiores baixas

Banco Inter: -2,49%

Pão de Açúcar: -1,95%

IRB Brasil: -1,50%

Banco do Brasil: -1,48%

Azul: -1,33%

Ibovespa: alta de 0,17%, aos 126.146 pontos

Em NY:

S&P 500: alta de 0,20%, aos 4.367 pontos

Nasdaq: alta de 0,36%, aos 14.684 pontos

Dow Jones: alta de 0,07%, aos 34.823 pontos

Dólar: alta de 0,41%, a R$ 5,2130

Petróleo

Brent: alta de 2,16%, a US$ 73,79

WTI: alta de 2,29%, a US$ 71,91 

Minério de ferro: queda de 5,66%, a US$ 202,63 a tonelada no porto de Qingdao (China).

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