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Bolsonaro promete comunicado sobre combustíveis amanhã e derruba Ibov hoje

Não é a primeira vez que o presidente sugere interferir no campinho da Petrobras. E isso deixou o Brasil de fora da festa dos recordes em Nova York.

Por Monique Lima, Tássia Kastner 4 fev 2021, 20h20

O dia começou bom, com notícias animadoras para os investidores (já vamos falar delas). O Ibovespa estava em alta, chegou a superar os 120 mil pontos. Até que o presidente Jair Bolsonaro anunciou um plano misterioso para os preços dos combustíveis. Nada como uma sinalização que pode terminar em intervenção na Petrobras para estragar o dia, e o Ibov terminou em queda de 0,39%, a 119.260 pontos. 

Foi em um discurso durante um evento no Paraná que Bolsonaro prometeu “um comunicado sobre combustíveis” para esta sexta-feira (5). Sem dar detalhes sobre o que pretende fazer a respeito do tema, Bolsonaro aproveitou para mais uma vez atacar os impostos estaduais sobre os combustíveis. E, olha, essa notícia é velha. Há exatamente um ano, presidente e governadores travavam uma guerra pública sobre o mesmíssimo tema. 

Mas voltando ao dia de hoje, o que o presidente disse? “Temos que viver na base da previsibilidade. Se não, fica difícil de se programar. Essa questão de combustível tem que ser tratada dessa maneira.” 

O que o mercado entendeu? Que o governo quer interferir na política de preços da Petrobras. Não deu outra, o preço dos papéis começou a cair quase instantaneamente. 

Acontece que o resto do noticiário era um céu de brigadeiro para a empresa de óleo subir. Primeiro porque na terça-feira à noite (2), foi divulgado que a companhia atingiu seu maior recorde de produção desde 2015. Em meio a pandemia, a Petro teve uma produção diária de 2,28 milhões de barris de petróleo, frente 2,23 milhões há cinco anos. 

Não só, o ano também rendeu recorde em exportação. Uma alta de 33% em relação a 2019, somando 713 mil barris de petróleo vendidos por dia. E tudo foi divulgado em um relatório prévio, porque o balanço mesmo só chega dia 24 de fevereiro. 

Se você acha que é motivo suficiente para comemorar, tem mais. Os preços dos barris de petróleo voltaram a patamares anteriores à pandemia. Foram impulsionados principalmente pela redução nos estoques da commodity e da gasolina nos Estados Unidos. Isso agradou e o Safra elevou o preço-alvo da Petrobras de R$ 29 para R$ 40, uma valorização de 38%. 

Mas nada foi comemorado. O dia foi de grande volatilidade nos papéis da estatal, pelo medo de uma interferência do governo na empresa. Esse também é um repeteco de notícia. 

Lá em 2019, no começo do mandato, o presidente Bolsonaro solicitou que a companhia cancelasse um aumento no preço do diesel que já tinha sido anunciado. Naquele momento, Bolsonaro justificou que estava preocupado com os caminhoneiros e o transporte de carga do Brasil. “Nós queremos um preço justo para o óleo diesel”. A queda na cotação dos papéis no dia do cancelamento foi de 8%. 

A situação agora não é nada diferente. Estava marcada para segunda-feira uma greve de caminhoneiros em protesto ao aumento de preço do diesel. Que até aconteceu, porém com uma adesão tão baixa que passou despercebida. Serviu só para lembrar a todo mundo aquilo que nossos bolsos andam sentindo. Que, de fato, os combustíveis estão mais caros (e que se a greve não emplacou agora, não significa que não possa emplacar depois, se os preços continuarem subindo).

Estamos no segundo mês de 2021 e o acumulado de aumento somente neste ano é de 13% para a gasolina e 4,4% para o diesel. Isso nos valores para as refinarias. Porque o que é pago lá no posto de combustível fica à mercê do livre mercado. E ele ajuda a colocar Jair em apuros. 

É natural que cada região do país tenha um valor próprio de combustível. Quanto mais distante das refinarias, o valor tende a encarecer. Nessa brincadeira, o preço no Nordeste, por exemplo, está 6% mais caro do que em estados do Sul. 

Logo lá, a região em que o presidente mais caiu em aprovação depois do fim do auxílio emergencial, em dezembro, segundo o Poder 360. A pesquisa indica que a aprovação do presidente caiu 21% desde outubro de 2020 na região. 

Depois de tudo isso, parece coincidência o anúncio sobre medidas a respeito do preço dos combustíveis, mas é só estratégia mesmo, já que valores altos nesses produtos são motivo de rejeição ao chefe do Executivo desde sempre. 

Acabou que o fantasma da intervenção do governo assombrou outras estatais que já passaram pelo mesmo terror. Caso do Banco do Brasil, que recentemente quase viu seu CEO ser demitido por cumprir sua função: enxugar os custos da empresa. Queda de 0,41% hoje.  

Também atormentada está a Eletrobras, que há muito ouve sobre sua privatização que não chega nunca. Ela sim perdeu seu presidente Ferreira Júnior depois de o ex-presidente do Senado, Davi Alcolumbre, colocar em dúvida a concretização da privatização. Hoje caiu 1,44%. 

Já a Petro, que é a protagonista dessa história, conseguiu se equilibrar na corda bamba, mas com muletas estrangeiras: a alta nos preços dos barris lá no exterior ajudou. No fim, fechou em -0,10% (PETR4 e PETR3). 

Vale e outras histórias 

Outra empresa que viveu um dia esquizofrênico foi a Vale. Depois de dois anos, a companhia fechou um acordo com o governo de Minas Gerais sobre o melhor valor para reparar os danos sociais e ambientais provocados pelo rompimento da sua barragem em Brumadinho, em janeiro de 2019, que resultou na morte de 259 pessoas, sendo que 11 permanecem desaparecidas. 

O valor estabelecido prevê um gasto total de R$ 37,7 bilhões em projetos de reparação socioeconômica e socioambiental. E acabou saindo barato, porque o valor que o governo de Minas Gerais pediu inicialmente foi R$ 55 bilhões. 

Os bancos BTG e Itaú BBA viram a ação como positiva, por aplacar incertezas em relação à companhia e por concluir o episódio (é válido lembrar que esse acordo não isenta a empresa da reparação às famílias das vítimas). 

E o que aconteceu é o clássico compra no boato, cai no fato. Porque ontem, a Vale cresceu 3% em valor de papéis somente com a expectativa dessa resolução, mas hoje o fenômeno não se repetiu. A queda foi de 1,26%. Há quem diga que foi realização de lucros.  

Mas também houve subidas, com destaque para o Bradesco que divulgou seus números do quarto trimestre. Em relação ao mesmo período de 2019, a queda foi de 24,8%, graças ao efeito coronavírus, já esperado. 

A novidade foi o lucro do trimestre, inesperado para o período. Um valor de R$ 6,8 bilhões, muito acima do projetado pelo mercado (R$ 5,5 bilhões) e superando seus similares Itaú (R$ 5,38 bilhões) e Santander (R$ 3,9 bilhões). É a primeira vez que o Bradesco bate um lucro trimestral do Itaú desde que o laranjinha se juntou ao Unibanco, há mais de 20 anos.

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A surpresa rendeu o posto no Top 5 de maiores altas do Ibovespa. A valorização dos papéis foi de 3,07% (BBDC3) e 3,01% (BBDC4) .

Lá fora

Sim, a patacoada do presidente com os combustíveis deixou o Brasil mais uma vez de fora da festa dos recordes, que rola dia sim, dia não em Nova York. Hoje aconteceram novas máximas por lá:  S&P 500 ganhou 1,09%, aos 3.871,74 pontos e Nasdaq valorizou 1,23%, para 13.777,74 pontos. 

E as coisas estão entrando nos eixos depois da bagunça causada pelo fenômeno GameStop. As ações da varejista de games, que estavam a US$ 347,51 há uma semana, hoje fecharam a US$ 53,50. Parece que as sardinhas perderam o fôlego na caça aos tubarões de Wall Street.

 

MAIORES ALTAS 

Bradesco: 3,07%

CVC: 3,02%

Bradesco (pref): 3,01%

Braskem: 2,91%

BTG: 2,81%

 

MAIORES BAIXAS 

B2W: -4,48%

WEG: -3,50%

JHSF: -3,17%

Sabesp: -3,07%

YDUQS: -2.88%

 

Petróleo 

Brent: 0,65%, a US$ 58,84

WTI: 0,97%, a US$ 56,23 

Dólar: 1,47%, cotado a R$ 5,45

Minério de ferro: 3,52%, em Qingdao

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