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Bolsas têm dia xoxo à espera da Super Quarta dos juros

O BC daqui deve subir a Selic pela primeira vez de 2015. Nos EUA, investidores querem saber o que o Fed tem a dizer sobre a turbulência nos mercados.

Por Luciana Lima e Tássia Kastner 16 mar 2021, 19h35

O mercado financeiro tem o próprio fenômeno astrológico: a Super Quarta. Acontece quando bancos centrais se alinham e as reuniões que decidem as taxas de juros dos países ocorrem no mesmo dia. Amanhã será uma Super Quarta. 

Por aqui, o BC deve anunciar um aumento na taxa de juros do país após o fechamento do mercado. Será o primeiro desde 2015, quando o país estava em recessão. A aposta de consenso do mercado é uma alta de 0,50 ponto porcentual, o que elevaria a nossa Selic para 2,50% ao ano. Isso ainda é menos que a expectativa para a inflação neste ano, que ronda os 4,60%, de acordo com economistas ouvidos semanalmente pelo BC.  Por isso, a alta não deve parar por aí: ao fim do ano, o consenso do mercado é de Selic a 4,50%, o que tiraria o país do atual juro real (descontado a inflação) negativo para um juro zero. Ainda será uma Selic historicamente baixa para o Brasil.

Esse ciclo de alta da inflação vem desde a metade do ano passado, você que vai ao supermercado sabe. É fruto de uma combinação de programas de socorro à pandemia, disparada do dólar e a chamada desestabilização das cadeias de produtivas — nada mais do que a dificuldade de fazer chegar no Brasil matérias-primas vindas de diversas partes do mundo. O problema não é exclusivo do nosso país.

Só que a inflação, por enquanto, sim. A coisa anda tão zoneada por aqui que os preços sobem mesmo com uma crise econômica ainda bastante aguda e sinais erráticos de recuperação após a primeira onda da pandemia. O “normal” em uma crise é que o dinheiro seja escasso, afinal as pessoas estão desempregadas, e os preços não subam.

Isso torna essa reunião de juros do BC ainda mais especial. Explicamos. Essa é a primeira reunião do Copom (o comitê do BC que decide a taxa de juros) desde que o Congresso aprovou a autonomia do Banco Central. Nosso BC tem como missão zelar pelo controle da inflação, só que isso tem um preço: esfriar a economia. Quando ela já está morna, é terrível especialmente para o governo que conta com a recuperação para não perder popularidade. Por enquanto, a nossa situação é errática, dá uma amornada, para depois esfriar.

Nesta terça, o governo afirmou que foram gerados 260 mil empregos com carteira assinada em janeiro, o recorde para o período. O problema é que a metodologia de cálculo mudou há um ano e a base de comparação tem soado distorcida para economistas que acompanham o tema. Há um segundo problema: janeiro já é ano passado, dado o recrudescimento da pandemia e a necessidade de novas medidas de isolamento social para conter o vírus. Dados da Cielo de vendas no varejo indicam que o comércio encolheu mais de 10% em fevereiro, quando estados e municípios só começavam a restringir negócios para manter as pessoas em casa.

A tendência é que essas medidas, endurecidas nas últimas semanas e extremamente necessárias do ponto de vista sanitário, afinal, só hoje 2.842 pessoas morreram por causa da covid-19, afetem mais uma vez a atividade econômica. O que não significa que elas vão reduzir o ímpeto de alta da inflação, pelo contrário.

Em abril, vem a nova rodada de auxílio emergencial, ainda que raquítico (a maioria dos beneficiários vai contar com R$ 150 por mês, mais ou menos o preço do botijão de gás hoje). Só que ainda é dinheiro novo circulando, somado a um dólar forte e à alta dos custos de produção. O efeito inflacionário é inevitável.

A alta de juros, por sinal, é uma das apostas para conter a disparada da moeda americana. A perspectiva de aumento da Selic é um dos motivos que ajudou o dólar a fechar o dia em queda de 0,36%, a R$ 5,61. No acumulado de 2020, a moeda sobe 29,33%. 

E isso tem tudo a ver com os Estados Unidos, que forma a Super Quarta com a gente. O Fed (o BC dos EUA) anuncia a decisão sobre a taxa de juros do país no meio da tarde. Só que lá ninguém espera para agora um aumento, pelo contrário. A Selic americana deve continuar perto de zero por muito tempo ainda. (Isso pode nos ajudar, já que a diferença de juros pode atrair dinheiro estrangeiro em busca de uma rentabilidade maior por aqui e aí o dólar cede da estratosfera em que anda.)

A questão, para os americanos, é saber quanto é esse “muito tempo”. Há semanas, os mercados financeiros (o Brasil inclusive) passam por uma espécie de turbulência. Começou quando investidores dos EUA passaram a acreditar que esse muito tempo é um pouco mais curto e os juros de longo prazo passaram a subir.  Tudo a ver com a inflação.

Lá nos EUA, a escala de socorro financeiro às famílias não é na base da centena, mas do milhar. Começaram a chegar cheques de US$ 1.400, e isso que já estamos falando da terceira rodada de estímulos enquanto o país vacina em média 2 milhões de pessoas por dia. 

Economistas fizeram contas e passaram a achar que o dinheiro a mais somado à retomada da economia com mais gente imunizada levaria a uma corrida para gastar todo esse dinheiro e isso faria a inflação voltar com mais força. Lá a inflação é alta quando consegue superar os 2% ao ano. Até então, o Fed dizia que esse risco era menor do que o de não fazer nada e a economia continuar anêmica.

Por isso a Super Quarta é tão importante. Depois do anúncio sobre a taxa de juros, o presidente do Fed, Jerome Powell, concede entrevista. Investidores estão ansiosos pelos comentários de Powell sobre esse risco de alta da inflação (de novo) e a percepção do banqueiro sobre o sobe e desce nos juros futuros americanos. Hoje, o título americano com o vencimento para daqui dez anos fechou na máxima histórica, em alta de 1,61620%. 

Aí as bolsas recuaram: o Dow Jones caiu 0,39%, aos 32.825,95 pontos,  S&P 500, perdeu 0,16%, aos 3.962 pontos. Só o Nasdaq que terminou estável (+0,09%), aos 13.471 pontos. 

Por aqui, não foi diferente. O Ibovespa caiu 0,72%, aos 114.018 pontos. No pior momento do dia, ficou abaixo dos 114 mil pontos. Mas é preciso dizer que foi um dia relativamente fraco em negócios: giraram R$ 26 bilhões na B3 nesta terça, ante a média diária do ano de R$ 38 bilhões.

É como se os mercados tivessem tirado o dia para enfrentar um pequeno inferno astral, uma espécie de preparação para o alinhamento dos astros. Amanhã é um grande dia. Até lá.

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Maiores altas

Usiminas: 8,54%

Klabin: 4,37%

Braskem: 4,10%

RaiaDrograsil: 3,56%

Suzano: 3,29%

Maiores baixas

CVC: 7,45%

Gol: 6,35%

Azul: 6,18%

JHSF: 4,97%

Ezetec: 4,79%

Petróleo

WTI: -0,90%, cotado a US$ 64,80 o barril

Brent: -0,54, cotado a US$ 68,51 o barril

Minério de ferro: alta de 1,83%, cotado a US$ 166,32 a tonelada no porto de Qingdao (China). 

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