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Bolsa dá adeus aos 120 mil pontos e zera ganhos do ano

Não dá para colocar a culpa no exterior. O mundo pode estar caótico com a crise no Afeganistão e avanço da variante delta do coronavírus. Só que mesmo assim, o S&P 500 renovou recorde.

Por Tássia Kastner Atualizado em 16 ago 2021, 19h23 - Publicado em 16 ago 2021, 18h55
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O mundo passou o dia acompanhando imagens de pessoas escalando aviões, uma tentativa desesperada de deixar o Afeganistão após a volta do Taleban ao poder. Sozinho, o Afeganistão não causaria um tombo generalizado nos mercados financeiros, mas o caos contribui para disseminar pessimismo em um mundo preocupado com os efeitos da variante delta do coronavírus. 

A segunda foi terrível mundo afora, e o Brasil, mergulhado em problemas domésticos, foi ainda mais fundo. O Ibovespa perdeu o patamar simbólico de 120 mil pontos, algo que não ocorria desde maio. No pior momento do dia, o índice chegou a afundar na faixa dos 118 mil pontos, para depois encerrar em baixa de 1,66%, a 119.180 pontos. Por hoje, o investidor fica só no zero a zero em 2021, com um “ganho” acumulado de +0,14%. O estrago hoje só não foi pior porque Nova York, ironicamente, foi a exceção capaz de fechar no azul. Falaremos disso mais abaixo.

Juro na lua

Por enquanto, foco no Brasil. Nada é capaz de aliviar a barra de investidores, frustrados com o plano do governo de parcelar pagamentos de precatórios (as dívidas que a União tem e que não poderiam mais ser adiadas) e enrolado com a tal reforma do IR. O fato é que investidores enxergam o plano dos precatórios como uma estratégia para tirar os precatórios do teto de gastos e liberar aumento de despesas, como o Bolsa Família turbinado.

A preocupação com um rombo nas contas públicas é tanta que os contratos de juros futuros negociados na B3 dispararam. Os juros futuros são uma aposta que o mercado faz sobre o futuro do DI (que, por sua vez, é a taxa que os bancos cobram para emprestar uns aos outros, e que segue de perto a Selic). O lance é que essa taxa também é referência para a remuneração dos títulos públicos de longo prazo. 

E investidores estão cobrando cada vez mais caro para financiar o governo. O contrato de DI para 2027 fechou  em 10,020%, a maior taxa desde dezembro de 2018. Na semana passada, investidores cobravam 10% para prazos acima de 10 anos.

E de fato, a Selic deve continuar escalando. Economistas ouvidos pelo Banco Central esperam que a taxa básica de juros termine o ano em 7,50%, uma escalada de 5,5 pontos percentuais no ano. Isso tudo para conter a inflação, que ronda os 9% ao ano.

Na semana passada, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, disse que é “impossível para qualquer BC segurar expectativas com o fiscal descontrolado”. É aí que entra a alta cavalar nos juros para deixar o dinheiro mais caro. Assim, só o governo continua gastando.

Só que isso é péssimo para a bolsa. Com juro alto, investidor nenhum precisa se arriscar na bolsa em busca de rentabilidade maior para o seu dinheiro. Na verdade, o mais provável é que as empresas nem consigam entregar essa rentabilidade mais polpuda que a Selic, já que investir para crescer fica mais caro.

Nisso, o dinheiro das empresas é drenado e a bolsa cai. Um dado importante do pregão desta segunda foi o grande volume de negócios: R$ 34 bilhões. Está em linha com a média do ano, mas trata-se de uma média turbinada pelo maior giro registrado nos primeiros meses de 2021.

Por dentro do tombo

Das 84 ações do Ibovespa, 67 caíram. A maior baixa foi da CVC, que divulgou hoje um prejuízo de R$ 175,5 milhões no segundo trimestre. O resultado negativo foi atribuído à segunda onda da pandemia no Brasil, em março e abril. A empresa se disse otimista, porém, com as perspectivas para o segundo semestre e para o próximo ano. Investidores se ativeram ao passado ruim.

E olha que a vacinação está avançando firme no país, a ponto de o governador João Doria (SP) anunciar o fim das restrições de funcionamento de comércio e serviços no Estado. A vacinação com duas doses alcança pouco mais de 20% da população do país.

A segunda maior queda do dia foi a Embraer.  Na sexta, a empresa havia saltado mais de 7% e soma valorização de 135% no ano. Aí dá para entender a queda de hoje. Em geral, a empresa passa por um bom momento com o anúncio do seu eVTOL, mas está inserida em um cenário ainda desafiador, com o avanço da variante delta do coronavírus.

China 

Tanto que o motivo real da queda das bolsas mundo afora. A segunda maior economia do mundo divulgou dados abaixo do esperado para a produção industrial e vendas no varejo. O país também está com dificuldades de conter a variante delta, e medidas de isolamento pesam sobre a atividade econômica.

EUA

E isso pesou também sobre as bolsas americanas – mas só até o começo da tarde. O S&P 500 não só virou o sinal como bateu recorde e ainda alcançou mais uma marca simbólica: dobrou de tamanho desde o vale da pandemia, em março de 2020. 

Não houve uma justificativa muito concreta para a virada de sinal, quase isolada em comparação com o mundo. Quem puxou a alta foi a Apple, seguida por ações do setor de saúde. Lá, os laboratórios submeteram ao FDA (uma espécie de Anvisa deles) a documentação para que possa ser aplicada uma terceira dose de vacina da Covid como reforço.

Só o Nasdaq não teve força para virar, culpa da Tesla, que tombou mais de 4%.  A montadora será investigada por acidentes causados pelo sistema de piloto automático de seus carros.

Com um dia tão sombrio, não custa lembrar. Mercado tem todo dia, e nem todos são tristes e difíceis como o de hoje. Até amanhã.

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MAIORES ALTAS

Qualicorp +3,85%

CPFL +1,74%

Bradespar +1,21%

Vivo +1,19%

Ultrapar +1,15%

MAIORES QUEDAS

CVC Brasil -9,25%

Embraer -6,54%

VIA (ex-Via Varejo) -6,10%

Cogna -5,72%

Lojas Americanas -5,70%

Ibovespa: queda de 1,66%, a 119.180,03 pontos

Em Nova York

Dow Jones: +0,31%, a 35.624,35 pontos

S&P 500: +0,26%, a 4.479,66 pontos

Nasdaq: -0,20%, a 14.793,76 pontos

Dólar: +0,68%, a R$ 5,2807 pontos

Petróleo

Brent: -1,30%, a US$ 69,67

WTI: -1,52%, a US$ 67,40

Minério de Ferro

+0,89%, a US$ 163,52 a tonelada no porto de Qingdao.

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