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Balanço do Itaú leva um balde de água fria dos analistas, e ajuda a derrubar o Ibovespa

Mas não foi só isso. A queda das big techs lá fora segue firme, mesmo com lucros recordes. E agora?

Por Guilherme Eler, Alexandre Versignassi e Tássia Kastner 4 Maio 2021, 19h08

O importante é “ser”, não “parecer” diz uma daquelas frases feitas que você já deve ter visto como legenda no Instagram. E o balanço divulgado pelo Itaú na última segunda-feira (3) à noite é a prova disso. O relatório financeiro do banco azul e laranja indica lucro líquido de quase R$ 6,4 bilhões nos primeiros três meses de 2021. É uma alta de 64% em comparação ao mesmo período do ano passado. O valor supera com larga margem a expectativa média dos analistas consultados pela Bloomberg, que previam ganhos de R$ 5,7 bi. Mas nada disso foi suficiente para empolgar o mercado.

Para analistas do Credit Suisse, do Citi e da XP o resultado só pareceu bom, quando na verdade não era.

O que pegou foi a insegurança em relação aos números. No jargão dos investidores, os resultados foram fruto de “fatores não recorrentes” e, assim, há dúvidas se é possível que o banco mantenha o bom desempenho. É como se o Itaú tivesse gritado “Truco!” e o mercado tivesse escolhido pagar para ver.O tal “fator não recorrente” em questão é o seguinte. Uma parte considerável do crescimento do Itaú no período teria vindo de ganhos pontuais, extraordinários. 

Boa parte dos ganhos veio de operações feitas pela tesouraria com moeda estrangeira. Isso é algo que os bancos fazem normalmente para proteger seu caixa, mas que eventualmente pode resultar em lucros anormais – ou seja, não-recorrentes. Os analistas da XP apontam que esses ganhos vieram US$ 1,3 bilhão acima daquilo que eles previam.   

Era para ser uma notícia boa, claro, é mais lucro que o esperado. O lance é que esse numerão mascarou outros pontos em que o banco não foi tão bem no trimestre. 

Primeiro: a principal fonte de receita do banco vem do que ele ganha emprestando dinheiro para pessoas ou empresas, isso é chamado de margem com o cliente. Essa fonte de receita, R$ 16,2 bilhões, caiu na comparação com o primeiro trimestre de 2020 e avançou apenas 1% ante o último trimestre do ano passado. 

Outro lugar que o banco ganha muito dinheiro é com prestação de serviços – ou seja, as tarifas que ele cobra. Foram R$ 9,6 bilhões. Só que esse número é menor do que o arrecadado no quarto trimestre do ano passado e estável quando comparado com o começo de 2020. O banco perdeu receitas com cartão de crédito (inclusive maquininha) e conta-corrente, já que cada vez menos gente topa pagar para ter conta em banco.

Isso jogou aquele balde de água fria nos investidores. E as ações do Itaú, que chegaram a ensaiar uma alta de 1,61% no início do dia, fecharam no chão. Queda de 4,27%. Taí um balanço que não foi feito para você, acionista do Itaú. 

E o resultado ajudou o Ibovespa a fechar em vermelhos -1,26%, já que também tragou outros bancos para o fundo do poço. Caso do BTG Pactual, (-3,88%), do Bradesco (-3,03%) e do Banco Inter (-7,69%), maior queda do dia. 

Nasdaq no buraco

Mas não. Não foram só os bancos que derrubaram o Ibovespa hoje. Os EUA deram uma senhora contribuição para alavancar o mau humor nos mercados de capitais. As perdas mais expressivas rolaram na Nasdaq, a bolsa das empresas de tecnologia: -1,88% – maior baixa no índice desde março. Gigantes do Vale do Silício, como a Apple e a NVIDIA, caíram mais de 4%. No caso da Amazon e da Tesla, as perdas ultrapassaram os 3%. Microsoft, Alphabet e Facebook também apresentaram entre 2% e 3% de queda. O tombo foi generalizado: apenas 10 empresas listadas na Nasdaq-100, que reúne as 100 maiores empresas não-financeiras dos EUA, terminaram no positivo.

O ritmo das vendas de papéis de tecnologia se acentuou após as declarações da secretária do Tesouro americano, Janet Yellen. Segundo Yellen, é possível que os juros precisem aumentar modestamente para evitar o superaquecimento da economia. Essa declaração caiu como uma bomba no colo de empresas do setor. 

Tudo porque é comum que companhias de tecnologia, especialmente as de porte pequeno e médio, ainda não sejam lucrativas, e planejem sair do vermelho tão logo possível para acalmar os investidores. Com mais juros, fica mais difícil tirar do papel o sonho da rentabilidade.O fato é que, ainda que as perdas de hoje tenham vindo maiores que a encomenda, o saldo de 2021 ainda é bastante positivo. Como destaca o site The Motley Fool, o crescimento da Nasdaq é de 5% em 2021, algo notório, já que o ano de 2020 também havia sido excelente para esse índice: alta de 42%. 

“Quando o maior crescimento de ganhos desde 2010 faz o mercado bocejar fica bem claro que o que está precificado é a perfeição”, disse Hilary Kramer, analista-chefe de investimentos da Kramer Capital Research, ao Yahoo Finance. Ou seja: os preços das ações nos EUA já estariam num patamar tão alto que nem os melhores balanços divulgados em uma década são capazes de mover os preços para cima. Pior: acabam movendo-os para baixo.         

“Embora não exista nenhum sinal de que é hora de vender, também não há nenhuma razão imediata para comprar. Esta é uma ótima oportunidade para rever posições, fazer ajustes e ficar de mansinho nos próximos meses”, completa Hillary.  

Fica a dica. Ou não – bolas de cristal costumam ter sempre mesmo grau de eficiência, seja nas previsões otimistas, seja nas pessimistas 😉 

Maiores altas

PetroRio: 3,70%

Fleury: 2,55%

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JBS: 2,42%

Qualicorp: 2,41%

Marfrig: 2,23%

Maiores baixas

Banco Inter: -7,69%

Locaweb: -5,13%

Eletrobras (ELET6): -4,58%

Itaú: -4,27%

Eletrobras (ELET3): -4,24%

Ibovespa: -1,26%, aos 117.712 pontos

Em NY:

S&P 500:  -0,66%, aos 4.165 pontos

Nasdaq: -1,88%, aos 13.633 pontos

Dow Jones: 0,06%, aos 34.134 pontos

Dólar: estável, em 0,22%, a R$ 5,43

Petróleo

Brent: 1,95%, a US$ 68,88

WTI: 1,86%, a US$ 65,69

Minério de ferro: Feriado na China, não houve negócios no porto de Qingdao, a referência global no preço do minério.

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