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Alta nas bolsas: não é euforia, é volatilidade

O "mercado" é um agente tão irracional quanto o vírus. E a subida de hoje é só mais um capítulo num filme de suspense que talvez ainda guarde alguns plot twists.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 20 jul 2021, 17h39 - Publicado em 20 jul 2021, 17h22

 

“Mercado”. Poucos termos são ao mesmo tempo tão populares e tão vagos. O mercado é algo etéreo. Não se trata de uma entidade concreta, mas de uma tendência. 

O mercado não tem uma opinião. Ele é a média das opiniões – da sua, da minha, da do Goldman Sachs, ou seja, da de todo mudo que investe, seja lá no que for. 

Essa média de opiniões se materializa na forma de números. Bolsas em baixa, “ah, o mercado está preocupado”; bolsas em alta “eba, mercado feliz”. É disso que o noticiário do mercado financeiro é feito. E, entre nós, não tem como ser diferente.

Mas às vezes beira o ridículo. É o que está acontecendo neste momento. Ontem, as bolsas do mundo todo passaram por um sell off – um momento em que muita gente decide vender suas ações, pois não acredita que elas vão subir muito mais. Quando isso acontece, a relação entre oferta e demanda desequilibra. Com muito de uma e pouco da outra, os preços caem.

É normal acontecerem sell offs sem motivo. Em 19 de outubro de 1987, o S&P 500, principal índice das bolsas americanas, caiu 20% – um absurdo, equivalente ao crash de 1929. Motivo? Zero motivo. Caiu porque caiu. Bateu um efeito manada ali. O pessoal passou a vender porque todo mundo estava vendendo, e todo mundo estava vendendo porque o que pessoal tinha passado a vender. Chegou uma hora em que ninguém mais estava comprando, e os preços foram para o chão.

O sell off de ontem não foi tudo isso – queda de menos de 2% nos EUA e por aqui. De qualquer forma, o motivo era detectável: o aumento brutal nos casos de Covid, por conta da variante delta. No vacinado Reino Unido, o número se aproxima do recorde de toda a pandemia. Ou seja: bateu no mercado o medo de novos lockdowns. E muita gente decidiu vender seus ativos de risco (ações) enquanto era tempo. 

Mas… havia um detalhe. A quantidade de mortes nem de longe se aproxima. Eram 1.200 por dia no auge deles. Agora, com uma quantidade semelhante de novos casos por dia (45 mil), são 40. É uma amostra de que as vacinas funcionam. Ponto. Tanto que essa mesma observação finalizava esta coluna de fechamento de mercado ontem. 

Então veio o dia de hoje e… surpresa: as bolsas fecharam em alta. 1,52% para o S&P 500 e 0,81% para o Ibovespa. 

O motivo? Um estrategista de mercado, Arthur Hogan, deu seu chute para a Bloomberg: “É seguro dizer que há pouco apetite por novas medidas restritivas, e a variante delta não tem se mostrado severa em pessoas vacinadas, o que mantém os níveis de mortalidade baixos”.

A análise de Hogan faz sentido, e provavelmente é mesmo o que motivou a alta de hoje. Mas nada disso significa que “o mercado agora está tranquilo”. Movimentos fortes de baixa seguidos por altas igualmente relevantes não são um sinal de estabilidade, mas de volatilidade. O “mercado” segue sem uma direção definida, como não poderia deixar de ser quando o maior agente definidor dos preços deixa de ser os fundamentos das empresas, mas as mutações imprevisíveis de um agente biológico.

Embraer e Gol

Uma das grandes altas de hoje foi uma correção clássica. A Embraer tinha caído 12% desde a última terça (13 de julho). Motivo? O óbvio: receio de que as companhias aéreas voltem às vacas magras com a ascensão da variante delta, e a fabricante de aviões fique sem clientes. 

A Embraer, porém, vive um momento particularmente bom. Fechou no dia 12 de julho sua maior encomenda de jatos da série E2. Foram 30 pedidos pelo E-195 E2, o maior e mais moderno jato da empresa, pela Porter, uma aérea do Canadá. Um mês antes, veio a notícia de uma possível abertura de capital da EVE, a subsidiária da Embraer dedicada a viabilizar um eVTOL (“veículo elétrico de pouso e decolagem vertical”), um nicho particularmente promissor de mercado, que pode representar uma virada de jogo para a fabricante de aeronaves.

Com tudo isso no radar, nosso amigo mercado começou a achar aquela queda lá de 12% um tanto exagerada. E a Embraer acabou tendo uma terça feira gorda: alta de 5,66%. É o que acontece em tempos voláteis.    

Ainda no mundo aéreo: a Gol se recuperou do baque pandêmico de ontem, quando tinha tombado 3,61%. Alta de 3,46%. 

JBS e Marfrig

A dupla de frigoríficos também marcou presença entre as maiores altas do dia. De um lado, teve uma recomendação de compra de JBS por parte da Bank of America. O banco americano concluiu que a empresa deve sofrer pouco em “caso de La Niña”.

La Niña é o fenômeno meteorológico oposto ao El Niño. Enquanto o “menino” consiste num aquecimento anormal das águas do Pacífico, a menina é um resfriamento. Há grandes chances de que o fenômeno, pouco previsível, aconteça no segundo semestre, e machuque as safras brasileiras de soja e milho. Isso deixaria o preço da ração (ainda) mais caro, aumentando o preço da matéria prima dos frigoríficos, que são os bois vivos.  

O BoFa disse que, como a JBS concentra sua produção nos EUA, eles têm uma boa chance de sofrer pouco com isso, caso role mesmo um La Niña. Isso fez com que a JBS subisse 1% ontem, mesmo em meio a uma queda generalizada no Ibovespa. E hoje, com o mercado “feliz”, ela subiu mais que o foguete do Bezos: +6,69%.

O BoFa não recomendou a Marfrig, que também produz muito nos EUA e tem boa parte do seu faturamento em dólar. Talvez pela exposição dela aos resultados da BRF, agora que a Marfrig é a maior acionista dela. A ex-Sadia e ex-Perdigão, afinal, só produz no Brasil. Mesmo assim, a empresa de Marcos Molina pegou carona na alta da concorrente: +4,24%.

Pesa a favor de ambas o dólar seguir num patamar elevado – apesar de ter caído hoje, num dia em que o mercado “decidiu” não esquentar tanto a cabeça com a pandemia.     

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Maiores altas

JBS: 6,69%

Embraer: 5,66%

Lojas Americanas: 5,44%

Marfrig: 4,24%

Gol: 3,46%

Maiores baixas

Hapvida: – 3,02%

Intermédica: – 2,36% 

MRV: – 1,93%

Eztec: – 1,88%

Hypera: – 0,88%

Ibovespa: 0,81%, a 125.401 pontos 

Em Nova York

S&P 500: alta de 1,52%, aos 4.323 pontos

Nasdaq: alta de 1,57%, aos 14.498

Dow Jones: alta de 1,62%, aos 34.511 pontos

Dólar: baixa de 0,37%, a R$ 5,2311

Petróleo

Brent: alta de 1,06%, a US$ 69,35

WTI: alta de 1,28%, a US$ 67,20

Minério de ferro:  sem negociações no porto de Qingdao (China), devido a feriado local

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