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A prisão do parlamentar bolsonarista explica a queda do Ibovespa?

Não, claro que não. A explicação está na alta dos juros de longo prazo nos EUA.

Por Tássia Kastner Atualizado em 18 fev 2021, 22h12 - Publicado em 18 fev 2021, 19h49

A prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira, por decisão do Supremo Tribunal Federal, não é uma notícia econômica e não deveria fazer o Ibovespa cair. Não fez, claro que não. Mas nem por isso dá para deixá-la de fora da explicação sobre esta quinta-feira (18) azeda no mercado financeiro.

É que quando se passam alguns dias sem um grande acontecimento econômico, investidores começam a juntar histórias como num quebra-cabeças para explicar por que a bolsa subiu ou caiu. 

Tá bem, como isso chega na prisão? Daniel Silveira foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, depois que o parlamentar publicou um vídeo com ataques aos ministros do Supremo. O ponto é que a prisão de um deputado precisa ser confirmada pela Câmara. E isso significa que agora seus colegas estão mais ocupados com questões políticas do que com a pauta econômica, aquela que é considerada prioritária para a Faria Lima.

O julgamento já foi marcado para esta sexta e, enquanto esse debate ocorria, a equipe econômica e o Congresso chegaram a um acordo para votar reformas com corte de gastos para pagar a nova leva do auxílio emergencial. A agenda será tocada inicialmente pelo Senado e haverá a junção de propostas que haviam sido encaminhadas há um ano pelo ministro Paulo Guedes (Economia).

Essa até é uma boa notícia para o mercado financeiro. Mas tendo que juntar tantas pequenas peças, investidores ficaram com a notícia ruim mesmo. O Ibovespa, que recuou 0,96%, para 119.198 pontos.

Mas é claro que não foi só isso. É que nos EUA também foi dia de juntar notícias ruins, o que quase sempre termina derrubando junto o Ibov.

O gatilho lá foi, mais uma vez, os dados de emprego. Cresceram os pedidos de seguro-desemprego justamente quando analistas contavam que a recuperação econômica já andava um pouco mais firme. A solução para isso seria a liberação do tão falado pacote de US$ 1,9 trilhão em socorro à economia dos EUA. O problema é que agora os investidores não gostam mais tanto dessa saída.

Agora eles temem que esse excesso de dinheiro se converta em inflação. Veja bem, o risco sempre existiu. Quanto mais dinheiro tem circulando pela economia, menos ele vale. Portanto, as coisas ficam mais caras. E o que mais se faz nos Estados Unidos (no globo todo, na verdade) desde março do ano passado é imprimir dinheiro. Natural, era para evitar o colapso econômico depois que o coronavírus foi reconhecido como uma pandemia.

Se a economia está moribunda, a tendência é que todo esse dinheiro seja o suficiente apenas para que o paciente saia da UTI. Mas se ele já está no quarto e em recuperação, poderia causar uma nova doença. Como pegar uma infecção hospitalar por tempo demais em internação.

Enquanto isso, dá para medir a febre do paciente: os juros dos títulos públicos americanos de 10 anos se aproximaram então perto das máximas em um ano. O que isso significa? Que investidores apostam na alta da inflação e dizem esperar que o Fed (o banco central americano) será obrigado a subir os juros para contê-la. Esse juro maior no título público não é nada que brasileiro chamaria de alto, coisa de 1,31%, mas já é bem mais que o juro zero de hoje.

E essa diferença muda o jogo todo na bolsa de valores. É que a alta das ações lá nos Estados Unidos é um resultado do juro baixo e desse caminhão de dinheiro despejado na economia. Com tanto dólar circulando, compra-se qualquer coisa para fazê-lo render um tiquinho que seja. A primeira parada são as ações de empresas. Em um ano, o S&P 500 acumula valorização de 16%, e o índice de tecnologia Nasdaq avança impressionantes 42,46%.

Com o juro um pouquinho maior, a conta começa a mudar. Aí o mercado financeiro começa a achar que as ações subiram um pouco demais. Quem puxou a queda nos últimos dias foram as big techs. Hoje, foi o WalMart. O maior empregador dos Estados Unidos anunciou que dará aumento a seus funcionários, onde já se viu? (risos).

Num dia mais animado, nada disso estaria detalhado em um Fechamento de Mercado. É técnico e chato, vamos combinar. Mas é assim mesmo, um grande quebra-cabeças para justificar a baixa das bolsas.

O S&P 500 cedeu 0,44% e fechou a 3.914 pontos. A Nasdaq recuou 0,72%, para 13.865 pontos.

Mas na sexta, tudo pode mudar de novo. Basta o mercado escolher peças mais bonitinhas no quebra-cabeça do noticiário.

 

MAIORES ALTAS

JHSF +3,78%

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Suzano +2,28%

Klabin +1,47%

Carrefour +2,33%

PetroRio +1,49%

 

MAIORES QUEDAS

Minerva -4,37%

B2W: -3,91%

TIM: -3,67%

Notre Dame Intermédica: -3,34%

Copel: -3,12%

Dólar

+0,48%, a R$ 5,4410

Petróleo

WTI: -1,01%, a US$ 60,52

Brent: -1,26%, a US$ 63,53

Minério de Ferro

+4,90%, a US$ 175,05 a tonelada no porto de Qingdao

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