Brasileiros andam gastando em apostas quase o mesmo que gastam em aplicações financeiras
Nova pesquisa mostra que investimentos tradicionais estão perdendo espaço até para esquemas de pirâmide. E as bets têm, naturalmente, tudo a ver com isso.

s apostas significativas mudaram – e muito – as dinâmicas sociais e financeiras do Brasil nos últimos anos. Desde a legalização das bets no país, cinco anos atrás, o país viu o número das casas de apostas explodirem. E a quantidade de grana injetada nelas também: os brasileiros gastam R$ 21 bilhões ao mês com as apostas esportivas online.
Desde 2018, estima-se que US$ 280 bilhões tenham entrado nestas plataformas. E, hoje, mais de 22 milhões de brasileiros (14%) fazem uso delas. Para referência: 8 milhões de pessoas (5%) investem em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) e 4 milhões de pessoas (2%) investem na bolsa.
É o que mostra uma nova pesquisa feita pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em parceria com a FGV-EBAPE, divulgada em fevereiro deste ano.
Segundo o levantamento, brasileiros estão investindo valores semelhantes em jogos de aposta e, consequentemente, em esquemas de pirâmide do que em investimentos financeiros tradicionais. Mais: não há distinção entre um e outro. É como se a alocação de recursos servisse o mesmo propósito. Nesse caso, ganhar um dinheiro rápido durante o período de necessidade (40%) e pela chance de ganhar um retorno alto (39%).
A pesquisa colheu 970 respostas entre 2023 e 2024. A maioria dos participantes eram homens com ensino superior completo e renda média superior a R$ 19.393 (na época da coleta, o equivalente a mais de 16 salários mínimos). Quase 70% dos participantes tinham entre 31 e 54 anos.
Insights da pesquisa
Além destas informações, a pesquisa também mostrou que pessoas que estão expostas a propagandas de sites de apostas na TV, internet e eventos têm mais tendência a investir em esquemas de pirâmide. Trocando em miúdos: esse tipo de publicidade tem influenciado indivíduos a cair em aplicações fraudulentas.
O estudo também destaca a educação financeira como antídoto essencial a esse problema. Mesmo indivíduos extremamente autoconfiantes e impulsivos eram menos vulneráveis a caírem nesse tipo de enrascada quando tinham uma proficiência básica na chamada “literacia financeira” – vide entender como o mercado funciona, ter algum senso crítico sobre a dinâmica Risco x Retorno e por aí vai.
“Essas percepções podem orientar esforços educacionais voltados para o fortalecimento da literacia financeira entre o público em geral, capacitando os indivíduos a tomarem decisões de investimento informadas e prudentes”, escrevem os autores do estudo.
Investimentos tradicionais for the win
Quando a intenção é conseguir uma renda extra, Renan Diego, consultor financeiro e especialista em finanças pessoais e investimento, defende que as apostas são uma armadilha. “Os jogos de azar seguem o modelo ‘tudo ou nada’, que levam uma pessoa ao endividamento de uma forma muito rápida”, diz o consultor.
“Existe um caminho para você conseguir ter mais independência, liberdade, segurança. Mas esse caminho não é rápido, além de depender da quantidade de dinheiro que você tem” complementa.
Nesta linha, o primeiro conselho do profissional é calibrar as expectativas. Investir é como plantar uma semente: devagar e sempre, você constroi algo sólido e duradouro. Mas isso demanda paciência e, sobretudo, tempo.
A boa notícia é que o momento é propício. Com a taxa básica de juros da economia (a famigerada Selic) a 14,25% ao ano, os investimentos em Renda Fixa, Tesouro Direto e CDBs estão pagando mais que 1% de elevado percentual. Segundo Renan, é possível utilizar uma baixa quantia em investimentos tradicionais e mais seguros, como o Tesouro Direto, que pode ser feito a partir de R$ 30. Ele também pontua que atualmente há diversos CDBs de bancos digitais, com liquidez diária que oferecem 100% do CDI (com a possibilidade de retirar a quantia a qualquer momento).
Olhando para a renda variável, Diego também ressalta o investimento em fundos imobiliários, que podem ser feitos com R$ 100. “Investir nas próprias ações de empresas, preferencialmente as que já estão consolidadas no mercado, de bons setores e que pagam bons dividendos, também pode ser benéfico e trazer um retorno positivo”, afirma.
Renan lembra que os jogos de azar acabam virando um vício para diversos brasileiros, dificultando o processo de parar de apostar. Por isso, caso isso esteja acontecendo com você, é essencial procurar uma ajuda com um profissional de saúde.
“A única forma de se recuperar desse endividamento é parando totalmente de usar as bets e iniciar um planejamento financeiro, já que ajudará a mapear quais são débitos que aquela pessoa tem, os prazos de quitação e identificar as taxas de juros que foram geradas. Dessa forma, será possível criar uma estratégia para sair do vermelho”, finaliza. Para sair dessa lama, vale a leitura desta reportagem da Você S/A.