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Carreira

“Quando recebia uma promoção, ouvia que era por eu ser jovem e bonita”

À frente de um time 90% masculino, a engenheira Tatiana Abreu entrou para a história ao se tornar a primeira diretora de uma área industrial da ArcelorMittal Brasil. A seguir, a executiva conta os desafios de ser mulher e trilhar uma carreira no aço.

Texto: Luciana Lima | Fotos: Marcelo Correa | Design: Laís Zanocco

99 anos. Esse foi o tempo que levou para uma mulher assumir o comando de uma fábrica da companhia siderúrgica ArcelorMittal no Brasil – e na América Latina inteira, diga-se. A responsável é a engenheira Tatiana Nolasco Abreu, de 40 anos, que, em agosto de 2020, foi nomeada diretora das plantas industriais de Barra Mansa e Resende, no Rio de Janeiro.

“Foi uma quebra de paradigma muito grande. Depois que anunciaram a minha promoção, recebi dezenas de mensagens de apoio, reconhecimento e satisfação de outras mulheres – inclusive de fora da ArcelorMittal. Foi aí que tive noção do quanto essa conquista representa”, afirma Tatiana. Coincidência ou não, a Gerdau também promoveu, em novembro, sua primeira mulher para o comando de uma divisão industrial: a engenheira Michelle Robert, 43.

A primeira vez que Tatiana Abreu pisou na fábrica de Barra Mansa foi aos 19 anos, como estagiária, e desde então nunca mais saiu. Na época, as unidades fabris, capazes de produzir 1 milhão de toneladas de aço, pertenciam ao Grupo Votorantim. Em 2017, as operações de siderurgia da família Moraes foram vendidas para a ArcelorMittal, o maior grupo siderúrgico do mundo – que na prática opera no Brasil desde 1921, quando a belga-luxemburguesa Arbed, hoje parte da multinacional, instalou-se no país.

A companhia conta com 17 mil funcionários por aqui e atua tanto na siderurgia como na mineração, fornecendo aço para a indústria automotiva, de eletrodomésticos, construção civil e de embalagens. No ano passado, a ArcelorMittal Brasil produziu 10,4 milhões de barras de aço e lucrou R$ 1 bilhão.

Lá em 2017, o processo de criação da gigante em sua forma atual passou por um longo escrutínio do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que só aprovou a compra um ano depois. Além disso, o órgão exigiu que a ArcelorMittal se desfizesse de unidades no Espírito Santo e Minas Gerais.

Durante o período turbulento da aquisição, muitos colegas de Tatiana deixaram a companhia. Mas a executiva não desanimou. “Eu sabia que passar pela fusão me traria bastante crescimento profissional.”

Sem finais de semana

A persistência é uma marca da trajetória de Tatiana. E ajuda a explicar como ela driblou os desafios de estar em um ramo majoritariamente masculino. Para você ter uma ideia do cenário: a indústria siderúrgica emprega 112 mil pessoas. Só 9% são mulheres. Dos 800 funcionários que Tatiana passou a comandar, em agosto, 90% são homens. “Me acostumei a ser a mais jovem e a única mulher em todos os espaços.”

Carioca de Niterói, Tatiana é filha de um funcionário público e de uma professora de português. Mais velha de três irmãs, saiu de casa aos 17 e se mudou para Resende para cursar Engenharia de Produção na UERJ. “Sabia que meus pais não teriam condições financeiras de arcar com três mensalidades de faculdades privadas, e que teria de estudar muito para passar em uma universidade pública.”

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Tatiana concluiu a graduação de Engenharia em apenas quatro anos – o curso demora cinco. Chegou a pegar o dobro de matérias por semestre, e abdicava de finais de semana. Tudo isso enquanto era estagiária na área de planejamento e controle de produção na Votorantim.

“Como havia a possibilidade de eu ser efetivada assim que concluísse a faculdade, queria fazer isso o mais rápido possível”, diz. Aos 23, já possuía um título de mestrado em Engenharia – e começava um MBA na Fundação Getúlio Vargas.

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Foto: Marcelo Correa / Edição: Laís Zanocco/Você S/A

O esforço valeu: aos 27, Tatiana se tornava gerente. “Se ainda hoje mulheres em posições de liderança são minoria, imagina há 13 anos”, diz. Mas desbravar um ambiente tão hostil para as mulheres teve seus custos. “Em diversas situações, desde quando era analista até gerente, enfrentei o machismo. Quando recebia uma promoção, ouvia que era porque eu ser jovem e bonita. Ao ter o trabalho elogiado por um superior, diziam que era por eu ser mulher. É preciso ter certeza do seu propósito e resiliência para não deixar isso te abalar.”

Com o tempo, Tatiana também aprendeu a se impor. “Sou dura, cobro mesmo. A ArcelorMittal é uma empresa extremamente focada em resultados. Tem gente que não se adapta a essa cultura.” Embora endurecida, a executiva não perdeu a ternura. E, quando fala da família, não esconde a emoção.

Casada e mãe de dois filhos (Rafael, de 6, e Paula, de 4), Tatiana conheceu o marido há 22 anos, na faculdade, e conta que o apoio dele foi fundamental para que ela conseguisse ter uma carreira de sucesso sem abrir mão de construir uma família. “Meu marido nunca foi o tipo de homem que se incomoda que a esposa ganhe mais do que ele ou fique até tarde no trabalho. Cansei de ficar até meia-noite na fábrica e receber mensagens de apoio dele, dizendo que estava tudo bem em casa”, diz.

O casal mantinha metas pessoais desde o começo do namoro e, com a gravidez, não foi diferente. “Tudo foi bastante planejado. Naquela época, quando meu diretor perguntou qual era meu desafio para o próximo ciclo, eu disse: ano que vem eu vou ser mãe. Eu havia trabalhado como louca, ficado sem Ano-Novo por anos. Colocava a empresa em primeiro lugar. Mas agora queria ser mãe, e não iria abrir mão disso.”

Embora a decisão não tenha prejudicado o seu crescimento dentro da ArcelorMittal, (inclusive, uma das promoções ocorreu meses antes de ela sair da segunda licença-maternidade), Tatiana reconhece que nem sempre é assim. “Estou há 20 anos nesse ambiente e vejo que muitas mulheres têm medo de dizer para os gestores que estão grávidas. O homem, quando conta que vai ser pai, é só alegria. A mulher, não. Tive a sorte de contar com chefes que confiavam no meu trabalho.”

Léguas de distância

Ainda que a chegada de Tatiana ao comando de uma das unidades fabris seja um passo importante, o caminho para a ArcelorMittal alcançar a equidade de gênero ainda é longo. Na companhia, atualmente as mulheres representam apenas 13,5% do quadro de funcionários e só 16% em cargos de liderança.

Ciente do desafio, a empresa começou um processo de transformação cultural para se tornar mais inclusiva. Em 2019, contratou uma consultoria especializada e criou um programa de diversidade, que treinou os funcionários sobre o tema. Ao todo, 1.300 empregados receberam capacitações sobre vieses inconscientes e questões de gênero, raça, pessoas com deficiência e LGBTQI+.

Mesmo recente, o trabalho da companhia já começa a dar resultados. Em 2020, houve um crescimento de 15% no número de mulheres que se inscreveram no programa Porta de Entrada, realizado pela ArcelorMittal, em parceria com o Senai, e que forma jovens, entre 18 e 22 anos, para trabalhar como operadores nas fábricas. “É uma jornada. Estamos no começo, mas com certeza haverá mais mulheres depois de mim.”

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