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Juros: é hora de baixar?

A inflação retrocedeu de 12% para 5,6%. Hora de baixar os juros e pisar de novo no acelerador da economia? Calma. Cortar a Selic com a inflação ainda longe de um patamar razoável é jogar gasolina na fogueira.

Por Alexandre Versignassi 10 mar 2023, 05h04 • Atualizado em 13 mar 2023, 17h45
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 (SOPA Images/Getty Images)
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  • Juros são o preço do dinheiro. Quando um banco precisa de dinheiro, ele faz como você: pede emprestado no banco. No caso, para outro banco. Instituições financeiras trocam empréstimos entre si todos os dias. A taxa de juro média dessas operações é a Selic

    Cada banco cobra o quanto bem entender ali. Mas o BC consegue manipular essa taxa. Quando ele quer que a Selic caia, passa a emitir moeda e emprestar para os bancos a juros cada vez menores, já que o BC tem o poder de criar dinheiro novo, do nada. Aí um banco só consegue emprestar para outro se cobrar no máximo aquilo que o BC estiver cobrando – e eles têm interesse em seguir emprestando para seus pares, pois essa é uma fonte de receita. 

    Nisso, a taxa média dos juros baixa – até onde o Banco Central quiser. Com o dinheiro mais barato na ciranda interbancária, todas as instituições passam a ter mais grana em caixa. Esse dinheiro novo, saído diretamente da caixa mágica do Banco Central, se transforma em financiamento para pessoas e empresas. A economia cresce. Surgem mais empregos. 

    Mas com um efeito colateral. Selic baixa demais por tempo demais coloca mais dinheiro novo na economia do que ela pode suportar. A produção de novos bens e serviços para comprar com o dinheiro “recém impresso” tende a não acompanhar o volume de moeda que entrou em circulação. As coisas passam a ficar mais caras. Inflação

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    Quando o IPCA começa a subir demais, o BC faz o oposto: aumenta a Selic. Como? Fácil. Ele pega dinheiro emprestado dos bancos, a juros cada vez mais altos. Desse jeito, um banco que precisa de liquidez só consegue pegar emprestado de seus amiguinhos se pagar caro por isso. O BC não faz nada com essa grana. Apenas tira de circulação. Com menos moeda circulando, a inflação começa a ceder. Missão cumprida. 

    Em 2020, o BC operou uma baixa histórica na Selic, derrubando-a a 2%. Deu certo. O PIB saiu de -3,3% naquele ano para uma alta de 5% em 2021. Só que os preços foram subindo também. A inflação era de 1,8% em maio de 2020. Em março de 2021, já tinha saltado para 6%. Era hora de subir os juros. 

    Só que manejar a política econômica é como dirigir na chuva com pneus carecas. Você pisa no freio agora, e o carro só responde lá na frente. A Selic foi subindo. E a inflação continuava acelerando, vitaminada pela avalanche de dinheiro novo que já tinha entrado. 

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    Em abril de 2022, com os juros já em 11,75%, o IPCA chegou a 12,13% – maior índice em 20 anos. O jeito, então, era pisar ainda mais fundo no freio. A Selic foi a 12,75%, 13,25% e, em agosto de 2022, 13,75%.

    Agora, sim. A inflação retrocedeu daqueles 12% até o patamar atual, de 5,6%. Hora de baixar os juros, então, e pisar de novo no acelerador da economia? Calma. A alta mensal voltou a acelerar: 0,84% em fevereiro, contra 0,53% em janeiro. Cortar a Selic num cenário desses é jogar gasolina na fogueira. Talvez ela ainda precise subir mais um pouco. 

    Quando a inflação estiver domada, porém, até onde o BC poderá baixar os juros novamente? Quem determina isso é a meta de inflação, o alvo que o Banco Central persegue. Para 2024, ela está em 3%. Lula defende uma volta a 4,5%, meta que vigorou em seus dois primeiros governos, e foi cumprida ao longo da maior parte daqueles oito anos. 

    Subir a meta significaria dar sinal verde para o BC baixar os juros mais cedo. Mas 4,5%, um patamar no qual os preços dobram a cada 16 anos, não é exatamente o ideal. Por outro lado: faz sentido manter a meta de 3%, mesmo que isso freie a geração de empregos? Entenda melhor o debate em nossa reportagem de capa, produzida pela editora Tássia Kastner. E que no fim os responsáveis pela condução da nossa economia encontrem uma estrada que leve ao melhor dos mundos: um futuro com menos inflação e mais empregos.

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