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Como criar palestras inesquecíveis

As pessoas têm mais medo de falar em público do que de morrer. Em seu novo livro, os especialistas Dennis Penna e Joni Galvao compilam uma série de dicas de como superar esse terror e garantir uma conexão emocional com a plateia – sem deixar de passar as informações essenciais de sua apresentação.

Por Sofia Kercher
25 jun 2024, 15h00

59,7%. Essa é a porcentagem de brasileiros que, por qualquer motivo que seja, têm medo de falar em público. Cerca de 65% sentem o coração acelerado quando a temida hora chega, e 95% ficam com a respiração ofegante.

Os dados são da Universidade Federal de Minas Gerais, coletados no ano passado. Uma pesquisa mais antiguinha, do jornal britânico Sunday Times, mostrou que, por lá, 41% tinham esse medo. Para referência: da morte, eram 19%.

Os dados comprovam algo que você já deve ter imaginado (e até sentido): falar em público é assustador pra caramba. Em meio à taquicardia, mãos suadas e respiração irregular, a preocupação em não desmaiar vira prioridade na cabeça do palestrante – e a mensagem, parte que deveria ser a mais importante do processo, acaba ostracizada a figurante. 

Nesse contexto, fazer palestras que genuinamente tragam impacto e inspiração podem parecer tarefa para o Tom Cruise, em um oitavo filme da franquia Missão Impossível. Nada de pular do penhasco em uma moto, escalar prédios faraônicos ou lutar contra dez vilões ao mesmo tempo: dê a Ethan Hunt um microfone e 500 olhos estalados nele para ver se até o espião não começa a gaguejar. 

É nessa hora que Dennis Penna e Joni Galvao, especialistas na fina arte de palestrar, vêm ao resgate. Dennis é fundador da Polo Palestrantes, uma das principais agências de palestrantes do Brasil, e Joni é cofundador da The Plot Company, especializada em criar histórias para marcas, marketing, publicidade e vendas. 

No novo livro da dupla, Como Criar Palestras Inesquecíveis: Como construir um storytelling capaz de conquistar e transformar audiências, os profissionais compilam dicas de como gerar conexão emocional nas apresentações, aprofundam-se nos conceitos de storytelling e munem o leitor de informações para que ele se sinta confiante e calmo da próxima vez que subir ao palco. 

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“O desafio que enfrentamos, sobretudo no mundo corporativo, é como tornar nossas apresentações, reuniões e palestras tão envolventes quanto os roteiros mais cativantes de Hollywood. Como podemos entrelaçar nossa mensagem com uma narrativa que captura a imaginação, evoca emoção e inspira ação?”, escrevem os autores. Leia um trecho da obra a seguir, em que eles tentam responder justamente a essa pergunta. Luz, câmera, ação:

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(Arte/Você S/A)
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(Arte/VOCÊ S/A)

Pg. 28 – Premissas básicas para uma palestra inesquecível

Em uma era na qual a informação se propaga à velocidade da luz, qual é o propósito de alguém que sobe num palco e, com um microfone e uma voz solitária, se propõe a falar para uma multidão? Por que as empresas, em meio a tecnologia avançada e recursos quase ilimitados, ainda investem na arte milenar da oratória?

Por trás de cada convite feito a um palestrante, repousa uma esperança latente: a de que a chama da inspiração se acenda, de que as palavras ressoem e que a magia das narrativas inicie um movimento, seja ele de transformação, seja de motivação ou ação.

Muitos acreditam que estão simplesmente assistindo a um discurso, mas na realidade, estão sendo convidados a embarcar em uma jornada de imersão num universo desconhecido que pode inspirar e transformar (eu disse “pode”).

No entanto, como em qualquer jornada, há caminhos sombrios. Assim como um livro de autoajuda pode, por vezes, ser um placebo ilusório, uma palestra mal executada pode ser um beco sem saída para sua audiência. A desconexão ocorre quando o propósito se desvia da verdadeira essência e se concentra mais na performance do que na substância.

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E, em meio a esse cenário, temos visto reações peculiares. Palestrantes que, percebendo a desconexão, optaram por reações extravagantes e inesperadas, tentando resgatar uma situação que se desviava do seu curso. Seus gestos, embora bizarros, eram sintomas claros de um sistema que, por vezes, se esquece do coração da mensagem em prol do espetáculo.

Assunto profundo? Sim. Para nós também é, mas temos certeza de que você está acompanhando cada passo dessa jornada. Afinal, nosso método pressupõe que nossa audiência estará engajada do começo ao fim, e depois vai se lembrar muito bem do que aconteceu.

Então, o que faz uma palestra ser verdadeiramente impactante? Não é apenas o carisma do orador, a profundidade do conteúdo ou a grandiosidade do palco. É a alquimia que ocorre quando autenticidade, paixão, propósito e o poder das histórias convergem. É quando a palestra transcende o evento e se torna uma experiência. E, nesse momento, as empresas percebem que o investimento não foi apenas em um palestrante, mas na chama inextinguível da transformação que ele pode iniciar.

O papel das palestras em grandes eventos

Grandes eventos, em sua maioria, contam com um espaço para algum palestrante. Sabendo que esse evento corre o risco de ser chato por causa de muito conteúdo maçante, as empresas optam por dar pelo menos uma hora de alívio para a audiência.

Cada palestra tem seu objetivo, mas quem contrata, geralmente, quer algo mais. Quer engajar, motivar o time e proporcionar um momento que torne o evento inesquecível. No entanto, a tarefa não é fácil. Certo dia, Joni Galvão foi chamado por uma empresa para dar uma palestra no fim do evento de dois dias. A pessoa do marketing que o contratou pediu: “Joni, você precisa salvar o evento”. 

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Ou seja, até aquele momento, as pessoas estavam entediadas. Ela depositou, em uma palestra de uma hora, a esperança de que os espectadores saíssem do evento falando bem da experiência – algo que achamos muito difícil. Portanto, uma palestra não vai salvar um grande evento, mas pode ser o ponto alto que leva magia para a audiência. Para isso, porém, é preciso entender a diferença entre puro entretenimento e uma história com o compromisso de “tocar a audiência”. 

O som ambiente de uma sala silenciosa, iluminada apenas pela luz trêmula da televisão, onde os olhos vidrados em uma tela relatam um fenômeno contemporâneo: a maratona de séries. Quantos de nós já não se viram absorvidos em uma trama, episódio após episódio, perdendo a noção do tempo? E ainda assim, quando voltamos para o ambiente corporativo, essa capacidade de concentração parece desvanecer como poeira ao vento.

Como vimos anteriormente, o lendário diretor Alfred Hitchcock, mestre do suspense, nos deixou uma pérola de sabedoria: “Um bom filme é a vida sem as partes chatas”. Essa declaração não se refere apenas à estrutura cinematográfica, é também uma meditação sobre a essência da existência humana.

Em nossa jornada diária, somos compelidos a buscar momentos que destilem a essência da vida, livrando-nos da monotonia e da rotina desgastantes. No entanto, ao contrário do cinema, a vida não é editada. Ela se desenrola com todas as suas nuances, seus altos e baixos.

A percepção das “partes chatas” da vida não está tanto nos eventos em si, mas na lente através da qual escolhemos vê-los. Enquanto um contratempo pode ser visto como obstáculo por um indivíduo, outro pode enxergá-lo como uma oportunidade de aprendizado. 

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Assim, nossa realidade é moldada não apenas por nossas experiências, mas principalmente pela narrativa interna que temos a partir delas.

Imagine, então, nossa psique como uma vasta biblioteca cinematográfica – um arquivo pessoal repleto de histórias, dramas, comédias e tragédias, todos catalogados em nossa memória. Cada interação, cada lição aprendida, cada desafio superado se torna um episódio ou filme em nossa “Netflix mental”. Essa vasta coleção não está lá apenas como entretenimento, mas como uma fonte rica de aprendizado e introspecção.

O desafio que enfrentamos, sobretudo no mundo corporativo, é como tornar nossas apresentações, reuniões e palestras tão envolventes quanto os roteiros mais cativantes de Hollywood. Como podemos entrelaçar nossa mensagem com uma narrativa que captura a imaginação, evoca emoção e inspira ação?

Uma das missões do movimento a favor das palestras inesquecíveis é precisamente essa: descobrir o segredo por trás da magia do storytelling cinematográfico e traduzi-lo para o palco corporativo. Porque, no final das contas, todos nós somos contadores de histórias. E, assim como os cineastas buscam conectar-se com seus públicos em um nível emocional profundo, os palestrantes podem e devem aspirar a criar esse mesmo nível de engajamento e conexão com suas audiências.

O cinema tem o poder de nos transportar para mundos distantes, de nos fazer rir, chorar e refletir. Se conseguirmos um pouco dessa magia nas palestras, teremos a chave não apenas para capturar a atenção, mas para transformar mentes e corações. E, assim, a arte e o negócio se juntam, criando experiências de fato inesquecíveis.

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Uma palestra fica muito mais interessante se analisada sob a ótica dos princípios de um bom filme.

A importância de um bom roteiro

Um roteiro bem estruturado é a espinha dorsal de qualquer narrativa. Mesmo com recursos visuais incríveis ou atuações espetaculares, se a história for fraca, o resultado final será insatisfatório.

Da mesma forma, em uma palestra, ainda que com visuais incríveis e entrega confiante do palestrante, se a estrutura narrativa não seguir os princípios de uma boa história, o resultado terá prazo de validade e as pessoas vão se esquecer das mensagens.

Princípios da narrativa de Aristóteles

Aristóteles, em seu livro Poética, 12 já enfatizava a importância da estrutura clara de começo, meio e fim.

Ato 1: o começo apresenta os personagens com suas rotinas, estabelecendo o tom para a história e dando início ao principal conflito da trama.

Ato 2: no meio há os conflitos, desafios e dilemas, criando tensão e envolvimento. Esse é o momento em que o protagonista passa a enfrentar

um mundo desconhecido, colocando à prova sua capacidade para chegar ao fim da história transformado.

Ato 3: o fim traz a resolução, em que os conflitos são resolvidos e os personagens enfrentam as consequências de suas ações. O protagonista pode ou não alcançar seu objetivo. O que importa não é esse resultado, mas a transformação que aconteceu durante o arco da história. 

Faça sua história sobre um assunto só.

Aristóteles

A estrutura de dilema, crise e resolução

Uma história envolvente tem um dilema central que leva a uma crise. Essa crise, por sua vez, força os personagens a tomar decisões, que geram ações e, finalmente, uma resolução.

O dilema do protagonista cria um envolvimento emocional do público, a crise aumenta a tensão, e a resolução oferece um fechamento, uma recompensa para quem dedicou seu tempo para “consumir” a história.

A importância das viradas na história

Uma história não é estática. Ela é feita de várias viradas – mudanças na trama que mantêm o público envolvido. São os famosos plot twists.

A maior virada é o arco geral da história, que examina os estados inicial e final dos personagens e responde às questões: houve transformação? Quem se transformou? Como isso aconteceu?

O elemento humano

Uma narrativa poderosa é centrada em personagens – seja uma pessoa, seja uma empresa, um produto, um carro, um brinquedo; qualquer coisa que tenha reações humanas. Os filmes da Pixar são um excelente exemplo do que realmente importa.

Um carro egoísta querendo ganhar uma corrida, mas aprendendo a reconhecer a importância do outro; um peixe superprotetor que entende que deve deixar seu filho viver a vida; ou um brinquedo que não quer ser substituído por um melhor são apenas alguns exemplos da importância de termos sentimentos e valores humanos para que a audiência crie uma conexão.

Deve envolver alguém (ou algo) que tem um objetivo claro, enfrenta desafios no caminho e, no final, encontra uma resolução. Essa resolução não precisa ser um “final feliz”, mas deve oferecer algum tipo de conclusão ou fechamento para a jornada do personagem.

Entreter antes; então, educar

Existem dois tipos de filme ou série: o primeiro pretende que quem o assista apenas passe o tempo – ou seja, puro entretenimento – e o que tem uma mensagem a transmitir – o famoso entretenimento com educação.

Criando um paralelo com o mundo das palestras, é comum vermos muitos palestrantes dando “aulas” e apresentações com muitas explicações e teorias. O problema é que esses palestrantes esquecem que explicações são chatas – elas nos remetem a uma educação tradicional cujo objetivo principal é decorar o conteúdo. Eles perdem a plateia por não a entreterem primeiro.

Quando afirmamos que você deve entreter antes de ensinar, significa que sua audiência só estará conectada com suas ideias se estiver comprometida. O maior inimigo de qualquer apresentador é a desatenção da audiência.

A ideia é que, antes de transmitir uma mensagem educativa ou informativa, é mais eficaz capturar a atenção e o interesse do público por meio do entretenimento. Essa abordagem reconhece que os indivíduos são mais propensos a aprender e reter informações quando estão engajados.

As pessoas muitas vezes resistem à educação formal ou a mensagens didáticas porque estas podem parecer monótonas ou pesadas. Ao oferecer entretenimento primeiro, você quebra essa resistência inicial e desperta o interesse do público.

É mais fácil explicar, colocar o seu conteúdo em tópicos no estilo “X dicas”, mas o resultado é o esquecimento de quase tudo por parte da plateia, pois não existe uma conexão entre as mensagens que faça da narrativa uma história única.

Quando as pessoas se divertem ou estão emocionalmente envolvidas em uma experiência, as chances de a informação e o aprendizado ficarem marcados na memória são altas.

É importante ressaltar que é crucial encontrar o equilíbrio certo entre entretenimento e educação. Se houver muito entretenimento e pouca substância educativa, a mensagem pode ser perdida. Em contrapartida, se for muito didático e não for envolvente, o público pode perder o interesse.

Mais do que ensinar, um palestrante inesquecível inspira o aprendizado.

 

Uma palestra tem duas funções: ensinar a fazer – ou seja, fornecer ferramentas para o público colocar em prática uma coisa nova ou diferente do que tem feito – e inspirar a fazer – isto é, motivar a audiência a realizar algo diferente do que ela vem fazendo até o momento. Muitos palestrantes, principalmente os que abordam temas mais técnicos, acreditam que seu objetivo é apenas o primeiro.

No entanto, para se tornar um palestrante inesquecível, é fundamental entender a necessidade de inspirar uma mudança na audiência. Lembre-se: a palestra bem-sucedida é aquela que mexe com as emoções da audiência, visando a uma mudança comportamental – afinal, uma das funções da palestra é motivar a ação. Por isso, dizemos que quem abraça a missão de palestrar tem a responsabilidade de mexer com a emoção dos outros para incentivar a ação. Você já deve ter ouvido a famosa frase do super-herói Homem-Aranha:

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.

Um palestrante tem o poder de gerar emoções na audiência: de um choro por estar “dentro” da história até uma crise de risadas por causa do humor bem utilizado.

Para entender a responsabilidade que vem desse poder do palestrante, vamos analisar como nós processamos as informações: todos temos um filtro perceptivo da realidade. Ao recebermos um estímulo de uma mensagem durante uma palestra, o caminho que ela faz passa por uma interpretação pessoal que gera uma representação em forma de imagens, sons e sensações. Com essa representação, nós reagimos.

Cada um tem a sua forma de interpretar a realidade, mas quando a palestra é bem estruturada, é possível conseguir uma reação quase que de todos os participantes.

Para testar o seu poder fazendo algo diferente, tente o seguinte:

  1. Peça que todos fiquem de pé;
  2. Espere alguns segundos, como se fosse haver uma grande surpresa;
  3. Depois, peça que todos se sentem;
  4. Conclua com uma fala como: “Viu como eu tenho o poder de influenciar vocês?”.

Não tem como analisarmos essa relação de “poder” e “responsabilidade” sem tratarmos da tal da autoajuda.

A autoajuda é uma indústria próspera, e, infelizmente, nem todos que atuam nesse campo têm intenções genuínas. Alguns “gurus” fazem promessas grandiosas para atrair seguidores ou vender produtos, muitas vezes sem uma base sólida ou realista por trás de suas alegações. Isso vale para as promessas que você, palestrante, vai fazer para sua audiência. 

Aqui estão quatro promessas comuns feitas por falsos gurus que são, na realidade, impossíveis de garantir:

  1. Riqueza rápida e fácil: muitos falsos gurus prometem que, seguindo seus conselhos ou técnicas, você pode se tornar rico rapidamente e com pouco esforço. Embora algumas estratégias financeiras possam ser úteis, não há garantia de sucesso – e, em geral, a riqueza requer tempo, esforço e muita resiliência.
  2. Cura instantânea: para doenças físicas, problemas de saúde mental ou traumas emocionais, alguns gurus afirmam ter soluções milagrosas ou rápidas. Embora o pensamento positivo e certas práticas possam beneficiar o bem-estar, eles não substituem tratamentos médicos ou terapias profissionais.
  3. Atração universal: a ideia de que você pode “atrair” qualquer coisa que desejar para sua vida – seja um parceiro perfeito, seja um emprego dos sonhos ou qualquer outra coisa – apenas visualizando ou pensando positivamente é uma grande armadilha. Embora a mentalidade positiva possa influenciar ações e resultados, não é uma garantia de que tudo o que você deseja virá até você.
  4. Perfeição pessoal: alguns gurus podem prometer que você alcançará um estado de perfeição ou iluminação, em que não experimentará mais falhas, tristeza ou desafios. No entanto, a imperfeição e os desafios são partes intrínsecas da experiência humana. É essencial abordar o campo da autoajuda com ceticismo saudável e fazer pesquisas cuidadosas antes de adotar conselhos, comprar produtos ou até mesmo passar a mensagem adiante. 

Muitos profissionais de autoajuda têm intenções genuínas e oferecem conselhos valiosos, mas como em qualquer indústria, há aqueles que exploram as esperanças e necessidades dos outros para benefício próprio.

Como palestrante inesquecível, portanto, você precisa ter consciência de que tem o poder de influenciar a sua audiência e deve agir com responsabilidade e integridade. Por isso, também, o que a audiência “quer” não é necessariamente aquilo de que ela “precisa”.

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(Arte/Você S/A)
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