Escrevi 150 cartas para conseguir o primeiro emprego
Profissionais negros não podem ficar esperando uma oportunidade cair do céu. Dê as caras e crie sua trajetória rumo ao topo.

Mais de 150 cartas escritas à mão. Sim, 150. Foi o que eu fiz quando me formei técnico em Mecânica pelo Senai. Minha estratégia era simples, mas ousada: comprava o jornal de classificados de empregos e, sempre que via uma empresa procurando engenheiros, mandava uma carta dizendo algo como: “Vi no jornal que estão contratando engenheiro mecânico e talvez esse engenheiro precise de um técnico como assistente. Acabei de me formar pelo Senai e tenho muita vontade de começar minha nova carreira nesta empresa”.
Quarenta e cinco dias e inúmeras cartas depois, consegui meu primeiro emprego. Não era apenas um emprego; era o começo de uma carreira que iria me levar de estagiário a executivo. Mas o impacto desse primeiro dia no escritório foi maior do que eu poderia imaginar. Fui cumprimentado pelas pessoas que trabalhavam na segurança e limpeza, que disseram: “Você é a primeira pessoa negra a trabalhar no escritório desta empresa”. Graças à minha família e aos Racionais MC’s, eu tinha uma razoável consciência e letramento racial, então pude compreender a importância daquele gesto das pessoas terem ido até mim.
Se você fosse meu aluno, eu começaria explicando que este é o segundo artigo da série “Anatomia da Liderança Negra”, que começou com o tema “Reconhecer o obstáculo” – uma análise sobre como o racismo estrutural se manifesta nas organizações e molda trajetórias de profissionais negros.
Este novo artigo é uma continuidade. Agora, falaremos sobre “Reconhecer e converter oportunidades”, um passo essencial para transformar as barreiras que o sistema insiste em nos impor em alavancas para ocuparmos nosso lugar à mesa da liderança no mundo corporativo.
Mais uma vez, baseio-me em dados e afirmo que, no Brasil, os números reforçam essa mensagem silenciosa. Embora negros representem 52,8% da população economicamente ativa, ocupam apenas 4,7% dos cargos de direção e 6,3% dos postos de gerência nas 500 maiores empresas do país, com mulheres negras preenchendo um ínfimo 0,4% dessas posições de destaque, segundo o Instituto Ethos. Em contraste, 94,2% do quadro executivo ainda é composto por pessoas brancas, revelando como as barreiras estruturais se manifestam em números quase imutáveis. Como argumenta o estudo de Campos (2022), a inclusão racial está longe de refletir a diversidade da população brasileira.
Lembre-se: o racismo estrutural não apenas exclui; ele tenta convencê-lo de que você não pertence aos melhores lugares. Especialistas argumentam que o racismo perpetua ambientes que parecem neutros, mas na prática naturalizam a exclusão. Quando você enxerga essas narrativas e decide enfrentá-las, está fazendo mais do que conquistar uma oportunidade. Está redefinindo o que significa ser parte da Liderança Negra no mundo corporativo.
Reivindique a promoção que você merece
Permita-me dar mais alguns exemplos sem a presunção de mostrar que a jornada é fácil, mas apenas sendo o meu jeito de jogar a corda para vocês que estão buscando uma posição de líder.
Anos depois daquela primeira experiência, observei que alguns analistas estavam sendo convidados para um curso de liderança. Com a cara e a coragem, chamei meu gestor, apresentei minhas razões e consegui minha vaga. Anos mais tarde, quando meu coordenador deixou a empresa, não houve uma reunião para decidir quem assumiria. Eu me ofereci. Propus um acordo: se eu entregasse bons resultados em três meses, seria efetivado no cargo. Claro, esses três meses viraram um ano… mas o cargo foi meu.
Pesquisadores como Campos (2022) destacam em seus estudos que, historicamente, os executivos negros precisaram desenvolver estratégias individuais para lidar com o racismo e avançar na hierarquia corporativa. Esses mecanismos muitas vezes incluem reivindicar oportunidades que, à primeira vista, pareciam fora de alcance.
Com base nisso, se você fosse meu aluno, eu te diria: não espere que as oportunidades sejam entregues prontas. Muitas vezes, elas estão lá, silenciosas, esperando que você as reivindique. Aquele grande projeto que parecia fora do alcance? Aquela posição que ninguém sugeriu para você? Muitas vezes existem brechas geradas por um mercado corporativo ainda desigual, mas que começa a reconhecer o valor estratégico da diversidade.
Reconhecer e converter oportunidades é um ato de coragem. É olhar para cada desafio e perguntar: como posso transformar isso em um degrau para minha carreira? Não vou dizer que é fácil, mas você não está sozinho nessa caminhada. Há exemplos de quem fez isso antes – e você também pode ser um.
Se você for capaz de enxergar essas brechas e agir com inteligência e estratégia para reivindicar as oportunidades, fará mais do que avançar sua carreira. Estará ajudando a redefinir o que significa ocupar a mesa de liderança como parte da Liderança Negra no mundo corporativo.
Mas, sejamos honestos: o caminho raramente será suave. Esse mundo corporativo, com suas barreiras explícitas e invisíveis, muitas vezes irá testar sua resiliência e sua fé. Por isso, termino este artigo com uma citação que me acompanhou em momentos de dúvida e luta, dos Racionais MC’s:
“Cabeça erguida, olhar sincero, ‘tá com medo de quê?Nunca foi fácil, junta os seus pedaços e desce pra arena.Mas lembre-se, aconteça o que aconteça, nada como um dia após outro dia.”
E agora, você deve estar se perguntando: como posso me preparar para aumentar as chances de conquistar essas oportunidades? Esse será justamente o tema do próximo artigo.
Então, se você fosse meu aluno, eu te diria: te vejo no próximo artigo/aula.