Birra de criança: O que ela ensina sobre inteligência emocional no trabalho
Entenda por que a parentalidade pode ser um treinamento para soft skills e como colocar esse aprendizado em prática no escritório.

omecei a escrever este texto, sentei, organizei a rotina – sigo equilibrando a rotina das férias das crianças com o meu retorno ao trabalho em home office –, alguns minutos depois eu precisei mediar conflitos de irmãos e dizer alguns nãos para os infinitos pedidos que chegam à minha mesa. O dia passa assim, com interrupções e um planejamento bem diferente daqueles que aprendemos de forma padrão.
Filhos são esse convite ao imprevisto. Ter flexibilidade e abrir mão do controle acontece muito antes deles chegarem. Durante a tentativa, a espera e toda a jornada de educar uma criança passa por encontrar o meio do caminho entre as teorias e a sua realidade, aproximando cada vez mais essa distância para não se frustrar e adoecer.
Afinal, quem nunca – antes de ser mãe – imaginou que seria capaz de evitar toda e qualquer birra de criança?
Eu sim.
Depois de muitos estudos e práticas, consigo entender a birra de um lugar bem diferente. Reconheço inclusive que muito adulto até hoje faz birra – eu também.
Mas imagine esta cena: você está no supermercado com seu filho de 3 anos, e ele quer um doce. Você diz “não”, e o mundo desaba. O choro, a birra, os olhares das pessoas ao redor – tudo parece um teste de resistência emocional.
Se você parar e pensar, essa situação também acontece no mundo dos adultos no nosso ambiente de trabalho: conflitos, opiniões divergentes e até comportamentos difíceis.
Aprender a lidar com a birra do seu filho, e com a sua, pode te ajudar a lidar com os desafios da carreira.
A parentalidade, muitas vezes vista como um desafio, na verdade pode ser a maior escola de inteligência emocional (IE) que existe para perseverar no ambiente de trabalho.
O que é inteligência emocional e como a parentalidade ensina isso
Daniel Goleman, autor do clássico Inteligência Emocional, define IE como a capacidade de identificar, compreender e gerenciar as próprias emoções, assim como reconhecer e influenciar as dos outros. É uma habilidade que, segundo uma pesquisa da Harvard Business Review, responde por até 90% da performance diferenciada em cargos de liderança.
E aqui entra a mágica: a parentalidade é um exercício diário de IE. Quando lidamos com birras, medos e frustrações de nossos filhos, aprendemos, na prática, as competências-chave da IE: autoconsciência, autorregulação, empatia, habilidades sociais e motivação.
História: o dia em que uma birra virou aprendizado de liderança
Minha filha de 5 anos estava frustrada porque eu disse que não poderíamos brincar antes do jantar. Sua explosão me deixou irritada, mas, respirando fundo, percebi que minha reação poderia ser um espelho para ela. Em vez de gritar ou ceder, me abaixei, olhei nos olhos dela e disse: “Eu sei que você está chateada. Quer me contar o que está sentindo?” Isso a desarmou, e ela conseguiu explicar o que a incomodava.
Aprender a lidar com a birra do seu filho, e com a sua, pode te ajudar a lidar com os desafios da carreira.
O que parecia apenas uma situação trivial na parentalidade foi, na verdade, um exercício de comunicação assertiva, empatia e regulação emocional – três habilidades essenciais no trabalho. No escritório, não é diferente: quando um colega está sobrecarregado ou frustrado, a capacidade de reconhecer e validar suas emoções, ao mesmo tempo que se comunica com clareza, pode transformar um conflito em colaboração.
Parentalidade como um treino para soft skills
Pais e mães vivem situações que testam a inteligência emocional diariamente. Aqui estão exemplos de como a parentalidade desenvolve soft skills aplicáveis ao trabalho:
Vulnerabilidade e confiança
Brené Brown, autora de A Coragem de Ser Imperfeito, afirma que a vulnerabilidade é o coração das relações autênticas. Quando admitimos para nossos filhos que não temos todas as respostas, estamos cultivando confiança e modelando a importância de sermos humanos. No trabalho, reconhecer limites ou erros cria uma cultura de colaboração e respeito.
Empatia em ação
Entender que uma criança chora porque não sabe como expressar algo é um exercício de empatia que se transfere diretamente para o ambiente corporativo. No trabalho, é fundamental se colocar no lugar do outro para compreender a raiz de um problema antes de julgar.
Resolução de conflitos
Mediar discussões entre irmãos (ou mesmo entre colegas) ensina como encontrar soluções que respeitem as necessidades de todos os envolvidos. É um laboratório vivo de negociação e gestão de conflitos.
Comunicação clara e assertiva
Explicar para uma criança por que ela não pode comer doce antes do jantar, sem usar “porque não”, exige criatividade e clareza. Essas mesmas habilidades são necessárias para liderar equipes ou alinhar expectativas no trabalho.
Dados que reforçam essa conexão
Um estudo da Universidade de Cambridge mostrou que pais envolvidos têm maior capacidade de empatia e resiliência emocional. Além disso, um relatório da McKinsey destacou que habilidades como empatia e regulação emocional estão entre as mais valorizadas pelas empresas em 2025.
Pais e mães vivem situações que testam a inteligência emocional diariamente.
A parentalidade, longe de ser um obstáculo para o crescimento profissional, é uma oportunidade de ouro para desenvolver essas competências de forma natural e contínua. Cada birra, cada conversa difícil, cada momento de vulnerabilidade é um treino para ser um profissional mais preparado para liderar e colaborar.
Como aplicar o aprendizado
Se você é pai ou mãe, ou mesmo convive com crianças, aqui estão algumas ferramentas que podem ajudar a transferir o aprendizado da parentalidade para o trabalho:
Respire antes de reagir
Assim como respiramos fundo antes de lidar com uma birra, leve essa prática para o trabalho. Dê um tempo antes de responder a um e-mail irritante ou tomar uma decisão emocional.
Pratique a escuta ativa
Ao falar com a criança, olhe nos olhos e ouça. No trabalho, isso significa deixar o celular de lado e dar atenção total ao seu interlocutor.
Reconheça emoções, suas e dos outros
Use frases como “Eu percebo que você está frustrado” para validar sentimentos no ambiente profissional. Reconhecer emoções cria conexões mais fortes.
Transforme vulnerabilidade em força
Compartilhe aprendizados de erros ou dificuldades com sua equipe. Isso não só humaniza, mas inspira confiança.
Vivenciar e saber lidar com as birras, e vê-las como aprendizado, surpreendentemente vai ajudar a construir relações fortes, resolver problemas e alcançar resultados extraordinários. Seja no mercado de trabalho ou dentro de casa, cuidar das emoções abre portas para uma vida mais equilibrada e bem-sucedida.