Trabalho como freelancer cresce e se consolida como opção de carreira

Veja as áreas que tiveram mais aumento na demanda por autônomos, e entenda se é uma boa virar MEI (spoiler: é sim).

Quase 9 milhões de brasileiros perderam o emprego no segundo trimestre de 2020, por conta da pandemia (de acordo com a Pnad Contínua). O número total de desempregados, porém, não mudou grande coisa: ficou em 12,8 milhões de pessoas, uma quantidade que se mantém próxima ao do mesmo período do ano anterior. A explicação para a esquizofrenia dessa conta está na metodologia de pesquisa do órgão responsável pela coleta de dados: o IBGE.

Para o instituto, uma pessoa desempregada deve corresponder a quatro critérios: ter mais de 14 anos, não estar trabalhando, mas estar procurando emprego e ter disponibilidade para assumir o posto. Ou seja, não basta não estar trabalhando para estar desempregado.

Muitas dessas pessoas, ao perder o emprego, se retiraram do mercado de trabalho por medo de contágio da Covid-19 ou por falta de vagas que correspondessem aos critérios de segurança que procuravam – como trabalho remoto ou próximo de casa. Então não se tornaram “desempregadas do IBGE”. Outras tantas não viraram estatística por outro motivo. Optaram por um meio-termo: o trabalho como freelancer – “frila”, na etimologia tropicalizada.

A Workana, uma plataforma onde frilas se registram para buscar empresas interessadas no trabalho deles, aumentou sua base em 15% durante o período de isolamento. O número de trabalhadores ali oferecendo seus serviços como autônomo saltou de 2,8 milhões para 3,2 milhões. Já no GetNinjas, workplace entre clientes e prestadores de serviços autônomos, o crescimento foi de 52% entre março e junho, com 300 mil novos profissionais inscritos.

Claro que número de inscritos não significa que existe mais trabalho para todo mundo. O contingente de informais no Brasil é de 39 milhões de pessoas – 40% da força de trabalho. Um informal, que fique claro, é quem tem um negócio sem CNPJ, ou quem trabalha para uma empresa (ou para uma pessoa) sem registro em carteira.

Com a crise do coronavírus, essa modalidade de trabalho foi duramente afetada. Menos de 5% das vagas formais foram extintas, mas praticamente 20% dos trabalhos informais deixaram de existir – e só vão voltar quando o isolamento social for coisa do passado, principalmente em setores como o de eventos e o de vendas. Em certas áreas, porém, há oportunidades interessantes para quem não consegue uma recolocação. É o que vamos mostrar aqui.

Onde as oportunidades estão

A pandemia desmistificou o trabalho remoto – e essa é uma boa notícia para os autônomos. Áreas como tecnologia da informação, design gráfico, marketing e comunicação já eram bem acostumadas com a contratação de terceiros para projetos específicos. E agora estão mais abertas do que nunca ao trabalho não presencial. As empresas aprenderam que reunião por zoom não morde (e a maioria começou a usar teleconferência pela primeira vez na vida, ainda que a tecnologia e a largura de banda para isso já existisse há uns bons anos).

As empresas também aprenderam na prática que o trabalho remoto é amigo da redução de custos. E, se reduzir custos já é um mantra em qualquer companhia desde a Revolução Industrial, num momento de crise econômica se torna algo mandatório. “Contratar um profissional formalmente gera despesas trabalhistas. A possibilidade de ter a demanda cumprida sem internalizar esse custo é muito vantajosa para empresas, principalmente às pequenas e médias”, diz Kátia Ackermann, diretora executiva na consultoria de carreira Produtive.

Embora a modalidade freelancer exista desde sempre (em termos históricos, a novidade foram as leis trabalhistas, todas do século 20), só agora alguns tabus foram forçadamente revistos e deslancharam a opção no mercado. “Com a pandemia e o isolamento social, dúvidas sobre home office e gestão à distância foram respondidas”, diz Daniel Schwebel, country manager da Workana no Brasil. “O trabalho autônomo ganhou mais visibilidade, inclusive como opção de carreira.”

 (Arte/Você S/A)

Rodrigo Kermessi, de 40 anos, faz trabalhos como freelancer há quase duas décadas. Graduado em design gráfico, dividia seu tempo em um trabalho fixo, com carteira assinada, e o trabalho independente para obter mais renda. “É comum na minha área que os profissionais atuem nas duas modalidades. É só ter um bom computador e os softwares certos que dá para trabalhar de qualquer lugar”, diz.

Rodrigo conta que, no início dos anos 2000, era muito mais difícil ser frila. “Tinha clientes que exigiam reuniões presenciais para combinar o projeto. Eu precisava fazer as entregas em HDs externos, porque a internet não era muito veloz. Hoje, tem casos que eu nunca nem vi a cara de quem me contratou, e tudo bem. Meu trabalho segue normalmente.”

Essa é a realidade que alavancou os números das plataformas de trabalho autônomo. Na Workana, por exemplo, a procura por projetos de design e multimídia em maio, comparado a fevereiro, aumentou 35%. Não é só isso. Em áreas nas quais o trabalho freelancer é menos usual, como a engenharia, o aumento na demanda foi ainda maior, de 69%.

Entre os profissionais, a tendência é a mesma. Por exemplo: os designers cadastrados na plataforma de recrutamento Trampos.co (voltada à recolocação no mercado formal) que aceitavam frilas saltaram de 76% para 92% no mesmo período. O GetNinjas, também viu um crescimento significativo na demanda em certas áreas: desenvolvimento de sistemas de TI (aumento de 67%), serviços jurídicos (68%), consultas com psicólogos (50%), ensino de idiomas (35%). “Depois de dois, três meses em isolamento, serviços que eram feitos presencialmente por tradição passaram a ser mais aceitos no modelo online”, diz Eduardo L’Hotellier, CEO e fundador do GetNinjas. “É uma adaptação que veio para ficar. Não vai regredir depois que a pandemia for embora.”

Ah, desde 2019 o designer Rodrigo atua só como frila. E está satisfeito. “A verdade é que a pandemia não mudou o cenário de trabalho para mim.” Sua média financeira se mantém a mesma, entre R$ 5 mil e R$ 10 mil mensais. Mas nem todos podem dizer o mesmo.

Pedras no caminho

Mesmo nas áreas em alta, o aumento de demanda não significa volume de renda. Carolina Simphronio, de 26 anos, que o diga. Graduada em tradução e interpretação, ela atua como professora de inglês freelancer há três anos. Antes da pandemia, sua média de alunos era de 12, com 25 aulas por semana. Em abril, ela viu esse número cair bem: 8 alunos, e 16 aulas semanais. “Muitos deles perderam o emprego, outros tiveram o salário reduzido e não podiam mais arcar com os custos. Tive que renegociar preços para não perder ainda mais aulas”, conta.

A instabilidade financeira é uma das questões que Kátia aponta como dificuldade para esses profissionais. “A renda é o fator que puxa o freelancer para essa modalidade de trabalho, mas também pode ser a que afasta. Sem um planejamento financeiro, boa valoração dos serviços prestados e uma rede de networking para indicações, o sucesso do profissional fica comprometido”, diz a especialista.

As plataformas de trabalho remoto, como as que citamos nesta reportagem, podem ajudar no quesito contato com clientes, mas não são milagrosas. A visibilidade do frila só cresce com um histórico de boas avaliações, indicações no boca a boca e um portfólio diversificado para apresentar. Se você é novo nisso, não vai começar esmerilhando.

Microempreendedor Individual 

Uma dica básica para quem saiu do mercado formal e só agora começa a conhecer o terreno acidentado da autonomia é abrir uma MEI de uma vez. É o que muita gente fez durante a pandemia, aliás. A quantidade de pessoas que abriram um CNPJ como microempreendedor individual subiu 28% no terceiro trimestre de 2020, em comparação ao mesmo período de 2019.

Mesmo assim, a relutância no cadastro ainda é grande. “Muitos têm medo das responsabilidades. Acham que vão pagar impostos altos e ter mais complicações, mas é justamente o contrário”, diz Wilson Poit, diretor superintendente do Sebrae de São Paulo.

De fato. O MEI foi criado em 2008, e facilitou a burocracia kafkiana que era abrir uma empresa. O micro-empreendedor era obrigado a pagar um corredor polonês de impostos, e deixar um rim num escritório de contabilidade para manter as contas em dia – igual um empresário de maior porte.
Isso acabou. Quem ganha até R$ 81 mil por ano (uma média de R$ 6.705 mensais) pode criar um CNPJ na modalidade MEI (microempreendedor individual). Que vantagem Maria leva?

Começa nos impostos. O frila que não tem CNPJ costuma receber via RPA (recibo de pagamento autônomo). O imposto de renda aí pode chegar a 27% do valor do trabalho. Quando você tem MEI, não. De acordo com o Sebrae, o MEI é isento de imposto de renda, desde que você mantenha em dia os registros de receitas e despesas para apresentar no momento da declaração do seu IR.

O único imposto que o MEI precisa pagar é uma taxa mensal que varia de R$ 50,90 a R$ 55,90 (dependendo do segmento de mercado em que você atua). Ela corresponde a um tributo único que já concentra PIS, Cofins, IRPJ, CSLL, IPI, ICMS, ISS… É isso. Trata-se de uma tributação pelo Simples Nacional, que joga essa maçaroca de siglas no liquidificador e te devolve na forma de um boleto solitário, o DAS, que chega todo mês.

Com isso, o MEI tem certos benefícios que compensam em parte a falta de um contrato trabalhista. O principal é a aposentadoria por idade pelo INSS – válida para quem tem pelo menos 15 anos de contribuição. Também há o salário-maternidade. A partir de dez meses de contribuição, as mulheres passam a ter direito a um salário mínimo (R$ 1.045) por quatro meses. A partir de um ano de contribuição, também há o direito a auxílio-doença e aposentadoria por invalidez, também de R$ 1.045.

Outro benefício é que o simples fato de ter um CNPJ facilita bem na hora de obter crédito nos bancos. Então, sim: se você quer crescer como autônomo (e quem não quer?), vale a pena virar MEI. E, se você não conseguir uma recolocação no mercado formal, que esse seja o primeiro passo para um novo capítulo em sua vida: a conversão de empregado para empresário.

 (Arte/Você S/A)


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