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Sofia Esteves Fundadora e presidente do conselho do Grupo Cia. de Talentos, professora e pesquisadora de gestão de pessoas

Está na hora de ser resiliente ou antifrágil?

Resiliência é saber se adaptar. Já a antifragilidade tem a ver com evolução e inovação.

Por Juliana Américo Atualizado em 1 out 2021, 11h44 - Publicado em 1 out 2021, 09h59

Sua empresa deve voltar para o escritório? Fiz essa pergunta no meu perfil no LinkedIn para entender como estava essa movimentação entre aqueles que puderam trabalhar remotamente, já que a maioria dos brasileiros não teve essa alternativa.

Dos 5.420 respondentes, 45% disseram que irão retornar no modelo híbrido, enquanto 23% afirmaram que ficariam totalmente em home office, 22% já tinham retornado e 10% voltariam 100% para o presencial. Independentemente de qual grupo você se encaixa, acho que você precisará se adaptar de novo.

A volta para o presencial exige um novo ciclo de adaptações porque, veja bem, não é para aquele formato pré-pandemia que você deve voltar, e, sim, para um transformado pelos novos tempos. Nem o escritório nem as pessoas estarão do mesmo jeito de antes.

No modelo híbrido, o desafio é trabalhar com parte da empresa distante e parte próxima, os esquemas de rodízio, as novas agendas de reuniões etc. E mesmo quem permanece no remoto pode sentir necessidade de mudar porque, talvez, tenha se adaptado para esse modelo à distância apenas temporariamente, improvisando um cantinho na casa e se virando com uma conexão de internet instável. Uma coisa é ajustar a mentalidade para o home office temporário por conta de uma urgência sanitária, outra coisa muito diferente é assumir este como o seu estilo de trabalho permanente.

Por conta dessa intensa onda de adaptações e readaptações que temos vivido, as competências comportamentais ganharam ainda mais destaque nos processos de recrutamento. Você já deve ter visto inúmeras pesquisas apontando adaptabilidade, flexibilidade e resiliência como algumas das mais requisitadas pelos RHs, certo?

Esta última, aliás, é a que mais se destaca nas estatísticas do Google Trends nos últimos tempos. Buscas como “o que é resiliência” e “o que significa resiliente” estão entre as principais, então acho que vale a pena explicar o seu significado e refletir sobre outra competência parecida, mas com um resultado diferente da resiliência: a antifragilidade.

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Primeiro, vamos à definição do termo mais popular: resiliência tem a ver com adaptação. Na física, o termo diz respeito à capacidade de um material sofrer pressão e conseguir voltar ao seu estado original, sem apresentar danos e deformações. No mundo do trabalho, refere-se às pessoas com capacidade de retornar ao seu equilíbrio emocional após sofrer adversidades e/ou serem submetidas a muito estresse. Nos dois sentidos, o ponto de similaridade é conseguir permanecer o mesmo após pressões. E é aí que entra o conceito de antifragilidade.

À primeira vista, ele pode parecer a mesma coisa que resiliência, porém existe uma sutil e importante diferença: o resiliente resiste às colisões e continua igual; o antifrágil fica cada vez melhor. Pelo menos é essa a explicação de quem propôs o termo, o economista libanês Nassim Nicholas.

Para o especialista, uma pessoa antifrágil aceita a volatilidade do mundo, a aleatoriedade, o risco, a incerteza, enfim, as características expressas por acrônimos como VUCA e BANI, e tenta se tornar melhor diante disso. Ser antifrágil tem mais a ver com verbos como evoluir, revolucionar e inovar do que resistir (um verbo ligado à ideia de resiliência).

Ao compartilhar esse conceito, não quero de forma alguma retroceder alguns passos e defender aquela figura de profissionais inabaláveis, chefes que se portam como heróis, equipes que escondem inseguranças. Já aprendemos — ou assim espero — a importância de reconhecer nossa vulnerabilidade.

Trouxe essa ideia da antifragilidade para o texto por conta daquelas transformações todas que comentei nos primeiros parágrafos. Porque penso que apenas resistir às mudanças não é suficiente, precisamos, sempre que possível, melhorar diante delas.

Lá no começo da pandemia, o objetivo de muitos negócios e de colaboradores era simplesmente o de sobreviver ao turbilhão de desafios. Só queríamos chegar de pé no dia seguinte e essa postura é compreensível.

Porém, talvez agora possamos pensar mais em uma postura antifrágil do que resiliente. Ou seja, refletir sobre como podemos passar por situações de dificuldade e de estresse e, em vez de sair delas iguais, sairmos com aprendizados que levam a mudanças, com ideias que geram inovações, com visões críticas que levam a alteração de rotas. Em vez de resistir com todas as forças à pressão, sentir seu impacto, absorvê-lo e, então, ressignificá-lo.

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