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Petróleo segue seu rali, e derruba as bolsas 

Medo de uma estagflação global deixa S&P 500 no vermelho. Ibovespa segue: queda de 0,58%, aos 112.180 pontos.

Por Alexandre Versignassi Atualizado em 11 out 2021, 18h06 - Publicado em 11 out 2021, 18h01

Quando as bolsas começam a subir num cenário obviamente negativo, o noticiário econômico entra em modo esquizofrenia. Foi o que aconteceu hoje.

No início do dia, as bolsas americanas engataram uma alta. Isso no mesmo momento em que o petróleo não parava de subir. O problema: a alta no barril está causando uma inflação global – quando o petróleo sobe, e hoje foram mais 1,53%, o resto vai junto. 

Essa inflação global cria uma pressão pelo fim dos estímulos econômicos (como os juros baixos, que seguem em voga no mundo desenvolvido). Sem os tais estímulos, a economia definha. 

Num cenário normal, esse encolhimento da economia faria baixar o preço do petróleo. Mas o cenário não é normal. O petróleo sobe porque a oferta hoje é baixa. Investe-se menos em novos poços, por conta das políticas de descarbonização. E essa situação não vai mudar. Logo, o petróleo tem tudo para continuar sua trajetória ascendente, independentemente da retirada dos estímulos. 

E o que se desenha é um cenário de “estagflação”: economia travada + preços que não param de subir. O Brasil conhece bem isso. Em 1990, por exemplo, tivemos recessão, com queda de 4% no PIB, mais 1.400% de inflação. Mas lá fora inflação é, historicamente, um fenômeno ligado a economias aquecidas. Não é o que está acontecendo agora.   

De volta à esquizofrenia. Quando as bolsas abriram em alta, o noticiário gringo saiu interpretando que “o mercado perdeu o medo da estagflação”. Não. Ninguém tinha perdido o medo de nada. A alta era só uma flutuação normal. No início da tarde, os índices passaram a apontar para a direção natural de mais um dia com o petróleo em alta: para baixo. E ficaram assim até o fim do dia: baixa de 0,69% no S&P 500.

O Ibovespa seguiu fielmente: abriu em alta e fechou numa queda de 0,58%, aos 112.180 pontos. E olha que houve uma bela notícia para a gente: o minério de ferro deu um repique forte hoje. Salto de 9,44%, que deu um fôlego para Vale (2,22%) e Bradespar, que controla a mineradora (2,64%).

Com isso, o minério já apresenta uma alta de 40% em menos de um mês. No dia 17 de setembro, ele tinha fechado a US$ 97 a tonelada. Agora está em US$ 135. Ainda é bem menos que o pico histórico (atingido em maio), de US$ 235. Só que é mais do que o suficiente para garantir uma operação saudável aos países que exportam a commodity, caso do nosso.  

Selic a 8,75%, dólar a R$ 5,25

O Comitê de Política Monetária já avisou que vai subir a Selic em um ponto percentual em sua próxima reunião, que acontece nos dias 26 e 27 de outubro. A taxa básica de juros da economia, então, vai saltar dos atuais 6,25% para 7,25% logo mais. 

No mercado, a expectativa para o início de 2022 era de uma Selic em 8,50%, de acordo com a pesquisa semanal do Boletim Focus, que o BC realiza junto a economistas. Não mais. Na edição de hoje do boletim, a média das expectativas saltou para 8,75%.

A perspectiva para a inflação no ano que vem segue otimista. Nos últimos 12 meses (que é o que conta) ela está em 10,25%. No Boletim Focus, apostam em 4% para o final de 2022 (4,17%, na verdade, mas não faz sentido reproduzir a futurologia dos economistas em números exatos – inflação é algo terrivelmente menos previsível que a Selic). 

O fato é: acredita-se que a alta na Selic vá fazer efeito logo, e derrubar a inflação para menos da metade. A ver. 

Para o dólar, estimam R$ 5,25. Um número também otimista, dados os fatores que pesam contra para o ano que vem: o aumento da “Selic” dos EUA, que faz o dólar valorizar (pois os juros dos títulos públicos americanos passam a pagar mais) e a eleição presidencial – que só não geraria calafrios no mercado financeiro caso houvesse uma candidatura forte da “terceira via”. Não há, sabe-se.  

Embraer: mais 4,89% para a conta

A fabricante de aviões bem que poderia aproveitar o feriado desta terça e deixar um manche ou um flap na Sala dos Milagres do Santuário de Aparecida – o lugar onde os romeiros depositam objetos em retribuição a graças alcançadas.

É que 2021 está sendo o grande ano da companhia na bolsa: alta de 193% desde o início do ano – já contando os 4,89% de hoje. É a maior do Ibovespa, de longe. 

Boa parte do desempenho está ligado à Eve Urban Air Mobility, uma subsidiária da Embraer voltada ao desenvolvimento de um eVTOL – basicamente um drone gigante, capaz de levar passageiros. A Eve já fechou diversos acordos para o fornecimento desses veículos no futuro (2025 em diante), e tem tanto potencial que, se abrir o capital, deve ser avaliada por um preço ainda maior que o da empresa-mãe.

Mas a notícia que propiciou a alta de hoje veio da Embraer tradicional mesmo. Ela acertou a venda de 100 jatinhos Phenom 300E para a NetJets, a empresa de compartilhamento de aviões executivos controlada pela Berkshire Hathaway. O negócio deve colocar US$ 1,2 bilhão no caixa da empresa ao longo dos próximos anos. 

A NetJets tem mais de 700 aeronaves. 100 delas já eram Phenom (no caso, toda a linha de jatos “leves”, para curtas distâncias e com capacidade para até 7 passageiros). Agora essa frota será dobrada. Isso indica uma tendência: a da substituição de jatos executivos de grande porte por aeronaves menores e mais baratas – setor em que a Embraer nada de braçada, já que o Phenom 300E é o avião mais vendido do mundo nessa categoria.

E isso é tudo, pessoal. Bom feriado!

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Maiores altas

Pão de Açucar (PCAR3): 5,28%

Embraer (EMBR3):  4,89%

CMIG (CMIG4): 3,18%

Petrorio (PRIO3): 2,85%

Bradespar (BRAP4): 2,64%

Maiores baixas

Banco Inter Unit (BIDI11): -10,22 %

Banco Inter PN (BIDI4): -9,82%

Banco Pan (BPAN4): -8,07%

Petz (PETZ3): -6,03%

BTG Pactual (BPAC11): -5,75%

Ibovespa: -0,58%, aos 112.180 pontos

Em Nova York

S&P 500: -0,69%, aos 4.361 pontos

Nasdaq: -0,64%, aos 14.486 pontos

Dow Jones -0,72%, aos 34.496 pontos

Dólar: 0,38%, a R$ 5,5396

Petróleo

Brent: 1,53%, a US$ 83,65

WTI: 1,47%, a US$ 80,52

Minério de ferro: 9,44%, a US$ 135,03 a tonelada, no porto de Qingdao (China).

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