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Petrobras vai investir e produzir menos. E a ação? Também vale menos

No fim, o Ibovespa terminou o dia no zero a zero, sem a ajudinha de Nova York, que comemorava o Dia de Ação de Graças.

Por Monique Lima, Tássia Kastner Atualizado em 27 nov 2020, 09h30 - Publicado em 26 nov 2020, 19h52

A Petrobras quer ir devagar nos próximos cinco anos, fazer uma poupança e continuar pagando as dívidas. Um comportamento conservador, vamos dizer assim. E como ela vai fazer isso? Vai investir menos e também vai produzir menos. 

É o que a companhia escreveu em seu planejamento estratégico para o período, que é atualizado anualmente. Nem o reforço de dizer que pretende pagar mais dividendos a acionistas foi o bastante para que o pacote fosse visto com otimismo: as ações da companhia recuaram, isso apesar da recepção positiva de analistas do mercado sobre o plano.

O corte nos investimentos deve ser 27%. Agora a empresa pretende desembolsar US$ 55 bilhões entre 2021 e 2025, ante os US$ 75 bilhões que planejava  gastar em cinco anos até 2024. No ano passado, a Petrobras já tinha colocado em seu planejamento estratégico uma redução nos investimentos. É a Petro sob nova direção, sob o comando de Roberto Castello Branco, que assumiu a estatal no governo Bolsonaro.

A maior parte do dinheiro vai mesmo para exploração de petróleo — principalmente no pré-sal –, igualmente em linha com a estratégia da atual gestão da companhia. Dá para entender por que o investimento no pré-sal lendo essa reportagem aqui.

A empresa também indicou que vai produzir menos petróleo que o planejado anteriormente. Para 2021, estima uma produção de 2,75 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boed — unidade de medida utilizada para converter volume de gás natural em um volume de óleo). Antes, esperava extrair 2,9 milhões de boed. A justificativa para a revisão é a crise causada pelo coronavírus que ainda deve render perdas no ano de 2021 e refletiu em uma projeção conservadora, não animadora.

Mas para os próximos anos também houve uma redução. A estatal dizia, até o ano passado, que em 2024 produziria 3,5 milhões de boed. O número foi reduzido para 3,3 milhões de boed, que deve ser repetido até o final de 2025. 

Em relatório a clientes, o BTG Pactual escreveu que investidores poderiam considerar esse número decepcionante. 

A companhia explicou ainda, no texto em que detalhava o planejamento, que continua comprometida com a redução de sua dívida. No final do terceiro trimestre, ela estava em R$ 79,6 bilhões. A meta é chegar ao valor bruto (sem descontar o dinheiro em caixa) de US$ 67 bilhões em 2021 e de US$ 60 bilhões em 2022.

Não é uma perspectiva tão desafiadora em vista dos bons números alcançados até agora. Entre janeiro de 2019 a setembro de 2020, a Petro reduziu sua dívida bruta em US$ 31 bilhões. Para isso, a aposta foi na venda dos ativos considerados pela atual gestão não estratégicos. A empresa tem mais de 50 bens em diferentes estágios do processo de venda, como as refinarias.

A companhia tem como meta deixar os outros negócios em que atua para se concentrar na parte de exploração. É por isso que a estatal vendeu o controle da BR Distribuidora e agora quer deixar o setor de refino (a etapa que transforma petróleo bruto em combustível).

O Credit Suisse achou os números decepcionantes, mas manteve a avaliação da Petrobras como “acima do esperado”, pelo menos até o dia 30 em que haverá mais detalhes desse planejamento estratégico. É quando a companhia fará o Petrobras Day, o dia de prestação de contas e apresentação de planos aos acionistas e analistas do mercado financeiro.

Já o BTG disse em relatório a seus clientes estrangeiros que o papel da estatal negociado em Nova York tem potencial de chegar a US$ 12, ante o patamar atual de US$ 10, e por isso recomendava compra. Para o banco, a estatal está adotando um caminho seguro para o crescimento e geração de valor aos acionistas. Por geração de valor ao acionista, que aparece no documento da estatal, leia sempre “dividendos mais polpudos”.

Mas nada disso foi suficiente: as ações caíram (PETR3, -1,54%; PETR4, -1,64%). Não dá para dizer que foi tudo culpa do planejamento, claro. Os papéis também foram pressionados pela redução do preço do petróleo lá fora. 

Feriado nos EUA e desconfiança em Brasília 

Depois de um dia inteiro no vermelho, a bolsa brasileira virou para o azul nos últimos minutos do segundo tempo e fechou perto da estabilidade, com leve alta de 0,09%, mantendo os 110 mil pontos. 

Sem a referência das bolsas americanas, que fecharam hoje para o feriado de Ação de Graças, o que movimentou o Ibovespa por aqui foi somente o cenário interno, que está às voltas com mais uma novela palaciana.

O desentendimento é mais uma vez com o ministro Paulo Guedes. Dessa vez, a dupla da rusga é o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que deu a entender que o país está sem credibilidade e sem plano para estabilizar a dívida interna. Com essa cutucada na ferida, o “posto Ipiranga” do governo Bolsonaro se disse ofendido e foi logo respondendo que o plano existe, mas se o Campos Neto tivesse um melhor, que apresentasse. 

A passada de panos quentes veio do próprio líder do Executivo. Em um evento no Planalto, disse que o “posto Ipiranga” é insubstituível. A questão é: a fala aconteceu após Paulo Guedes se recusar a subir em púlpito para falar com a imprensa e os que estavam presentes.

No final das contas, o presidente fez o papel de tentar acalmar os ânimos dos investidores, mas  a questão fiscal permanece delicada e no radar do mercado financeiro. É bom que o plano do “posto Ipiranga” funcione, porque as perspectivas vão de mal a pior. 

Os números de coronavírus seguem em alta. Somente a região Sudeste teve alta de 71% dos casos na última quinzena. A cidade de São Paulo já estuda restringir alguns locais de lazer para diminuir a taxa de contaminação e o aumento de casos. 

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Lockdown é palavra proibida, principalmente em vista do segundo turno das eleições municipais no próximo domingo (29), resta esperar quais serão os próximos passos para conter o avanço da doença e recepcionar as possíveis vacinas. 

 

MAIORES ALTAS 

Suzano: 5,68%

PetroRio: 5,17%

Cia Siderurgica Nacional: 4,53%

Cogna: 4,30%

Usiminas: 4,04%

 

MAIORES BAIXAS 

Notre Dame Intermédica: -2,58%

Itaú: -2,11%

Pão de Açúcar: -2,06% 

Hapvida: -1,86%

Bradesco: -1,73%

 

Petróleo 

Brent: -1,66%, a US$ 47,80 o barril

WTI: fechado

 

Dólar: +0,28%, a R$ 5,3352

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