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Petrobras e o mais abafado dos crimes financeiros: insider trading

Alguém apostou na queda das ações da estatal, quando ninguém teria motivos para apostar na baixa – exceto se soubesse o tema de uma reunião em Brasília.

Por Alexandre Versignassi e Tássia Kastner Atualizado em 12 abr 2021, 10h47 - Publicado em 8 mar 2021, 08h00

Alguém ganhou uma soma que pode chegar a R$ 18 milhões apostando na queda das ações da Petrobras em fevereiro, conforme apurou a jornalista Malu Gaspar, de O Globo. O lance aconteceu horas antes da live presidencial de quinta-feira, 18/2, quando Bolsonaro disse que “mexeria em alguma coisa” na Petro. E um dia antes do anúncio-bomba da queda do presidente da estatal, Roberto Castello Branco, que vinha fazendo uma gestão elogiada pelo mercado.

Ou seja: a intervenção presidencial obviamente derrubaria as ações da companhia. E dá para apostar em quedas usando opções de venda – um instrumento comum do mercado. A chegada da tal intervenção era algo particularmente difícil de prever. Tanto que, naquela quinta, basicamente não havia apostas em queda da Petro.

Às 17h35 de quinta, porém, alguém apostou R$ 160 mil no fato de que a Petrobras cairia pelo menos 8%. Isso foi 20 minutos após o fim da reunião ministerial na qual, segundo o próprio Bolsonaro, a pauta foi a Petrobras – que teria seu presidente destituído na sexta. Na segunda, as ações caíram 20%, o que pode ter proporcionado ao apostador misterioso um lucro de até R$ 18 milhões.

Ou seja: é extremamente provável que algum dos presentes na reunião da cúpula do governo tenha vazado a informação para que alguém ganhasse uma fortuna em cima dela. O nome disso é insider trading, um crime com pena de cinco anos de prisão e multas vultosas.

O problema não é exatamente a demora. É a impunidade. Um estudo da professora Viviane Prado, da FGV, apontou o seguinte: a Comissão de Valores Mobiliários abriu processos administrativos em 54 casos de insider trading entre 2008 e 2018. Das 158 pessoas citadas ali, 66 receberam alguma multa da CVM. Mas ninguém foi para a cadeia.

A CVM nega o lucro milionário, mas as investigações persistem. O gerente de RH da estatal, Cláudio da Costa, foi demitido por suspeita de operação irregular – que ele nega ser irregular e tampouco que seja a operação em questão. Tem muita coisa para acontecer ainda nesse episódio.

 

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