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O que esperar para os principais setores da bolsa em 2022

Embraer e Braskem renderam mais do que o Bitcoin em 2021. Frigoríficos surfaram com margens de lucro de pai para filho nos EUA. O varejo desabou. E agora?

Por Tássia Kastner | Design e Colagem: Caroline Aranha | Edição: Alexandre Versignassi Atualizado em 13 jan 2022, 19h31 - Publicado em 14 jan 2022, 07h22

Um investidor que tivesse colocado R$ 100.000 em Bitcoins em 30 de dezembro de 2020 teria fechado 2021 com R$ 175.000. Se os mesmos R$ 100 mil fossem usados para comprar ações da Embraer, o resultado seria ainda maior: uma bolada de R$ 280 mil.

A disparada de 180% nos papéis estava fora do radar da Faria Lima. Pudera: a companhia atravessava anos de uma crise coroada pelo fracasso da fusão com a Boeing. Aí veio a pandemia, que dois anos depois ainda afeta o setor aéreo e tinha tudo para deixar a Embraer numa situação financeira ainda mais delicada.

Mas a empresa de São José dos Campos tirou um coelho da cartola: seu projeto de “carros voadores” decolou. O nome técnico da coisa é eVTOL (veículo elétrico de decolagem vertical) – um primo limpo do helicóptero com potencial para revolucionar o transporte urbano. O plano de a Embraer fabricar um já existia desde 2018, mas foi em 2021 que a Eve, a subsidiária responsável pelo projeto, ganhou o noticiário.

A Eve fechou o ano com contratos para entregar mais de 500 eVTOLs, deixando claro que poderá ser um player importante do setor. Foi o bastante para atiçar os investidores. A aposta é tão alta que a Eve deve chegar à Bolsa de Nova York neste ano valendo mais do que a própria Embraer. US$ 2,9 bi para ela x US$ 2,6 bi para a empresa-mãe. Na ponta do lápis, comprar ações da Embraer hoje significa investir na Eve e levar a fabricante de jatos de brinde. Ou seja: o momento segue positivo. Ainda mais porque a venda de aviões comerciais, o maior negócio da companhia, deve passar por menos turbulências em 2022, com o eventual arrefecimento da pandemia.

Além da Embraer, só uma outra companhia valorizou mais de 100% no ano passado: a Braskem. Depois de muito vai e vem, Petrobras e Novonor (novo nome da Odebrecht) fecharam um acordo para vender a participação que elas detêm na petroquímica. A estatal de petróleo tem 36% das ações ordinárias, com direito a voto, e a ex-Odebrecht é a controladora da empresa, com 50,11% dos papéis ON. Contabilizando também as ações preferenciais, que não dão direito a voto, Petrobras e Novonor detêm 75% da Braskem, em participações equivalentes. São os donos da coisa toda.

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O fato de que as duas pretendem abrir mão da petroquímica fez a ação subir 176% em 2021. Normalmente, quando os donos querem vender um negócio, a ação da empresa tende a cair. A Braskem virou uma exceção justamente pelos nomes dos seus donos. A Novonor segue em recuperação judicial, reflexo da crise que se seguiu após os casos de corrupção investigados na Lava Jato. Já a saída da Petrobras é comemorada pelo fim do risco de intervenção estatal, algo que sempre assombra investidores.

Resta ver se a eventual saída da Novonor e da Petrobras já está precificada, ou seja, se a ação já subiu tudo o que tinha para subir ante essa notícia. Talvez isso tenha acontecido, já que a empresa chegou ao patamar atual de preço há um bom tempo já – em abril. Por outro lado, os lucros seguiram crescendo. Nos três primeiros trimestres de 2021, foram R$ 15,7 bilhões. E a expectativa do BTG Pactual era a de que o ano fechasse em R$ 17,3 bilhões, ante um prejuízo de R$ 6,7 bilhões em 2020 (o resultado do 4T21 ainda não tinha saído até a conclusão deste texto).

Embraer e Braskem foram exceções em um ano terrível para a bolsa brasileira. Das 91 ações do Ibovespa, apenas 27 registraram alta em 2021 – e só 18 subiram mais de 10%, o que só serviu para compensar a inflação do período. E essas empresas têm algo em comum: não dependem do Brasil para faturar.

Também é o caso dos frigoríficos. JBS e Marfrig, duas das maiores produtoras de carne do mundo, ocuparam o terceiro e quarto lugar das grandes altas do ano, com mais de 70% cada uma. Hoje a maior parte dos abates das duas empresas ocorre nos EUA – 70% da receita é gerada no exterior. Por lá, a carne bovina subiu 20% em 2021 – o triplo da inflação do dólar. As cotações do boi, porém, não subiram na mesma velocidade. Isso criou margens de lucro históricas para a dupla.

O problema: esse cenário tende a não se manter para 2022. O preço do boi vivo, afinal, começou a aumentar lá fora. “As margens da carne bovina dos EUA estão se deteriorando mais rapidamente do que esperávamos, caindo 44% no ano”, diz um relatório do Bradesco BBI publicado em dezembro.

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Minerva e BRF, outros dois frigoríficos brasileiros, também fecharam o ano com alta, mas não da mesma magnitude. A Minerva (15,7%) também tira 70% de seu faturamento com exportações, mas a maior parte da operação da empresa está na América do Sul, onde os preços do boi subiram de forma mais intensa. A BRF (2,18%) é concentrada na produção de carnes de suínos e aves, mais suscetível às altas nos preços de milho e soja, os principais componentes da ração dos animais.

O que importa é: com a alta demanda no mercado internacional, essas empresas conseguiram escapar do impacto da perda de renda da população brasileira, que reduziu o consumo para o menor patamar em 12 anos.

Uma cortesia da inflação, que atropelou a economia e obrigou o Banco Central a subir juros. Foi uma alta de juros tão acelerada, de 2% para 9,25%, que desconjuntou qualquer projeção que havia sido feita para o lucro das empresas. No começo do ano, economistas imaginavam que a Selic subiria para 3%. Sobre a inflação, projetava-se que ela ficaria em 3,32%; bateu 10% – patamar que havia sido visto pela última vez em 2015.

Segundo uma estimativa do BTG, a cada aumento de 1 ponto percentual na Selic, o lucro de empresas que vendem no mercado doméstico (exceto bancos e outros serviços financeiros) cai 1,8%.

É essa combinação que explica a ponta oposta do Ibovespa, a de maiores perdas do ano. A Magalu sofreu a maior queda, -71%, seguida de perto por Via (-67%) e Americanas (-58%).

Com a renda da população comprometida, não tem pirotecnia e nem estratégia digital que faça as empresas venderem geladeiras e smartphones novos. O tombo vai na contramão das apostas que o mercado financeiro fazia há um ano. Magazine Luiza e Via eram duas das empresas mais recomendadas por corretoras. Havia uma crença na recuperação da economia e retomada do emprego, o que estimularia o consumo.

Não foi o que aconteceu: o desemprego, que chegou a uma taxa recorde de 15,1% no primeiro trimestre de 2021, até começou a cair. Mas segue em duros 12,6%. E com um problema adicional, a renda da população tombou 11%, e foi para o menor patamar em uma década.

Frigoríficos e e-commerce funcionam, então, como espelhos invertidos. De um lado, empresas pouco dependentes do mercado doméstico e que vendem um produto essencial (comida). Do outro, companhias reféns da recuperação da renda do brasileiro, o seu único cliente. Para as carnes, analistas de ações ainda projetam espaços para nova alta – e recomendam o investimento em 2022, com destaque para a JBS. Já o varejo seria algo para 2023.

Construção

Outro setor que apanhou na bolsa em 2021 foi o de construção. A queda média foi de 28%. Entre as maiores, pior ainda: as ações da Cyrela caíram 44%, da MRV, 34%, e a JHSF cedeu 24%.

À primeira vista, não faria muito sentido. Ainda que a Selic tenha subido, as taxas cobradas no financiamento imobiliário ficaram nas mínimas históricas até a chegada do segundo semestre. E mesmo com elevação dos 6,99% para perto de 9%, o patamar ainda é considerado baixo pelo mercado. O crédito imobiliário acumulava alta de 77% de janeiro a novembro, segundo a Abecip (entidade das empresas de crédito imobiliário).

O problema ali não foi falta de demanda. Foi a inflação, que fez crescer o custo de produção dos imóveis. Nisso, as margens de lucro caíram. A geração de caixa da Cyrela, por exemplo, caiu de R$ 745 milhões no terceiro trimestre de 2020 para 177 milhões no terceiro tri de 2021.

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Tal aperto colocou a sustentabilidade financeira das construtoras em xeque, aos olhos do mercado. O INCC, que mede a inflação dos materiais da construção civil, chegou a registrar em junho uma alta de 17% na comparação com o mesmo mês de 2020.

Uma baixa na inflação pode melhorar o cenário para o setor. Em dezembro, o INCC tinha desacelerado para 14%. Com a política dura do Banco Central em relação à Selic, a tendência é a de que a frenagem nas altas perdure.

Commodities

Empresas ligadas a commodities também se safaram do pior na bolsa brasileira. A PetroRio fechou o top five de maiores altas (+47%), e a Petrobras, com 30%, também não fez feio – isso mesmo com todas intervenções do presidente Jair Bolsonaro na companhia. Houve de troca de presidente a ameaças de congelamento de preços dos combustíveis, uma revival do governo Dilma Rousseff.

O fato é que as empresas surfaram a alta nos preços do petróleo, que chegou a bater 70% no ano. O barril saiu da faixa dos US$ 50, no começo de 2021, para a máxima de US$ 86 em outubro, um patamar que não era visto há cinco anos. A commodity fecharia 2021 a US$ 77,68 – ainda grossos 54% em 12 meses.

Acontece que a oferta de petróleo foi reduzida durante o primeiro ano da pandemia, um jeito de evitar que o preço continuasse afundando num período em que as pessoas estavam em isolamento. A vida foi voltando ao normal, mas a quantidade de petróleo no mundo não. Daí a disparada nos preços.

Não foi só o petróleo que entrou em órbita. O mercado financeiro chegou a apostar que o mundo estava entrando em um novo superciclo de commodities, como aquele que se iniciou lá nos anos 2000, quando a China comprava todo e qualquer produto disponível.

E no começo do ano até parecia mesmo. O índice de commodities da Bloomberg terminou o ano com alta de 27%, estendendo os ganhos de 2020. Só que o pico foi em outubro, com alta de 34%. E olha que o minério nem entra nessa conta.

O principal produto da Vale chegou a subir 45% e foi ao recorde de US$ 230 por tonelada em maio do ano passado. A euforia era tanta que as ações da mineradora chegaram a subir para perto de R$ 120 entre o final de 2020 e maio de 2021, isso enquanto as apostas diziam que ela teria fôlego para beirar os R$ 140.

Até que a China começou a dar sinais de que não tinha apetite para bancar o tal do novo superciclo. O país ceifou a produção de aço para reduzir a poluição, economizar energia elétrica e, de quebra, abafar a crise da construção civil, que ia perdendo fôlego em meio ao superendividamento do setor, aquele que levou à quebra da Evergrande, uma espécie de Odebrecht deles, só que focada em prédios residenciais. O baque foi tão forte que a Vale terminou o ano com valorização de modestos 4,9%.

Só que o mundo seguia interessado em comprar aço, e os preços se mantiveram altos mesmo quando o minério começou a ceder. Era o empurrão de que Gerdau (+25%) e Usiminas (+12%) precisavam. A CSN, que em 2020 liderou a alta do Ibovespa com valorização de 126%, devolveu parte desses ganhos e caiu (-16%). Na média, o setor avançou 44%, segundo a Economatica.

O mundo ainda aposta que 2022 será de alta demanda por matérias-primas. Isso porque o plano de recuperação da economia dos EUA e de países ricos da Europa, como Alemanha, passa por investimentos em infraestrutura. Mas não o suficiente para bancar novas decolagens do minério de ferro – na verdade, a aposta é a de que a demanda razoável será o bastante apenas para que a commodity não caia demais. A XP, por exemplo, estima que o preço médio do minério deverá ficar ao redor dos US$ 90 a tonelada neste ano, bem abaixo dos US$ 120 do fechamento de 2021.

Ainda assim, a corretora recomenda a compra de ações da Vale em 2022 com a estimativa de que a ação poderá chegar a R$ 92. Em relação ao patamar do final do ano (R$ 78), isso representaria uma valorização de 18%.

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Fechando a torneira

Se as empresas brasileiras conseguiram se dar bem aproveitando o mercado externo, isso foi graças aos programas de estímulo econômico que despejaram rios de dinheiro na economia dos países ricos. Essa grana é o que estimulou a demanda por quase qualquer produto que estivesse à venda – e gerou uma inflação global.

A torneira começou a ser fechada em novembro. E a partir de março o Banco Central dos EUA deve começar a subir os juros por lá, o que drena dinheiro da economia.

Uma parte dessa demanda tende a arrefecer. Ninguém espera que o combate à inflação crie uma recessão no mundo, mas alguma desaceleração será inevitável.

No Brasil, porém, a disparada nos juros altos desenhou um quadro de recessão. O fato é que o país viveu um ano tão atípico em termos de altas nos juros que nem bancos e seguradoras, o setor que se beneficia diretamente da Selic mais gorda, conseguiram surfar a onda em 2021.

Juro é a matéria-prima dos bancos. Quando ele sobe, a receita com crédito aumenta. Itaú, Bradesco e Banco do Brasil passaram um ano inteirinho no radar de investidores como empresas baratas demais e que deveriam se sair bem. No fim, o setor terminou o ano com queda de 15%.

Acontece que, para além dos juros, bancos são um alvo preferencial do governo na hora de arrecadar mais impostos. Primeiro houve o aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido dos bancos, de 20% para 25%.

O governo também decidiu subir o IOF das operações de crédito, uma medida que afeta indiretamente a rentabilidade dos bancos. A conta é paga pelo consumidor, mas diminuiu o quanto ele pode tomar de crédito, já que um pedaço do dinheiro vai para o governo. Menor volume de crédito = menos lucros para os bancos.

A promessa era a de que as medidas seriam temporárias, para aliviar o rombo nos cofres públicos com os gastos da pandemia. Mas no fim do ano, justo quando essas medidas seriam revistas, o governo já estudava a prorrogação para cobrir outra despesa: a desoneração da folha de pagamento.

Ainda assim, o setor financeiro segue nas apostas para 2022 do BTG. Os analistas da casa sugerem ações de bancos tradicionais (Itaú ou Bradesco, no caso), e uma seguradora (a Porto Seguro), para tentar aproveitar a alta da Selic.

Trata-se de uma recomendação mais de defesa do que de ataque, já que 2022 tem tudo para ser ainda mais volátil que o ano passado. O segredo, aí, é se apegar a empresas que resistam bem ao cenário doméstico. Para a bolsa, 2021 ainda não acabou. Talvez a esperança seja descobrir a nova Embraer.

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