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Nem a alta da gasolina salva ação da Petrobras

É que a petroleira funciona como o WhatsApp da Faria Lima para Brasília. E o mercado mandou mensagem dizendo que teme mais um risco político

Por Tássia Kastner Atualizado em 5 jul 2021, 18h31 - Publicado em 5 jul 2021, 18h20

A Petrobras vai subir, a partir de amanhã, os preços da gasolina, do diesel e do gás de cozinha. Um reajuste nos combustíveis não ocorria desde que o general Silva e Luna assumiu o comando da estatal. No fim, essa intrincada relação entre empresa, governo e um militar ajuda a explicar por que, apesar do aumento, as ações da petroleira terminaram o dia em queda de mais de 1%.

Os reajustes serão de 6,3% para gasolina (o que dá mais R$ 0,16), 3,7% para o diesel (+0,10) e 6% no GLP (cujo impacto não foi calculado, ainda que o botijão já seja vendido acima de R$ 120 em São Paulo, quase um auxílio emergencial). Tem justificativa para o aumento. A companhia assumiu o compromisso de vender seus produtos com base nos preços praticados no mercado internacional. E o petróleo não para de subir.

Petróleo na lua

O barril do tipo brent fechou a US$ 77 nesta segunda, no que é o maior patamar desde 2018. O motivo é o seguinte: a Opep+ (o cartel de exportadores de petróleo) cortou a produção do combustível lá no começo da pandemia, para evitar que a queda do consumo elevasse os estoques da matéria-prima. Isso acabaria com o preço. Agora que economias ricas se recuperam, com o avanço da vacinação, a discussão sobre voltar a colocar mais petróleo no mercado.

Hoje o pessoal da Opep+ se reuniu, mas não chegou a um acordo. Aí, como a oferta de petróleo segue limitada, e os países continuam demandando mais combustível, a commodity se valorizou mais de 1%. 

O segundo fator que faz o preço dos combustíveis da Petrobras é o dólar. Hoje ele avançou, mas a verdade é que ronda os mais confortáveis R$ 5,05 do que os R$ 5,50 de meses atrás.

Ainda assim, economistas vinham dizendo que o preço estava defasado. Uma conta recente da Ativa Investimentos chegou falar em um desconto de 20%. Pode até amenizar a pancada no seu bolso na hora de abastecer o carro, mas é péssimo para a estatal – e para a confiança de investidores na economia.

É que o General Silva e Luna foi indicado pelo governo para o comando da Petrobras lá em fevereiro, quando Roberto Castello Branco enfileirou reajustes de combustíveis para manter a paridade com o mercado internacional. 

Preços mais altos têm efeito direto na popularidade do Presidente da República, ainda mais quando se trata de Bolsonaro, cuja base de apoio é formada, por exemplo, por caminhoneiros. O jeito que Bolsonaro encontrou de barrar os reajustes foi esse: trocar o presidente da estatal.  Mas mesmo para isso haveria um limite, já que o mercado financeiro começou a chiar com a disparidade de preços.

Saiu o aumento, o petróleo subiu e mesmo assim a Petrobras caiu 1,13% (a R$ 28,85 na PETR4), levando junto o Ibovespa. Por quê?

Risco político

Bem, porque a Petrobras é o jeito que a Faria Lima tem de mandar um WhatsApp para Brasília para reclamar do tal risco político. E coloca risco nisso. Nesta segunda, uma reportagem do UOL gravações da ex-cunhada de Bolsonaro afirmando que ele seria o líder do esquema de rachadinha nos gabinetes da família toda, enquanto ainda era deputado.

E essa foi só a notícia do dia, claro. No sábado, milhares de pessoas foram às ruas protestar contra o governo e pedir o impeachment do presidente. O combustível foi o suposto pedido de propina de US$ 1 para cada vacina comprada pelo Ministério da Saúde. 

É muita balbúrdia. 

E no meio dessa confusão, o Broadcast noticiou que o governo tentou barrar a indicação de Wilson Ferreira Jr. para a presidência da BR Distribuidora. Wilson estava à frente da Eletrobras e, quando pediu demissão, disse que a privatização da companhia não sairia sem o envolvimento direto de Bolsonaro. O que o Broadcast disse é que o presidente não curtiu a crítica e tentou sabotar o novo emprego do executivo.

Deu errado porque a BR Distribuidora havia sido privatizada e 2019, com a venda de ações do governo na bolsa. Na semana passada, a União se desfez das últimas ações que tinha na companhia. 

Ibovespa

A história é que Brasília continuará pensando sobre o mercado financeiro por algum tempo. Nesta segunda, o Ibovespa caiu 0,55%, a 126.920 pontos. O volume financeiro foi de minguados R$ 20 bilhões, enquanto a média do ano ronda dos R$ 35 bilhões.

As ações caíram só por problemas nossos. Dos 84 papéis do índice, 54 recuaram. Já a causa do menor volume está em Nova York. Lá as bolsas não abriram na esteira do feriado nacional de 4 de Julho. Sem a referência americana, investidores mundo afora também dão uma desacelerada nos negócios.

E o noticiário corporativo teve cara de feriado. A coisa mais animadinha do dia foi que a Hering e o Grupo Soma (dono da Animale) anunciaram os termos para a junção dos negócios. A Soma havia anunciado a compra da marca de roupas básicas por R$ 5,1 bilhões no mês de abril.

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A Hering terminou chegou a aparecer no top 5 do Ibov ao longo do dia, mas a valorização de 0,92% não foi suficiente para garantir um lugar no pódio. O Grupo Soma, fora do Ibovespa, avançou 0,68%.

A ver se amanhã os Estados Unidos nos trazem algum alento, já que anda difícil de contar com Brasília.

MAIORES ALTAS 

Ambev +2,93%

Braskem +1,77%

Copel +1,84%

CCR +1,64%

Cosan +1,47%

MAIORES QUEDAS

Locaweb -2,72%

Bradesco -3,81%

Pão de Açúcar -1,61%

B3 -1,89%

Totvs -1,74%

Ibovespa: -0,55%, a 126.920 pontos

Dólar: +0,68%, a R$ 5,0878

Petróleo

Brent: +1,30%, a US$ 77,16

WTI: +1,60%, a US$ 76,36

Minério de Ferro

+1,76%, a US$ 221,82 a tonelada no porto de Qingdao

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