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IPO do cheque em branco chega ao Brasil

Eles já captam mais dinheiro que as ofertas de ações tradicionais nos EUA. Agora o mercado financeiro negocia as regras para importar as SPACs para cá.

Por Tássia Kastner Atualizado em 15 abr 2021, 16h39 - Publicado em 5 abr 2021, 08h00

O IPO (oferta inicial de ações) você conhece: uma empresa vende ações na bolsa para captar recursos. Mas existe outro jeito de fazer isso. Um gestor de fundos encontra investidores antes e faz um IPO só para colocar o dinheiro em caixa. Depois disso ele sai em busca de uma companhia para comprar. Ou seja: primeiro entra a grana, só depois veem o que fazer com ela.

Esse modelo é o SPAC (sigla em inglês para “companhia com propósito específico de aquisição”), mas o pessoal do mercado financeiro apelidou de IPO do cheque em branco mesmo. Claro. Quando alguém decide entrar em uma SPAC, precisa confiar 100% no gestor que está organizando a captação de recursos, já que ele é quem vai decidir para onde o dinheiro vai.

E não tem faltado confiança. Só neste ano, foram captados US$ 96,7 bilhões nos EUA dessa maneira. Isso é 16% acima que todo o volume de ofertas de SPACs no ano passado inteiro. E olha que, em 2020, o volume captado com SPACs superou a arrecadação dos IPOs tradicionais.

Como isso aconteceu? Bem, teve uma ajudinha da pandemia. Com a crise, cada vez mais empresas passam por dificuldades financeiras. Aí fica difícil sair bem na foto, e menos gente embarca nos IPOs delas. O modelo da SPAC não tem a foto.

Não é só isso. O SPAC abre portas para a compra de empresas em dificuldades por valores módicos. O caso mais emblemático é do WeWork, que esteve à beira de ser listado na bolsa por um valor de mercado de US$ 47 bilhões, até que investidores começaram a questionar a governança e o modelo de negócios da empresa de coworkings. Agora, a companhia deve ir parar na bolsa após a aquisição de uma SPAC – a avaliação do WeWork está em meros US$ 9 bilhões.

O mercado cresceu tanto que gestores brasileiros começaram a captar dinheiro via SPACs lá nos EUA. Por aqui, a legislação brasileira não permite esse tipo de oferta pública.

Só que ajudar a organizar uma SPAC rende uma bela grana para os bancos, e ninguém quer ver esse dinheiro ir parar no caixa das instituições lá de fora. Por isso, a Anbima (entidade que reúne instituições financeiras) trabalha em uma proposta para a mudança de regras na CVM (o órgão regulador do mercado financeiro). A entidade quer aproveitar que a CVM já está aberta a mudar certas regras dos IPOs normais para colocar a SPAC no meio do bolo de novidades. A ver.

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