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EUA passam pela maior inflação desde 1982

“IPCA” dos EUA para abril sobe o quádruplo do esperado, e derruba as bolsas daqui e de lá em mais de 2%.

Por Juliana Américo, Alexandre Versignassi Atualizado em 13 Maio 2021, 12h07 - Publicado em 12 Maio 2021, 18h43

Tem gente que acha que inflação é igual jabuticaba: só tem no Brasil. Ledo engano. Inflação ocorre em qualquer país que imprime dinheiro demais. A quantidade de grana na praça fica maior do que a capacidade de produzir coisas para serem compradas com esse dinheiro, e os preços começam a subir todos juntos. Inflação. 

Nenhum país imprimiu mais dinheiro que os EUA para enfrentar a pandemia. 

Dólar de tolo

No começo de 2020, havia US$ 15,4 trilhões em circulação (contando dinheiro de papel, contas correntes e investimentos líquidos, daqueles que dá para sacar a qualquer momento). No final de março (dado mais recente divulgado pelo Fed), eram US$ 19,8 trilhões. Tudo isso veio de empréstimos a fundo perdido e do generoso auxílio emergencial dos EUA, que chega à maioria da população. 

Antes da pandemia, o ritmo de alta na quantidade de dólares na praça era de menos de US$ 1 trilhão por ano. Agora, foram US$ 4,4 trilhões a mais. 

0,80% lá X 0,31% aqui

E não deu outra: a inflação veio para os americanos. Ela foi de 0,80% em abril em ante março. Para comparar: a inflação no Brasil para o mesmo mês foi de 0,31%. 

Em março, que foi quando a sirene inflacionária ligou por aqui, tinha sido 0,93% – alta que inspirou o nosso Banco Central a dizer que seguiria aumentando a Selic com força (aumentos nos juros são a única vacina contra a inflação – o resto, como controle de preços pelo governo – é cloroquina; não serve para nada). 

O engraçado é que os analistas dos EUA, pelo jeito, também fazem parte da turma que acha o dólar imune a inflação. A mediana de previsões coletada pelo Wall Street Journal era de uma alta camarada de 0,2%. 

Deu o quádruplo.          

Maior inflação desde 1982

Trata-se da maior variação mensal em 12 anos. Já a chamada “inflação núcleo” (core inflation), que mede a evolução dos preços excluindo alimentos e energia (que variam demais e por diversos fatores), avançou 0,9% na comparação mensal. Esse é o maior aumento mensal do núcleo desde 1982. Sim, desde os tempos em que Thriller, de Michael Jackson, era a maior novidade da música os americanos não vêm os preços subirem tanto. 

O setor que mais inflacionou foi o de carros e caminhões usados, que ​​subiu 10% em abril. Este foi o maior aumento em um mês desde o início da série em 1953.  

Nisso, a “meta” anual do Fed, que é de 2% ano, foi para as cucuias. Nos últimos 12 meses a inflação foi de 4,2%. E o viés é de alta. Muuuuita alta. 

Escrevemos “meta” entre aspas porque o Banco Central americano já esperava o estouro, e defende com unhas e dentes que ele é temporário. Mas agora falta combinar com os russos. Sorry, Fed. O perigo agora de um descontrole na inflação é real. 

Caso a inflação se mantenha fora da curva, o Fed terá de aumentar os juros dos EUA logo – dado que, como dissemos, não há outro remédio. Juros mais altos significam menos dinheiro na praça e títulos públicos que pagam mais. Ou seja: machucam as bolsas.

E a queda foi horrenda. A Nasdaq levou um tombo de 2,67%. O S&P 500, de 2,15%. E agora a onda baixista chegou por aqui também.    

A bolsa brasileira teve a sua maior queda desde o dia 8 de março: 2,65%, perdendo os 120 mil pontos. Nem as commodities (que vão bem em períodos de inflação) conseguiram impedir a queda generalizada. 

Vale

A Vale e as siderúrgicas pesaram na queda. O minério de ferro subiu mais de 3%, mas a inflação americana e uma maior tendência de realização de lucros (já que o setor se valorizou nos últimos meses) fizeram com que a Vale caísse 3,70%. 

A mineradora é responsável por quase 13% da carteira do Ibovespa, então qualquer queda dela já faz um estrago no índice. Entre as siderúrgicas, o destaque negativo ficou com a Usiminas, que recuou 5,47%. 

Petrobras

O petróleo também teve alta de mais de 1% tanto nos preços do Brent (referência internacional) quanto do WTI (referência nos EUA). A Agência Internacional de Energia informou que o excesso de petróleo acumulado na pandemia foi praticamente zerado. E quando os estoques estão baixos, o preço sobe. 

Mas a Petrobras não conseguiu aproveitar: baixa de 1,47%. 

Marfrig

Entre as muitas quedas, quem liderou foi a Marfrig. A companhia divulgou seu balanço na terça-feira (11), logo depois do fim do pregão. Ela reverteu o prejuízo de R$ 137 milhões do primeiro trimestre do ano passado e registrou lucro de R$ 279 milhões para o mesmo período de 2021 – um bom resultado, em linha com o que o mercado esperava. 

A empresa comemorou o fato de esse ter sido o melhor primeiro trimestre da história da companhia. O Credit Suisse aumentou o preço-alvo da ação para R$ 26 (35% acima do valor atual), e reforçou sua recomendação de compra. Mas tivemos aí um caso típico de “sobe no boato e cai no fato”. As ações do frigorífico, que tinham subido 8% nos últimos três dias à espera desse balanço, recuaram 7,72% – maior baixa do dia. 

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BR Distribuidora

Se esta terça foi boa para alguém, esse alguém foi a BR Distribuidora. Na terça-feira (11), a empresa reportou lucro líquido de R$ 492 milhões no primeiro trimestre – resultado 110,3% melhor que o do mesmo período do ano passado. 

O que chamou atenção foi o Ebitda (que é o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Ele ficou em R$ 1,18 bilhão; alta de 116,9% ante do 1T20.

O Santander elevou o preço-alvo da distribuidora de combustíveis para R$ 33 e manteve a recomendação de compra das ações. Isso garantiu para a companhia a maior alta do dia, de 5,06%. 

Mas a BR foi uma solitária. A terceira “maior alta” já é de menos de 1%. Nas baixas, só desastre. Sinta o drama aqui embaixo. 

E até quinta!  

Maiores altas

BR Distribuidora: 5,06%

IRB Brasil: 1,44%

Ultrapar: 0,51%

Cielo: 0,29%

Suzano: 0,15%

Maiores baixas

Marfrig: -7,72%

Localiza: -7,22%

Iguatemi: -6,74%

Locamerica: -6,07%

Azul: -5,70%

Ibovespa: queda de 2,65%, aos 119.710 pontos

Em NY:

S&P 500: queda de 2.15%, aos 4.062 pontos

Nasdaq: queda de 2,67%, aos 13.031pontos 

Dow Jones: queda de 1,99%, aos 33.587 pontos 

Dólar: 1,59%, a R$ 5,30

Petróleo

Brent: alta de 1,12%, a US$ 69,32

WTI: alta de 1,22%, a US$ 66,08

Minério de ferro: alta de 3,77%, US$ 237,57 no porto de Qingdao (China)

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