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Emprego cai nos EUA, mas as bolsas comemoram. Qual é a pegadinha?

Relatório de empregos divulgado hoje veio com uma péssima notícia, e o mercado gostou. Entenda o paradoxo.

Por Monique Lima e Alexandre Versignassi Atualizado em 5 fev 2021, 14h28 - Publicado em 5 fev 2021, 13h46

As bolsas subiram aqui e em Nova York depois de uma péssima notícia sobre a criação de empregos nos Estados Unidos. 

O relatório divulgado hoje (5) mostrou a criação de 49 mil postos de trabalho não-agrícolas em janeiro. Um número frustrante. A estimativa média dos analistas consultados pela Bloomberg, por exemplo, apontava para a criação de 105 mil vagas.  

Outra surpresa negativa foi a revisão dos números de dezembro. Eles mostravam a extinção 140 mil vagas no final de 2020 – principalmente por conta de novas restrições estabelecidas nas cidades, para conter o avanço do coronavírus durante as festas de final de ano. Mas, esse número foi revisado (bem) para cima: 227 mil empregos perdidos. Nisso, o desemprego por lá segue num patamar preocupante para os padrões americanos: 6,3%.

Porque o mercado curtiu a notícia então? Por sadismo? Claro que não.

Acontece o seguinte: desde que tomou posse, em 20 de janeiro, o democrata Joe Biden tenta aprovar um novo pacote de estímulos, de US$ 1,9 trilhão. Os congressistas republicanos, porém, não queriam saber de aprovar mais do que US$ 600 bilhões. 

Ontem (4), os democratas venceram no senado. Por 51 a 50 (graças ao voto de Minerva da vice Kamala Harris), a casa aprovou um projeto de orçamento que inclui o pacote de estímulo de Biden. Detalhe que a reunião durou quase 15 horas com senadores revisando emendas de ambos os partidos. 

A aprovação final do orçamento, porém, ainda depende de outras votações. E aí que entra a “boa notícia” do desemprego em alta: ela ajuda a dar caráter de urgência para a aprovação do US$ 1,9 trilhão em dinheiro novo. Como já explicamos aqui, esse dinheiro que o governo americano basicamente imprime para injetar na economia acaba escoando, e vai parar nas bolsas de valores. Não só nas de lá – nas do mundo todo. Daí o Ibovespa também ter respondido com alegria à má notícia. 

Bom, quase 40% das pessoas que perderam o emprego estão sem trabalho há 27 semanas ou mais. Esse grupo, conhecido como desempregados de longa duração, não mudou de dezembro para janeiro. Segue em pouco mais de 4 milhões. E os postos de trabalho nos EUA permanecem 9,9 milhões abaixo dos níveis pré-pandêmicos – mesmo com os mais de US$ 5 trilhões que o governo americano já lançou na forma de estímulos. Ou seja: a torneira de dólares não deve fechar tão cedo. Se eles serão mesmo a vacina para a economia, é outra história. 

Setores que mais perderam vagas nos EUA em janeiro

  • Lazer: a hotelaria fechou 61 mil postos, após uma queda brutal de 536 mil em dezembro.
  • Assistência social: queda de 40,8 mil.
  • Comércio varejista: -37,8 mil.
  • Transporte: -27,8 mil. 
  • Indústria: -10 mil. 
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