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Em queda livre no buraco das manobras fiscais, Ibovespa despenca ao menor patamar do ano

Gambiarra para dar ares técnicos à destruição do teto implode o mercado. Dólar vai a R$ 5,66; Ibovespa cai 2,75% e membros da equipe econômica pedem demissão.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 21 out 2021, 18h42 - Publicado em 21 out 2021, 18h30

Bolsonaro não esconde seus anseios populistas já há algum tempo, é verdade. Mas parte do mercado ainda depositava suas esperanças em Paulo Guedes, cujo discurso pró-mercado e liberal punha um contraponto à ala ideológica do governo. Depois de hoje, porém, fica difícil acreditar que há alguém no governo de fato preocupado com as contas públicas. E o resultado foi uma sangria na bolsa: das 91 ações que compõem o Ibovespa, só duas não fecharam no vermelho. No pior fechamento desde novembro de 2020, o Ibovespa voltou aos 107 mil pontos. No ano, o índice já soma 15% de queda.

O terror da vez, você sabe, é o Auxílio Brasil – o Bolsa Família turbinado de R$ 190 para R$ 400 que Bolsonaro decidiu colocar em prática para tentar a reeleição.  

Só tem um problema: o governo não tinha deixado claro de onde sairia esse dinheiro. O teto de gastos – regra que limita o aumento das despesas federais à inflação – serve justamente para impedir um descontrole nas contas do governo em situações como essa, em que um governo se sinta politicamente tentado a adotar medidas capazes de destruir as contas públicas no longo prazo em nome de um benefício para si próprio no curto prazo. 

O jeitinho encontrado para aumentar a grana sem furar o teto foi justamente aumentar o teto. O teto de gastos é reajustado anualmente pela inflação acumulada nos últimos 12 meses, encerrando o cálculo sempre no mês de junho anterior à sua vigência. O que a PEC dos Precatórios propõe é uma mudança no período em que se calcula o IPCA para reajustar o teto: de janeiro a dezembro. O recálculo seria retroativo, computando a inflação acumulada desde 2017.

Como a inflação utilizada para o reajuste seria maior, o teto para o ano de 2022 aumenta junto – a folga seria de R$ 39 bilhões.   

A contabilidade criativa não para por aí: há ainda os cerca de R$ 40 bilhões que vem da limitação dos pagamentos dos precatórios (as dívidas do governo que devem ser pagas após decisão judicial), uma medida que já havia sido apresentada pelo governo federal. No total, a folga seria de mais de R$ 80 bi ao governo para o ano eleitoral.

O mercado não gostou nem um pouco, é claro. No começo da tarde, quando apenas os rumores da manobra circulavam, o Ibovespa chegou a cair mais de 4%; após a apresentação formal dos detalhes PEC na Câmara dos Deputados, reduziu-se as perdas, mas o tombo ainda foi grande no fechamento: -2,75%. 

O dólar subiu a R$ 5,66 e os juros futuros, estressados pelo risco fiscal, também dispararam. O temor sé que um descontrole nas contas públicas leve a inflação às alturas – e, com ela, a Selic.

Como se o incêndio já não fosse grande o suficiente, Bolsonaro decidiu jogar ainda mais gasolina na fogueira, quase que literalmente. Anunciou que vai oferecer um auxílio em dinheiro para 750 mil caminhoneiros, a fim de compensar os aumentos do diesel. O presidente não deu mais detalhes sobre o plano – nem anunciou a fonte dos recursos, é claro. O Broadcast, de qualquer forma, apurou que a ajuda pode ser de R$ 400 por mês até dezembro de 2022; no total, o “auxílio diesel” deve custar R$ 4 bilhões. Tudo o que o mercado não precisava ouvir num dia de ‘liberou geral’ nas contas públicas.

Enquanto o Ibovespa despencava por aqui, o S&P 500 renovou sua máxima histórica de fechamento nos EUA. Lá, investidores se animaram com um número de novos pedidos de auxílio-desemprego menor que o esperado e por balanços corporativos robustos. 

No momento, não temos os mesmos luxos no Brasil.

Mais: às 18h, uma hora após o fechamento do pregão, foi divulgado que dois líderes da equipe econômica pediram demissão: Bruno Funchal, Secretário do Orçamento, e Jeferson Bittencourt, Secretário do Tesouro. Gildenora Dantas, adjunta de Tesouro e Orçamento, e Rafael Araújo, adjunto do Tesouro, também pediram para sair. 

O fim do buraco ainda está longe.

Maiores altas

Suzano (SUZB3): 1,65%

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BB Seguridade (BBSE3): 0,80%

Maiores baixas

Getnet (GETT11): -19,76%

Americanas (AMER3): -10,76%

Banco Inter – Unit (BIDI11): -10,70%

Banco Inter – PN (BIDI4): -10,57%

Lojas Americanas (LAME4): -10,00%

Ibovespa: -2,75%, aos 107.735 pontos

Em Nova York

Dow Jones: -0,02%, aos 35.601 pontos

S&P 500: 0,30%, aos 4.549 pontos

Nasdaq: 0,62%, aos 15.216 pontos

Dólar: alta de 1,92%, a R$ 5,6676

Petróleo

Brent: -1,41%, a US$ 84,61

WTI: -1,10%, a US$ 82,50

Minério de ferro: -5,75%, a US$ 116,93 por tonelada no porto de Qingdao (China)

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