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Dólar fecha abaixo de R$ 5 com “polarização do bem” entre BC e Fed

Os dois BCs estão preocupados com a inflação, mas têm planos diferentes para enfrentá-la. Essa diferença faz a gente voltar a sonhar com a Disney (depois da vacina, claro).

Por Tássia Kastner e Guilherme Eler Atualizado em 23 jun 2021, 12h47 - Publicado em 22 jun 2021, 18h36

Parece difícil de acreditar, mas o dólar fechou abaixo dos R$ 5 pela primeira vez em um ano. Esse “milagre”, que na verdade era aguardado há algumas semanas, foi possível graças a uma divergência brutal na forma como o BC brasileiro e o Fed (o BC americano) pretendem lidar com a inflação alta. Essa é a polarização que a gente gosta.

Pela manhã, o nosso Banco Central divulgou a ata da reunião da semana passada, aquela que elevou a taxa de juros em 0,75 ponto percentual, para 4,25%. Jogo jogado. O choque da Faria Lima foi descobrir, lendo o documento, que os membros do Copom (o comitê do BC que decide a Selic) debateram a possibilidade de um aumento maior que os 0,75 aplicados. A ata indica que na reunião de agosto, a subida pode de fato ser acelerada, aí a aposta de investidores ficou em 1 ponto percentual (o que colocaria a Selic em 5,25%).

Tem mais. O que o BC diz é que a alta da inflação é preocupante e que o jeito de domar o bicho é recolocar o juro do país em um patamar “neutro”. Juro neutro é a taxa que nem estimula a economia (como acontece quando ele fica abaixo da inflação, o caso que a gente vive há mais de ano) e nem contrai a atividade (porque deixou o crédito caro demais).

Só que essa taxa neutra não é ciência exata, não existe um número mágico. As apostas andam ao redor de 6,50%.

A preocupação do BC não é exatamente exagerada. A inflação em 12 meses está em 8,06%, já bem distante da meta de 3,75% ao ano. E as notícias para o país são ruins nesse campo: a energia deve subir por causa da crise hídrica e eletricidade faz parte da produção de basicamente qualquer coisa no mundo. Aí já viu.

O lance é que essa posição mais firme do BC com o aumento de juros fez todo mundo atualizar planilha de Excel com apostas para os juros. Tanto que os contratos de DI negociados na bolsa (que basicamente servem para ganhar com as expectativas futuras da Selic) subiram. O vencimento em janeiro de 22 foi para 5,735%, ante 5,591% na segunda. O contrato para 2029 terminou o dia a 8,950% (de 8,933%).

Uma mudança de expectativas dessa magnitude bagunça todo o coreto. O dólar e a bolsa caíram. O lance é que, só com o BC, a moeda brasileira se mantinha acima dos R$ 5. Foi preciso um empurrão lá de fora.

Fed

Enquanto o Brasil sobe juros, o Fed continua dizendo que está de boa com a inflação em alta lá nos EUA. A deles anda ao redor de 5%, algo que não ocorria desde 2008. O lance é que, enquanto o nosso BC teme que a inflação deixe de ser temporária, lá nos EUA eles ainda consideram que isso é um fenômeno causado pelo coronavírus. Quando a economia voltar a funcionar 100%, os produtos que ficaram escassos voltam a chegar às prateleiras e os preços param de subir.

Nesta terça-feira, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou a deputados americanos que não faria uma elevação “preventiva” nas taxas de juros. Disse, ainda, que no segundo semestre o desemprego deve diminuir. Lembrando: enquanto no Brasil, formalmente, o BC tem compromisso apenas com a inflação, nos EUA o Fed precisa garantir estabilidade de preços ao maior nível de emprego possível.

Bem, o que aconteceu é que ficou claro para o pessoal nos EUA que os juros vão ficar perto de zero lá por bastante tempo. Por outro lado, o Brasil disse que vai subir de forma ainda mais acentuada a taxa. Eis o óbvio: a diferença entre os juros vai crescer.

É isso que faz com que investidores digam “hum, com essa diferença, dá para ganhar um trocado maior levando dinheiro para o Brasil”. Dá mesmo. Lá o juro é zero desde março do ano passado. Uma coisa era sair da segurança dos dólares em busca de 2% ao ano. Outra bem diferente é perseguir 6,50% que, agora, entrou na conta dos investidores. Bem mais interessante.

Bem, o lance é que os gringos estão mesmo importando mais dólares para o Brasil, ajudando a baixar a cotação da moeda americana por aqui. A queda hoje foi de 1,13%, fazendo o dólar chegar aos R$ 4,966.

Ibovespa

Não é só estrangeiro que vê juro maior e sai correndo para ganhar um naco. O mesmo acontece com os brasileiros. Se dá para ganhar um trocado gordinho na renda fixa, por que ficar no sobe e desce diário da bolsa? Pois é.

Esse é um dos motivos para a B3 ter tido um dia péssimo. O Ibovespa caiu 0,38%, para 128.767 pontos. Isso com Nova York no azul – a Nasdaq até bateu recorde depois da fala de Powell (juro menor, melhor para as empresas). Foi um massacre: das 84 ações do principal índice brasileiro, 58 caíram. 

A alta dos juros contou bem para a queda. Os papéis do setor bancário têm um peso grande no índice. Tem uma coisa de copo meio cheio (meio vazio, nesse caso). Em tese, juro alto é ótimo para os bancos, porque a receita deles cresce (tanto nas operações no mercado financeiro quanto com a concessão de crédito). Esse é o jeito positivo de ver a notícia. O lance é que, com juro maior, menos gente consegue pagar pelos empréstimos, e aí o banco dá menos crédito. Foi basicamente o que pegou. Mas não só isso.

Dividendos

Ontem o mercado deu uma ignorada na notícia que muda bastante coisa para investidores. O governo federal colocou na mesa uma proposta de reforma do Imposto de Renda. Para aumentar a faixa de isenção do IR (atualmente um pouco abaixo de R$ 2 mil), a ideia é taxar os dividendos, que hoje não pagam imposto. Ganhos mensais de até R$ 20 mil com dividendos ficariam isentos, pelo texto que circula por enquanto.

Hoje a coisa pegou no mercado. Investimento em ação, não custa lembrar, existe para distribuir lucro ao acionista. Se tem cobrança de imposto, aí um naco do dinheiro que pingava na sua conta passa a cair no caixa do governo. No fim, vai todo mundo refazer as contas para decidir se aquela empresa continua sendo um bom negócio. Bem, foram duas contas no mesmo dia: a da alta da Selic + do imposto sobre dividendos.

Bancões como Itaú e Bradesco nem são considerados ótimos pagadores de dividendos. O Itaú anda ao redor de um ganho anual de 5,81%, o Bradesco ronda os 4,5%, isso enquanto empresas de energia geram um rendimento perto de 10%. Mas os bancões são tão sólidos e gostam tanto de atrair investidores por esse mecanismo que pagam dividendos mensalmente. 

Não bateu só neles. Entre as maiores quedas do dia ficaram Tim, que teve desvalorização de 3,81%, e a Vivo (vai, conhecida ainda como Telefônica), com perdas de 2,75%. Assim como empresas de energia, companhias do setor de telecomunicações também têm tenda estável e costumam remunerar bem seus acionistas. Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP Investimentos, destacou, no Twitter, que as principais baixas são das empresas que entram na carteira dos investidores por causa dos dividendos polpudos.

Em resumo: foi um péssimo dia para ter ações, mas uma excelente terça para voltar a sonhar com a Disney – se a inflação não acabar com o seu salário, o imposto sobre dividendos não aniquilar demais a sua renda extra e a sua vez na fila da vacina finalmente chegar (OPS).

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Maiores altas

Pão de Açúcar: 2,90%

CVC: 2,45%

Totvs: 2,42%

Hapvida: 2,27%

Banco Inter: 1,58%

Maiores baixas

Tim: -3,81%

Cielo: -3,09%

CCR: -2,93%

Telefônica: -2,75%

Ambev: -2,35%

Ibovespa: -0,38%, aos 128.767 pontos

Em NY

S&P 500: 0,51%, aos 4,246 pontos

Nasdaq: 0,79%, aos 14.253 pontos

Dow Jones: 0,20%, aos 33.945 pontos

Dólar: -1,13%, a R$ 4,966

Petróleo

Brent: 0,12%, a US$ 74,81

WTI: -0,37%, a US$ 72,85

Minério de ferro

Alta de 2,96%, a US$ 214,32 a tonelada no porto de Qingdao (China)

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